Lorena não precisou fechar os olhos para voltar àquele dia. A lembrança veio sozinha, inteira, como sempre vinha.Ainda criança, ela estava trancada dentro de um armário, batendo na porta, tentando abrir. Do lado de fora, ninguém respondia. A fumaça começou a entrar, o fogo se espalhou, e ela gritou — gritou cada vez mais, a voz infantil ecoando dentro do espaço fechado, as mãos batendo desesperadamente na madeira — até que Leonardo, ainda adolescente, apareceu, o avô ao seu lado. Os dois entraram no meio da fumaça. Leonardo a encontrou, e o avô ajudou a tirá-la dali.* * *No hospital, os médicos explicaram que sua garganta havia sido prejudicada pelos gritos, pela fumaça e pelo trauma. O tempo passou. Fisicamente, ela se recuperou — mas a voz não voltou. Além dos danos físicos, disseram, havia um componente psicológico profundo ligado àquele trauma.De volta ao café da manhã, Lorena abaixou os olhos. Leonardo continuou comendo, sem defendê-la. Depois de alguns segundos, ele se levan
Last Updated : 2026-09-24 Read more