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Capítulo 4

Author: Susana
A promessa da nossa infância… só eu guardei na memória.

Se a Eunice de nove anos pudesse ouvir o Guilherme de dezoito dizendo "Quem dera que, aos nove anos, você não tivesse sobrevivido. Devia ter morrido de uma vez.", talvez chorasse até perder o fôlego.

Mas, ao longo dos anos, não foram poucas as vezes em que ouvi cochichos por causa da minha surdez.

Eu aceitei, em silêncio, a mudança dele.

As pessoas crescem. Mais cedo ou mais tarde.

Naquela época, eu salvei a vida dele. Os pais dele quiseram compensar.

Durante todos esses anos, nas parcerias entre as duas empresas, a família dele abriu mão de quase cinquenta por cento dos lucros. Isso, por si só, já era mais do que suficiente.

No fim das contas, não devíamos nada um ao outro.

E eu sempre acreditei que sou uma pessoa inteira, não um acessório de ninguém. Não preciso depender de ninguém para viver.

Por isso, levantei a cabeça, olhei para minha mãe e disse, com firmeza:

— Eu tenho certeza.

Com ela ao meu lado, alterei minha inscrição para a universidade.

Achei que passaria a noite em claro.

Mas dormi surpreendentemente bem.

Acordei já perto do meio-dia.

Ainda sonolenta, peguei o celular por hábito.

Guilherme tinha enviado duas mensagens de voz.

Coloquei no alto-falante.

A voz dele saiu fria, distante:

— Eunice, já acabou esse show? Desbloqueia meu número. Você não é mais criança. Ontem, a Cecília ficou muito mal depois que você foi embora. Disse que não sabia como compensar e até subiu no terraço pra tentar se jogar. Sorte que eu consegui convencer ela a descer.

Ele fez uma pausa curta, depois continuou:

— Ainda temos alguns dias de férias. Vou levar ela e o pessoal pra esquiar, relaxar um pouco. Não fica com ciúmes. Afinal, ela quase se matou por sua causa também.

Eu ri.

De raiva.

Cecília ter coragem de morrer?

Nunca.

Na escola, ela vivia se autointitulando "a mulher entre as mulheres", "a melhor amiga dos homens". Dizia que era diferente das garotas cheias de frescura que gostavam de maquiagem leve e fingiam pureza.

Mas os métodos dela eram os mais venenosos que eu já tinha visto.

Quatro meses atrás, no aniversário da minha melhor amiga, Ana.

Ana escolheu o vestido com cuidado, se maquiou, queria tirar fotos lindas para guardar de lembrança.

Cecília entrou no camarote, olhou para ela e riu alto:

— Ana, esse seu corpinho tá ótimo, hein? Já dormiu com algum garoto?

Ana ficou vermelha na hora.

— Não fica tímida. Somos todos amigos. Qual o problema de falar?

Quando viu Ana chorando de raiva, Cecília levantou as mãos, fingindo indignação:

— Nossa, vocês choram por qualquer coisa? Não posso nem fazer uma piada?

Depois ainda completou:

— É por isso que eu não gosto de andar com vocês, garotas. Tudo vira drama.

Ou quando todos estavam mortos de cansaço estudando para as provas.

Ela tirava fotos horríveis de todo mundo sorrindo e transformava em memes, postando no mural da escola com a legenda:

— As garotas mais bonitas da nossa turma. Alguém se interessa?

Só parou depois que todo mundo foi reclamar com o professor.

Além disso, há dois anos eu já sabia que ela tinha entrado para o time de basquete como "assistente" só para ficar perto do Guilherme.

Mas eu nunca levei a sério.

Naquela época, eu era orgulhosa demais. Achava que o que era meu ninguém tirava.

Agora que foi tirado…

Eu aceito.

Admito que julguei as pessoas errado.

Salvei um ingrato quando era criança.

As mensagens de Guilherme continuavam chegando:

[Eunice, se você ainda tem um pingo de consciência, vem pedir desculpa pra todo mundo. Principalmente pra Cecília…]

Nem terminei de ouvir.

Bloqueei. Excluí o contato dele.

Do lado de fora do quarto, mamãe me chamou:

— A cidade da sua universidade é mais fria no inverno. Vamos comprar casacos pra você.

Assenti com a cabeça.

Mas eu não imaginava que, depois de comprarmos as roupas no segundo andar do shopping e estarmos prestes a ir embora…

Daríamos de cara justamente com Guilherme e o grupo dele.

No meio de sete ou oito rapazes, Cecília se destacava com uma minissaia preta.

Ela me viu.

Veio andando devagar na minha direção e, fingindo intimidade, segurou meu braço:

— Eunice, que coincidência.
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