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Capítulo 5

Autor: Susana
— Ontem eu quase morri de culpa. Eu não imaginava que você fosse tão temperamental. Eu só trato o Guilherme como amigo, não fica brava, tá?

Cecília fingiu enxugar uma lágrima que nem existia.

— No fim, a culpa é minha…

— Se eu tivesse mantido distância, você não teria ido embora. Tia, mesmo eu quase tendo pulado do terraço de tanta culpa, por favor, não brigue com ela…

— Já acabou? — Mamãe a cortou, com um riso cheio de desdém. — Hoje em dia, certas menininhas crescem sem aprender o que é limite. Passam o dia chamando homem de "irmão" e se fazendo de inocentes.

O rosto de Cecília travou.

Mamãe continuou, calma, mas afiada:

— Minha filha não discute com você porque eu dei educação pra ela. Ela tem classe. E você? Seus pais te ensinaram o quê?

Ela olhou Cecília de cima a baixo.

— Uma moça que vive enfiada no meio de um monte de rapaz o dia inteiro sabe o que é se dar ao respeito? Se seus pais não ensinaram, eu ensino agora.

Fez uma pausa curta e completou:

— Pra esse tipo de comportamento, a internet tem até um nome… como é mesmo? Ah, sim. "Santa do pau oco" que vive se insinuando.

Eu não aguentei. Ri.

Afastei o braço dela com um movimento rápido.

— A gente não tem intimidade. Para de forçar isso.

Cecília ficou dura na mesma hora.

Quando entendeu o que mamãe tinha dito, os olhos dela ficaram vermelhos de verdade. Ela ficou ali, parada, sem saber como reagir.

Um dos amigos saiu logo em defesa dela:

— Senhora, cadê sua educação? A Cecília quase se jogou do prédio por causa da sua filha!

Olhei para ele de canto.

Lembrei na hora que tinha sido ele quem disse ontem:

"Quem vai querer uma deficiente? Só o Guilherme mesmo pra ter a bondade de mimar ela."

Senti um nojo subir pelo estômago.

— Eunice, eu…

Guilherme tentou se aproximar de mim por instinto, como sempre fazia, querendo pegar minha mão.

— Guilherme…

O chamado baixo de Cecília, junto com os olhos vermelhos dela, fizeram ele hesitar.

No fim, ele foi até ela.

Pegou um lenço, limpou as lágrimas dela e falou, sem se conter:

— Tia, a senhora pegou pesado. A Cecília não fez nada por mal. Foi a Eunice que fez birra e quase causou isso tudo. A Cecília é nova, acabou de sair do ensino médio, só tem dezenove anos…

Mamãe ergueu uma sobrancelha.

— Dezenove anos é nova? Curioso. Minha filha tem dezoito. As duas estão na mesma idade. Me explica: o que foi que minha filha fez pra virar a vilã que quase matou alguém na boca de vocês?

O silêncio caiu pesado.

Mamãe olhou direto para Guilherme.

— Eu ainda lembro de você brincando com a Eunice quando era pequeno. Lembro das promessas que você fazia. Mas você mudou demais. Estou muito decepcionada com você.

Guilherme ficou sem resposta.

Até enxugar as lágrimas de Cecília parecia algo que ele fazia no automático.

Os outros, atrás dele, também se calaram.

Eu já estava cansada daquela cena.

Ia puxar mamãe para ir embora quando, de repente, Guilherme segurou meu pulso.

Ele abaixou os olhos e viu as sacolas com roupas de inverno.

— Não precisa comprar roupa tão grossa assim pra cidade da sua universidade…

No meio da frase, pareceu ter uma "ideia".

Os olhos dele brilharam.

A mão que segurava meu pulso apertou um pouco mais.

— Então você me bloqueou, fez todo aquele teatro… mas no fundo era só charme, né?

Ele sorriu, convencido da própria conclusão.

— Comprou roupa de frio porque quer ir esquiar com a gente, não é?

A história já estava pronta na cabeça dele.

— Tá bom, chega de drama. Mais tarde eu reservo sua passagem. O voo é amanhã às dez da manhã. A gente vai junto…

— Você entendeu tudo errado.

Puxei minha mão de volta, cortando a fantasia dele sem piedade.

Olhei direto nos olhos dele e falei, clara, devagar:

— Eu não vou esquiar com você.

Fiz uma pausa.

— E tem mais uma coisa.

O sorriso presunçoso no rosto dele começou a desaparecer.

— Meus ouvidos já estão curados há muito tempo.
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