MasukNora não tinha melhorado ainda naquela manha, mesmo Henrik não querendo admitir algo parecia abranja aquela casa em que moravam.
O quarto permanecia mergulhado em silêncio quando o médico voltou a examiná-la.
Ela não deixara a cama durante todo o dia. Nem tentara. O corpo parecia pesado demais para qualquer movimento que exigisse mais do que o esforço básico de respirar. As mãos repousavam frias sobre o lençol e os olhos mantinham-se semicerrados, acompanhando a movimentação à distância como se ela estivesse ali apenas pela metade.
Henrik permanecia ao lado da cama. De pé, com os braços cruzados, a postura rígida e o maxilar levemente tensionado. Havia ainda um traço de contrariedade nele, um incômodo contido e mal resolvido.
— Aquele último aborto mexeu muito com o organismo dela… — comentou ele, a voz soando mais para preencher a quietude do ambiente do que por uma necessidade real de diagnóstico.
O médico, um homem de idade avançada e feições marcadas pelo tempo, não respondeu de pronto. Continuou o exame com minuciosidade, avaliando os pequenos sinais: o pulso frágil e oscilante, a palidez persistente, a respiração sutil demais.
Só então ergueu os olhos, encarando o conde sem hesitação.
— Sua esposa é frágil, meu jovem.
A frase veio limpa, desprovida de rodeios ou eufemismos. Suspendu-se no ar do quarto com um peso incômodo.
Henrik não gostou. A contrariedade transpareceu na linha dura de seus lábios.
— Ela sempre teve a saúde mais delicada… — ensaiou uma resposta, mas a voz perdeu a firmeza antes de concluir.
Porque, de repente, a palavra frágil deixava de ser apenas uma característica distante e abstrata para se tornar a realidade crua daquela cama.
O médico retornou a atenção a Nora, ignorando a hesitação do nobre. Para ele, o aviso já fora entregue.
O silêncio retornou ao aposento pesado, inconveniente. Henrik passou a mão pelo rosto, soltando um suspiro curto e impaciente. Não sabendo como agir diante daquela passividade, deu dois passos para trás.
— Me chamem no escritório se houver qualquer alteração — disse ele, já se voltando para a saída.
Não esperou por confirmações. Deixou o quarto a passos firmes, quase duros, e a porta de carvalho se fechou às suas costas com um ruído seco.
O ambiente pareceu afundar em uma quietude ainda mais profunda.
Nora demorou alguns instantes para se pronunciar. Mantendo os olhos fixos nos entalhes do teto, perguntou com a voz rouca e fraca:
— O que devo fazer… para melhorar?
Não havia desespero em sua indagação. Apenas uma exaustão crônica.
O médico a observou por um longo momento. Seu semblante austero suavizou-se em um gesto de compaixão discreta.
— Descansar — respondeu ele, a voz mais branda. — Repouso absoluto e silêncio.
Uma recomendação simples, mas que carregava nas entrelinhas uma gravidade não dita.
Nora deu um leve aceno com a cabeça. Como sempre fazia. Sem questionar, sem exigir garantias.
O médico guardou seus instrumentos na maleta de couro, ajustou a casaca e lançou um último olhar à jovem condessa um olhar demorado, carregado de uma preocupação silenciosa. Sem acrescentar mais nada, retirou-se.
Ela permaneceu deitada, encarando a penumbra do quarto. Entregue ao silêncio e a uma recomendação simples demais para um esgotamento que parecia muito maior.
Claro que isso mostro para Henrik, que algo parecia realmente errado.
A residência na cidade estava quieta.
Finalmente.
Sem o clamor dos banquetes, sem risos atravessando as paredes e desprovida daqueles olhares vigilantes. Restava apenas o rumor brando dos passos dos criados sobre os tapetes e o silêncio que, pela primeira vez em dias, parecia permitir-lhe respirar.
Nora continuava deitada. Não dormia, tampouco permanecia inteiramente consciente. O corpo pesava contra o colchão, a respiração mantinha-se irregular e a mente estava dispersa demais para articular pensamentos claros.
E então...
O solavancar da porta de entrada ecoou pelo vestíbulo.
Vozes. Mais de uma. Ruidosas e próximas demais. O som atravessou o corredor, galgou os degraus da escadaria e invadiu o quarto antes de qualquer anúncio.
Nora tossiu. Súbita e ríspida. O peito contraiu-se como se aquele ruído invasor tivesse sido um golpe físico. Levou a mão aos lábios, fechando os olhos com força na tentativa de conter o espasmo, mas o corpo recusou-se a obedecer de imediato.
No andar térreo, Henrik emergira do escritório. O burburinho o desagradara antes mesmo de identificar sua origem. Ao cruzar o hall, deparou-se com a cena.
Sua mãe. E, ao lado dela… Astrid e o pequeno Christian.
Ali. No hall de sua casa urbana. Sem aviso, sem consulta prévia.
Um vinco severo cortou-lhe a testa. A contrariedade transpareceu na rigidez dos ombros.
— Mãe… silêncio — pediu ele, a voz baixa, porem cortada por uma firmeza dura.
A matriarca, contudo, sequer se abalou. Ajustou a gola de pele do casaco com a serenidade costumeira.
— Ah, querido… — respondeu, a leveza do tom beirando o acinte. — Se ela está morrendo, você não tem culpa alguma.
A frase veio crua, calculada em sua frieza lógica.
— Você precisa continuar vivendo a sua vida.
Um silêncio denso e cortante instalou-se no hall.
Henrik não respondeu de imediato. Seu olhar desviou-se, de forma involuntária, para o topo da escadaria. Para a penumbra do corredor superior. Para o quarto.
E então.
Outro eco de tosse vindo do andar de cima. Mais fraco, porém perfeitamente audível.
A presença deles já havia arruinado a pouca paz da casa.
No aposento, Nora tentava recuperar o fôlego. O peito subia e descia com esforço enquanto seus dedos franziam o tecido do lençol. Ela ouvira tudo. Não precisara ver para saber quem cruzara a porta e o que aquela chegada representava.
Fechou os olhos por um breve instante. Apenas um.
— Água, por favor… — chamou, a voz não passando de um fio.
A criada de quarto aproximou-se a passos rápidos, a apreensão estampada no rosto. Nora, contudo, já se esforçava para reprimir a fragilidade. Como sempre fizera.
Quando a respiração finalmente estabilizou, ela abriu os olhos. O brilho interior parecia extinto; restava apenas uma lucidez fria e distante.
— Ajeitem os aposentos de hóspedes — ordenou com uma calma glacial. — Temos visitas.
A criada hesitou por uma fração de segundo, encarando a condessa como se esperasse uma reação diversa, um sobressalto, uma recusa. Nada veio.
— Sim, senhora — murmurou a serva, curvando-se.
Nora deu um leve aceno com a cabeça. Aceitava a humilhação com a mesma resignação com que aceitara o casamento, a perda dos filhos e a distância do marido.
Lá embaixo, os passos e as vozes prosseguiam. A vida daquela família continuava seu curso natural. E ela, no escuro do quarto, ajustava-se uma vez mais ao único papel que lhe fora concedido: o de ceder.
Sempre.
Ele retornou tarde ao quarto.A casa urbana já repousava sob a quietude da madrugada, os corredores com as luzes apagadas e os passos abafados pelo espesso dos tapetes.Ao cruzar a porta dos aposentos, encontrou-a deitada. Encolhida na vastidão da cama de casal. Pálida. Absolutamente imóvel.Por alguns instantes, Henrik limitou-se a observá-la na penumbra. Em seguida, deu início aos preparativos para se recolher, produzindo mais ruído do que o necessário o solavancar das gavetas do armário, o peso das botas caindo sobre o assoalho, o atrito do casaco despido com impaciência.Movimentos calculados para despertar-lhe a atenção.Nora moveu-se com lentidão. Os olhos abriram-se a custo.— Aquilo que você insinuou durante o almoço… — começou ele, ainda de pé, a voz revestida de uma austeridade controlada. —
O médico fora categórico: nada de espartilhos, nenhum tipo de esforço e repouso absoluto.Ainda assim, ela se colocou de pé.As criadas recuaram, hesitantes.— Senhora… talvez fosse melhor…— Está tudo bem — murmurou Nora, sem forças para discutir, mas com uma firmeza silenciosa que não dava margem a contestações.O vestir deu-se em etapas cautelosas. Camadas leves de linho primeiro. Depois, a estrutura rígida do espartilho.A compressão veio gradativa. Familiar. Cruel.Nora fechou os olhos enquanto as tiras de fita eram puxadas contra o abdômen. A respiração, já fragilizada pela tosse, encurtou-se de imediato. O peito sensível protestou ao mínimo movimento de expansão, mas ela não pediu para que afrouxassem. Nunca pedia.Quando terminaram, sua palidez era absoluta.
Nora não tinha melhorado ainda naquela manha, mesmo Henrik não querendo admitir algo parecia abranja aquela casa em que moravam.O quarto permanecia mergulhado em silêncio quando o médico voltou a examiná-la.Ela não deixara a cama durante todo o dia. Nem tentara. O corpo parecia pesado demais para qualquer movimento que exigisse mais do que o esforço básico de respirar. As mãos repousavam frias sobre o lençol e os olhos mantinham-se semicerrados, acompanhando a movimentação à distância como se ela estivesse ali apenas pela metade.Henrik permanecia ao lado da cama. De pé, com os braços cruzados, a postura rígida e o maxilar levemente tensionado. Havia ainda um traço de contrariedade nele, um incômodo contido e mal resolvido.— Aquele último aborto mexeu muito com o organismo dela… — comentou ele
O almoço foi servido no jardim.As toalhas de linho foram trocadas, a porcelana reorganizada e as vozes ganharam um dinamismo mais vivo sob o sol quente do meio-dia.Ela, contudo, não desceu.As tonturas haviam se intensificado desde as primeiras horas da manhã. O corpo já não respondia com a firmeza de antes se é que algum dia respondera após tantos meses de desgaste. Cada tentativa de se manter ereta trazia um escurecimento sutil da visão e um vazio gélido no peito que ia além de qualquer fraqueza física.A condessa-mãe subiu aos aposentos. Não demorou a ir direto ao ponto.— Talvez seja melhor você retornar à casa da cidade — disse a matriarca, com o tom medido e impecável que jamais soava acolhedor. — Precisa de repouso absoluto. Não faz sentido se forçar a permanecer aqui… e acabar atrapalhando a
O quarto estava imerso em penumbra quando ela cruzou a soleira.Fechou a porta com extrema cautela, um gesto automático de quem aprendeu que qualquer ruído em falso poderia ser interpretado como um drama desnecessário.Deu apenas dois passos antes de ser forçada a parar. A tontura veio como uma onda súbita, acompanhada por um enjoo violento ainda mais forte do que o anterior. Mal teve tempo de se apoiar no dossel da cama antes de o corpo se curvar em espasmos incontroláveis, expulsando até a última gota da bile amarga que lhe queimava a garganta. Os olhos lacrimejaram com o esforço, mas, mesmo na dor, nenhum gemido audível escapou de seus lábios.Quando os espasmos finalmente cessaram, permaneceu imóvel, o peito subindo e descendo com dificuldade, as mãos trêmulas segurando o tecido pesado das cortinas.Era sempre assim. Cada crise parecia pior e mais desgasta
Ela não conhecia seu próprio marido.A condessa-mãe deu duas batidinhas sutis com a colher de prata na taça de cristal, quebrando a ilusão de espontaneidade da mesa.— Henrik — disse a matriarca, com o olhar firme e sem qualquer desvio —, o pequeno Christian precisa descansar. A viagem da ilha foi longa e o ar da costa sul nesta época do ano é pesado para quem não está acostumado com a casa grande.— Claro — ele respondeu imediatamente. A prontidão na voz dele foi um golpe físico no peito de Nora. Ele nunca respondia à mãe com tanta presteza quando o assunto dizia respeito aos repousos forçados de Nora após suas perdas.Astrid se levantou com uma graça simples, sem o ruído excessivo de armações de seda ou anáguas engomadas. Ela tocou suavemente o ombro do menino, que se despediu do pai co







