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CAPÍTULO 4

Author: Fogo Selvagem
— O quê? — Lucas achou que tinha ouvido errado.

Estela repetiu as mesmas palavras, e ele ainda não acreditava.

— Estela, que joguinho é esse agora?

— Estou falando sério.

— Lucas, eu vou deixar você e a Jéssica em paz. Já falei com o advogado. Estou aqui no hospital, no quarto do andar de cima. Se tiver um tempo, vem aqui pra gente conversar sobre o divórcio...

Antes que ela terminasse, Lucas pareceu entender tudo.

Soltou uma risada fria e a interrompeu:

— Não tenho tempo.

Assim que disse isso, desligou o telefone.

Chegou a rir de raiva.

Claro, o comportamento estranho dela só podia ser mais uma tentativa de provocá-lo.

Toda aquela conversa... o verdadeiro objetivo devia ser fazer ele ir vê-la.

Usar o divórcio como isca.

Ha. E ele quase tinha caído.

Não era a primeira vez que ele tentava obrigá-la a se divorciar.

Oferecera metade dos bens, tudo o que podia dar, e ela recusara.

Então ele começou a provocá-la, querendo que fosse ela quem pedisse o fim.

Abria os braços pra outras mulheres na frente dela, a humilhava diante da família Farias, ignorava sua presença entre os amigos.

Qualquer mulher sensata já teria ido embora há muito tempo, mas ela, não.

No começo, Lucas pensou que fosse ganância, que ela queria mais.

Só mais tarde ele entendeu que, todos aqueles anos, o que ela queria, era ele.

Lucas deu um riso de desprezo.

Ele podia dar tudo a ela, menos a si mesmo.

"Nem eu nem a Jéssica queremos te ver. Cuida da sua vida."

Mandou a mensagem e não pensou mais no assunto.

Subiu as escadas direto, esperando que, desta vez, Estela tivesse um mínimo de bom senso.

Se não, ele não se importaria em jogá-la pra fora do hospital na frente de todo mundo.

Ao receber a mensagem de Lucas, Estela olhou para aquelas palavras frias e cheias de aviso, e deu um sorriso amargo.

Mesmo já preparada, ainda sentiu um frio por dentro.

Então era assim, o quanto ele desconfiava dela.

Cinco anos de casamento, um fracasso completo.

Mas, surpreendentemente, ela não sentiu a mesma dor de antes, nem tristeza. Pelo contrário, estava calma.

Talvez tudo o que aconteceu dessa vez a tenha feito despertar.

Em poucos minutos, ela aceitou com tranquilidade o fato de que Lucas não queria vê-la e decidiu descansar, cuidar do próprio corpo.

Mas perto da tarde, uma enfermeira apareceu, pedindo com delicadeza que ela fosse transferida.

— O doutor Lírio disse que a senhora precisa de repouso e já providenciou outro hospital. Ele também pediu pra avisar que, se tiver alguma reclamação, pode procurá-lo diretamente.

Ao ouvir o nome de Lírio, Estela entendeu tudo na hora.

O diretor daquele hospital era o pai dele. Mesmo sendo apenas um médico estagiário, ninguém se atrevia a desobedecê-lo.

Era uma expulsão feita às claras.

Estela não quis dificultar o trabalho das enfermeiras e concordou com um aceno.

Segurando o pequeno corpo sem vida do bebê que pediu ao médico, ela desceu da cama com dificuldade.

Uma das enfermeiras, vendo o quanto ela se esforçava pra andar, ficou com pena.

— Se a paciente não concordar, o médico não pode pedir a transferência por conta própria.

— A senhora pode fazer uma denúncia, o número de reclamações do hospital é...

— Não precisa. — Estela forçou um sorriso e a interrompeu.

Sabia que a enfermeira estava sendo gentil, mas também sabia que a ordem vinha de Lírio. E sem a permissão de Lucas, ele jamais teria ousado.

Mesmo que ela reclamasse, de nada adiantaria.

Se Lucas não queria vê-la, ele teria mil maneiras de fazê-la sair.

Agradeceu às enfermeiras e não ficou mais ali.

Com o corpo ainda dolorido, saiu mancando do hospital.

...

Quarto SVIP.

— Lucas, no que você tá pensando? — Perguntou Jéssica, olhando a silhueta elegante dele à beira da janela.

Desde que voltara ao quarto, ele estava em silêncio, sem que ninguém soubesse no que estava pensando.

— Em nada. — Respondeu Lucas, voltando a si.

Com passos longos e firmes, caminhou até a cama.

Quando desviou o olhar pela janela, ignorou completamente a figura frágil que mancava lá embaixo.

Chegando perto, ajustou o cobertor dela com cuidado.

Sentindo o toque suave, Jéssica sorriu.

O edredom de seda tinha sido comprado às pressas, por ordem dele. Com medo de que ela se sentisse entediada no hospital, Lucas ainda mandou instalar uma TV no quarto.

Só de pensar nisso, o coração dela se encheu de calor.

E, junto com essa sensação, veio à mente a imagem de Estela mais cedo, pálida, desarrumada, parada à porta do quarto.

Jéssica conteve o sorriso e, sem pensar, estendeu a mão para tocar o rosto de Lucas.

Mas ele, como se já soubesse o que ela faria, recuou um passo.

A mão dela ficou suspensa no ar, sem saber o que fazer.

Um silêncio constrangedor.

Lucas, no entanto, fingiu que nada tinha acontecido e perguntou com naturalidade:

— Pretende ficar quanto tempo no país desta vez?

Ao ouvir isso, Jéssica sentiu um gosto amargo.

Não entendia. Lucas se preocupava com tudo relacionado a ela, lembrava até do ciclo dela, mas sempre, de algum modo, evitava qualquer aproximação.

Engoliu o incômodo e, forçando um sorriso, brincou:

— E você, quando quer que eu volte?

Lucas não respondeu.

Mas Jéssica entendeu. Deu uma risadinha leve:

— Dessa vez eu não vou embora.

— Afinal, a pessoa que eu gosto ainda está aqui.

Olhou pra ele sem desviar os olhos.

Lucas pareceu desconfortável, levantou-se e desviou o olhar.

— Para com isso, eu sou casado.

— Mas você não ama ela, ama?

Sem ouvir resposta, respirou fundo e perguntou em tom sério:

— Lucas, se você não gosta da Estela, já pensou em se divorciar dela?

O olhar dele escureceu.

Uma irritação sem motivo lhe subiu à cabeça.

Sem querer, lembrou das palavras de Estela mais cedo, pedindo o divórcio.

Pensando nisso, Lucas soltou um riso frio.

— Esse casamento vai acabar, sim. Mas ainda não é a hora.

Depois de bagunçar a vida dele daquele jeito, deixá-la sair assim seria bom demais pra ela.

Ainda mais… ela teria coragem de se divorciar dele?

Que piada.

A menos que ela tivesse batido a cabeça num acidente, seria impossível tomar uma decisão dessas.

Acidente?

O sorriso congelou nos lábios dele.

Pensando melhor, o jeito dela no telefonema parecia mesmo diferente.

Será que ela se feriu de verdade? Será que machucou a cabeça?

A ideia o deixou inquieto. Arrumou uma desculpa qualquer e saiu do quarto de Jéssica.

Subiu direto até o andar onde Estela dissera estar internada.

Mas, ao olhar para dentro do quarto, não a viu.

O quarto estava vazio, apenas duas enfermeiras arrumando as coisas.

— E a paciente que estava aqui? — Perguntou ele.

Uma delas respondeu, sem entender o motivo:

— Acho que já teve alta.

Alta?

Então era mesmo leve o ferimento, pensou Lucas.

E riu de si mesmo por ter subido até ali, preocupado à toa.

Estava prestes a sair quando a outra enfermeira comentou:

— Aquela paciente passou por coisa demais...

— Sofreu um acidente, perdeu o bebê, quase morreu, e ainda foi expulsa do hospital.

Lucas parou em seco.

Os olhos escureceram de repente.

— O que você disse? Perdeu o quê?
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