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CAPÍTULO 3

Author: Fogo Selvagem
No quarto do hospital.

Lírio ainda contava animadamente para Jéssica como, nos anos em que ela esteve fora, Lucas havia negligenciado Estela.

— Teve um ano em que Estela ameaçou o Lucas de cortar os pulsos e até mandou uma foto pra ele. Adivinha o que ele fez?

— Ele nem piscou. Foi pra casa, pegou ela e jogou pra fora. E ainda disse, sem a menor pena, que se fosse morrer, que morresse lá fora, pra não sujar a casa.

Lírio também tinha ouvido essa história de outras pessoas.

Diziam que, naquela noite, fazia frio abaixo de zero. Estela tremia do lado de fora como uma folha, o sangue do pulso quase congelando.

Ao lembrar disso, Lírio achou ao mesmo tempo engraçado e triste.

— O jeito que o Lucas trata ela é óbvio. Agora olha como ele trata você, Jéssica. Você pega uma febre lá fora e ele quase...

— Chega. Você fala demais.

Antes que Lírio terminasse, Lucas interrompeu com a voz fria.

— Aff, ficou sem graça agora.

— Jéssica, olha aí, o Lucas tá me ameaçando. Você não vai fazer nada? — Brincou Lírio.

Jéssica levou a mão à boca e riu, sem dizer nada.

Lucas, por dentro, sentia uma mistura estranha de emoções.

Bem nessa hora, Lírio já tinha reservado o quarto VIP. Lucas não disse nada, pegou o papel e foi tratar dos trâmites.

Lírio ergueu o queixo na direção das costas dele e piscou para Jéssica, cochichando:

— Viu só? Quando é coisa sua, o Lucas se preocupa mais do que com qualquer um.

Falou tão baixo que Lucas não ouviu.

Com o recibo na mão, ele desceu pra pagar e escolheu um quarto mais tranquilo pra Jéssica.

Quando terminou tudo, não conseguiu evitar lembrar de Estela.

Pensou um pouco, tirou o celular do bolso e só então viu as ligações dela e uma mensagem.

"Olá, familiar da Sra. Estela Silveira. Somos médicos do Hospital São Coração. Tentamos ligar várias vezes sem sucesso. Informamos que a Sra. Estela sofreu um acidente de carro e precisa urgentemente de uma assinatura para a cirurgia. Solicitamos que venha ao hospital o quanto antes!"

Hospital São Coração da Família Lírio.

Era exatamente onde ele estava agora.

Lucas ficou em silêncio por dois segundos, lembrando das palavras que Lírio dissera há pouco.

Ele se recordava de que, depois daquela tentativa de suicídio, Estela realmente tinha mudado.

Antes, ela ligava pra ele sem parar, incansavelmente. Mas, com o tempo, as ligações ficaram cada vez mais raras.

Às vezes ele passava a noite fora e ela nem o procurava.

Aquilo era, no mínimo, estranho.

Sem entender por quê, Lucas acabou retornando a ligação.

...

Estela estava sentada na cama do hospital, acabara de conversar com o advogado sobre o divórcio.

Quando recebeu a chamada de Lucas, ficou atônita por um instante.

Ela já tinha se preparado para passar o dia inteiro sem receber nenhuma notícia dele, e jamais imaginou que ele seria o primeiro a ligar.

Todas as vezes em que Jéssica voltava ao país, Lucas não tirava os olhos dela vinte e quatro horas por dia. Como pensaria em Estela?

Houve um breve silêncio antes de ela atender.

No instante em que a ligação foi completada, Lucas também ficou sem reação.

Um incômodo lhe subiu à garganta.

Claro, era só mais um dos truques de Estela para fingir desinteresse e prendê-lo de volta.

E ele, idiota, ainda caíra nessa?

Mas agora já não dava tempo de desligar.

Com a voz fria e controlada, ele perguntou:

— Onde você está?

— No hospital. — Respondeu Estela, sem rodeios.

Lucas soltou um riso curto.

Claro.

A voz dela soava firme, nada parecida com a voz de alguém que tivesse acabado de sofrer um acidente.

— Fiquei sabendo que você se envolveu num acidente. Como está agora? — Perguntou de novo.

O tom, como sempre, era sem emoção. Ainda assim, Estela ficou surpresa por um instante.

Ele estava se preocupando com ela?

Ele nunca tinha se importado com o estado dela, nem ligava para perguntar.

Por um momento, tudo pareceu irreal.

Os olhos ardiam, o peito pesava como se tivesse uma pedra dentro.

Sem pensar, ela pousou a mão sobre o ventre.

Será que, no fundo, ele ainda se importava um pouco?

— Estou melhor, mas... — Hesitou, sem saber se deveria contar sobre o bebê.

Do outro lado:

— Se não for nada grave, volte pra casa logo.

— A Jéssica sofreu um acidente. O médico disse que o corpo dela está fraco e precisa se recuperar bem agora. Quando chegar em casa, prepare umas sopas nutritivas, combina os alimentos direito. Assim a Jéssica se recupera mais rápido.

Ao ouvir isso, o calor que tinha surgido no peito de Estela virou um balde de água gelada.

A preocupação que ela achava ter sentido da parte dele parecia uma piada.

Naquela época, quando Lucas se afundava na bebida e se destruía aos poucos, ela não suportava ver aquilo. Matriculou-se em vários cursos, e mesmo detestando cheiro de gordura, ficou um mês inteiro cozinhando pra ele, dia após dia, sem repetir nenhum prato.

Nunca esperou que ele se comovesse.

Mas também não imaginava que ele trataria aquilo como obrigação, e agora ainda pedia que fizesse o mesmo por outra mulher.

Estela deu um riso irônico.

Todos aqueles anos de casamento… no fim, não passavam de uma piada.

Lucas passava o dia inteiro obcecado por Jéssica, se ela pegava um simples resfriado, ele era o primeiro a saber e pegava um voo noturno só pra cuidar dela.

E agora, mesmo com Estela passando por algo tão grave, ele achava que era nada demais.

— Manda alguém fazer. — Respondeu ela, calma.

— O paladar da Jéssica é exigente. Ela não gosta de comida feita por estranhos. — Retrucou Lucas.

Estela ficou em silêncio por um segundo.

Depois, riu.

— Lucas, eu sou sua esposa, não sua empregada.

— O que isso quer dizer? — Ele franziu o cenho.

— Quer dizer exatamente o que parece.

— Essa sopa, eu não vou fazer.

Era a primeira vez que ela o contrariava.

As sobrancelhas dele se juntaram, e logo a impaciência veio à tona.

— Estela, por que esse ciúme de novo?

— A Jéssica só tem a mim como família. Se eu não cuidar dela, ninguém mais vai cuidar dela.

— Além disso, não se esqueça, foi você quem tomou o lugar dela. Se não tivesse se casado comigo, a minha esposa seria ela.

Essas palavras caíram sobre Estela como uma montanha.

Ele dizia isso com frequência.

E sempre a deixava sem resposta.

Naquela época, o pai de Lucas, então chefe da família Farias, sofria de falência renal e precisava de um transplante.

Mas o tipo sanguíneo dele era raro, e no fim, só a mãe de Estela era compatível.

A mãe dela concordou em doar um rim, com uma condição, que houvesse uma parceria entre as famílias.

Mas a cirurgia teve complicações, e a mãe de Estela ficou à beira da morte.

Antes de partir, ela apareceu diante da imprensa e fez um pedido, que Estela se casasse com Lucas.

Só que, naquela época, Lucas já namorava Jéssica.

Sob a pressão pública, a família Farias rompeu o relacionamento e anunciou o noivado entre Lucas e Estela.

Devastada, Jéssica deixou o país.

Depois, ao lidar com os pertences da mãe de Estela, a família Farias encontrou o diagnóstico de câncer e uma carta de despedida escrita antes da operação.

Todos passaram a acreditar que a mãe de Estela já sabia que tinha pouco tempo de vida, e que desde o início, planejara tudo para garantir o casamento da filha.

Estela virou alvo de ódio e boatos. Tentou fugir, tentou recusar aquele casamento, mas no fim desistiu.

Porque, se recusasse, a morte da mãe perderia todo o sentido.

Então, ela sempre se forçava a aguentar um pouco mais.

Mas agora... não havia mais por que suportar.

Ela pensou que, se a mãe pudesse vê-la daquele jeito, com certeza sentiria pena.

— Então eu devolvo esse lugar pra ela.

Com o contrato de divórcio recém assinado nas mãos, Estela disse em voz firme:

— Lucas, vamos nos divorciar.
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