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Capítulo 4 - A Água que Sangra

last update Fecha de publicación: 2026-10-31 13:00:29

O apito estridente e metálico cortou o silêncio matinal do “Fundo”, ecoando pelas paredes de granito secular, como o grito agónico de uma alma em completo suplício.

Era a alvorada e as portas dos cubículos abriram-se numa cadência sistemática, impulsionadas por molas industriais que rangiam em uníssono.

Apanhado pelo turbilhão da rotina, Arthur foi arrastado pela correnteza dos pacientes apáticos indo em direção ao bloco de banhos comunal — uma vasta câmara subterrânea revestida de azulejos brancos e manchados do verdume e do mofo da humidade.

O cheiro a cloro misturava-se com o odor acre a suor velho e ao formol omnipresente. Várias dezenas de celas de banho alinhavam-se ao longo das paredes húmidas, sob o olhar vigilante de dois supostos guardas de ombros largos e expressões vazias.

Separados por grossas paredes mestras de granito e por um rigor gélido que cortava o asilo ao meio, com os homens confinados a esta ala e as mulheres relegadas para as galerias mortas do lado oposto, os internados despiram-se em uníssono, deixando cair as roupas cinzentas e rançosas sobre o chão de mosaico gelado.

— Andem! Depressa! Depressa! Lesmas! Vamos lá a mexer! Limpem a imundície da vossa mente! — ladrou um dos guardas, brandindo um pesado tubo de borracha estriada e pesada que arrastava e sulcava o chão, convertendo o artefacto numa extensão da própria crueldade, pronto a usá-lo ao menor sinal de desobediência.

Arthur entrou numa das celas individuais, puxou a corrente de ferro enferrujado presa ao teto. No início, a sensação foi de um alívio ilusório: um jato de água tépida, que começou a jorrar das rosetas de ferro, embaciando o espaço com um vapor denso. Arthur fechou os olhos, deixando as gotas caírem sobre o seu rosto, tentando lavar o rasto pegajoso das alucinações da noite anterior. Contudo, a ilusão de pureza durou poucos segundos.

O som da água a bater no chão mudou de tom, tornando-se mais pesado, denso e abafado: — um “choc-choc” monótono e oco, como um martelo distante a golpear repetidamente uma parede de chumbo.

O vapor branco que enchia a cela adquiriu subitamente um tom rosado, depois escarlate, espalhando pelo ar um cheiro forte e metálico a ferro e a sangue fresco.

— O quê... o que é isto?! — balbuciou Arthur, abrindo os olhos num sobressalto.

A água que saía da roseta de ferro já não era transparente, era um fluxo contínuo, espesso e escaldante de sangue puro, que   encharcava o seu cabelo e escorria pelo seu corpo em riachos vermelhos. Ao olhar para as celas de banho vizinhas, o horror e a aflição multiplicaram-se. Os outros pacientes riam e choravam debaixo das cascatas rubras, esfregando o corpo com frenesim como se tentassem pintar-se com a própria essência vital do asilo.

— O banho da manhã, Arthur! — gritou o Julian, na cela ao lado, com a cara completamente coberta de sangue coagulado que lhe entrava pelos olhos e boca, acompanhado pelo seu sorriso macabro. — O hospital está a sugar-nos e a beber-mos a sua essência! Tem de entrar pelos poros para podermos limpar-nos das nossas lembranças!

O sangue escaldante começou a acumular-se num dos recantos do chão da cela do Arthur, subindo rapidamente pelos seus tornozelos. O calor sufocante e o fumo denso de vapores hemáticos apertavam-lhe a garganta, roubando-lhe o oxigénio. Sentindo as paredes da cela fecharem-se sobre si e a sua mente ceder ao pânico absoluto, Arthur tentou gritar, mas o som foi abafado pelo mar escarlate que inundava o corredor das celas de banho do “Fundo”.

O líquido escarlate continuava a jorrar com uma violência, que era totalmente incontrolável, subindo rapidamente pelas pernas de Arthur até alcançar a sua cintura.

O ralo no centro da cela, em vez de escoar a torrente, repuxava-se como uma garganta sufocada, expelindo bolhas de ar espessas e restos de tecido orgânico, que se enrolavam nos tornozelos de Arthur como dedos pegajosos.

Lutando contra uma vertigem avassaladora, Arthur estendeu a mão trémula para fechar a válvula de ferro da roseta. Os seus dedos escorregaram na ferrugem e no sangue espesso, mas, num último impulso de pura sobrevivência, conseguiu agarrar o manípulo de ferro e forçá-lo para a direita.

Um rangido estridente e metálico ecoou, mas a água não parou, era um screeech agudo e prolongado que parecia raspar contra o próprio esmalte dos dentes, que ecoou pela cela, mas a água não parou. Pelo contrário: os tubos de ferro nas paredes começaram a contrair-se e a dilatar-se ritmicamente, emitindo um “clank-clank” profundo e oco, acompanhado por um pulsar mecânico e sufocado, como artérias de ferro sob intensa pressão arterial.

O sangue jorrava agora não só do chuveiro, mas irrompia pelas juntas dos azulejos e pelas fendas das paredes, transformando a cela de banho numa verdadeira câmara de decantação.

— Ele fechou a torneira... o estúpido acha que consegue tapar as veias da casa! — ecoou uma voz trocista e metálica de um dos guardas, conhecido pelo seu sádico desdém, com a alcunha do Coveiro, vinda do exterior do cubículo.

E como a alcunha se bem associa como o homem que mais carne humana tenha carregado para a terra fria dos fundos, famoso pelo seu macabro agouro de que nenhum doente resistia se o visse aproximar-se da calha dos banhos.

Antes que Arthur pudesse reagir, a pesada cortina de oleado foi puxada de chofre com um golpe seco.

O guarda de ombros largos surgiu envolto numa névoa de vapor rubro, os seus olhos eram desprovidos de qualquer expressão humana enquanto agarrava o braço esquerdo de Arthur como uma pinça de carne e osso. O aperto foi tão forte que o metal do seu relógio imaginário que Arthur julgava usar quebrou na sua pele.

— O banho ainda não terminou, cadáver — rosnou o guarda, arrastando-o para fora da cela com uma facilidade brutal. — Se a pele não absorver a essência, as paredes rasgam-te por dentro para recolher o tributo, à força.

Lançado para o corredor comunal dos banhos, Arthur viu um espetáculo que desafiava todas as leis da biologia. Apanhados no meio da inundação escarlate, ou mesmo, os outros pacientes deixarem de lutar. Deitados de costas na lâmina de sangue que cobria o mosaico, flutuavam em silêncio absoluto, com os olhos vidrados fixos no teto. Debaixo da pele de cada um deles, apareciam, as tais linhas fosforescentes — idênticas às que o Arthur tinha visto nas suas próprias mãos na noite anterior.

Brilhavam intensamente, conectando os corpos à canalização do edifício através de finos filamentos que saíam dos pulsos e dos tornozelos.

O hospital não estava apenas a banhá-los; estava a enfiar-se nos seus sistemas circulatórios, a mapear cada pensamento, a substituir o sangue humano por uma argamassa dimensional viva.

— Olha bem, Arthur... já estás a ficar com a cor da casa — murmurou-lhe Julian, surgindo de joelhos à sua frente, com um sorriso de dentes vermelhos enquanto vomitava uma golfada de líquido escuro. — Já não há um deixar de "fora". Nós somos a argamassa. Nós somos os tubos moles de ferro moldado.

Empurrado de encontro a uma coluna de granito tosco frio que pulsava suavemente contra as suas costas, Arthur olhou para as suas próprias mãos e o brilho cinzento sob a pele já não eram simples linhas; eram ramificações complexas, raízes geométricas que subiam pelos seus antebraços, parecendo ordenar-lhe algo semelhante a ordens e horrores diretamente para o seu cérebro. O pânico deu lugar a um entorpecimento gélido. Ao fechar os olhos, o som do sangue a correr pelas paredes já não parecia um tormento alheio, soava, perfeitamente, como o bater do seu próprio coração.

Era uma estabilização forçada, uma trégua auto-provocada onde a mente de Arthur, incapaz de suportar o horror exterior, se ancorava no compasso pulselike / inflexível daquela infraestrutura para não estilhaçar de vez.

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