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Capítulo 5 - O Primeiro Corpo

last update publish date: 2026-10-31 13:02:00

O silêncio que se seguiu ao banho de sangue não era pacífico; era o silêncio tenso de uma armadilha que estava prestes a desabar.

Com as roupas ainda húmidas e coladas à pele, Arthur foi de novo empurrado de volta para o seu quarto. As suas mãos tremiam incontrolavelmente, manchadas por vestígios invisíveis ou seriam muito reais? De um rubor que parecia nunca mais sair da sua pele. Este fechou os olhos, mas a imagem da cascata vermelha continuava a pulsar por trás das suas pálpebras, misturando-se com as vozes distantes que ecoavam pelo imenso corredor.

A exaustão física e química acabou por vencê-lo, arrastando-o para um sono pesado, povoado por pesadelos sequenciais e sussurros sem rosto.

Foi o som de um respingar rítmico, insistente e macabro que o arrancou abruptamente da inconsciência. — Ploc. Ploc. Ploc.

—

Arthur abriu os olhos. A luz cinzenta da madrugada mal iluminava o quarto. Sentou-se na beira da cama e respirava com dificuldade, sentia o peito muito apertado.

Um grito sufocado ficou preso na garganta do Arthur, transformando-se num chocalho seco de uma vaca já morta de cansaço.

Uma onda de pânico gélido percorreu-lhe as artérias, capazes de rebentar, ao recordar o momento, horas antes, em que ali tinha chegado arrastado, tinha descoberto, tornardo-se assim num sobressalto de pura repulsa e incredulidade, que partilhava com aquele cubículo claustrofóbico com mais alguém: Julian.

Mas agora, com o que se deparava, aos seus olhos superava qualquer pesadelo que prevesse.

Julian não estava deitado, nem andava a vaguear pelo quarto. Estava suspenso na própria cabeceira de ferro forjado da cama, fixado numa crucificação grotesca, mas com o corpo invertido, de cabeça para baixo. Grossos pregos industriais tinham sido cravados através das suas palmas e tornozelos, prendendo-o firmemente à estrutura metálica escura. A cabeça tombava pesadamente sobre o ombro esquerdo, e o seu eterno sorriso tinha congelado numa careta de pavor eterno.

Mas o horror indescritível concentrava-se ainda no seu peito.

A pele do tórax tinha sido aberta de ponta a ponta com cortes cirúrgicos rudimentares, limpos mas terrivelmente imprecisos, verificava-se que tinham sido executados sem anestesia ou compaixão. As costelas tinham sido forçadas para o lado, revelando a cavidade torácica completamente vazia.

O coração de Julian tinha desaparecido e as gotas no seu ritmo de embalar que tinham acordado o Arthur vinham precisamente dali, alimentando uma pequena poça de sangue escuro que se espalhava pelo chão de granito.

— Eles tiraram... tiraram-lhe do centro do peito... — articulou Arthur, recuando em pânico até bater com as costas na parede oposta, as pernas a falhar-lhe por completo.

Aproximando-se trémulo da porta de ferro, Arthur espreitou pelo pequeno postigo. No corredor vazio, os sapatos de um dos guardas arrastavam-se lentamente, acompanhados por um assobio calmo e desafinado, — fiu-uuu... fiu... — como se nada de extraordinário estivesse a acontecer na ala comunal.

O primeiro corpo do “Fundo” tinha sido recolhido para a colheita, e a mente de Arthur percebeu, com um avassalador medo gelado, que ele próprio seria o próximo a ser aberto para saciar a fome dimensional daquele lugar, pois se encontrava no mesmo quarto.

O cheiro a ferro oxidado e a fluidos viscerais adensou-se de tal forma, que naquele pequeno espaço parecia condensar-se em grossas pérolas de suor frio sobre as paredes de granito.

A lúgubre penumbra da madrugada já não era apenas a ausência de sol; parecia uma substância viva, um veludo negro e pesado que se colava às pálpebras de Arthur , sufocando qualquer vislumbre de esperança.

A poucos centímetros dele, o corpo suspenso de Julian balançava impercetivelmente, impulsionado pelo próprio gotejar rítmico do sangue que escorria dos membros pregados. — Ploc. Ploc. Ploc. Cada gota que caía no chão soava como o bater de um cinzel numa lápide, marcando o ritmo decrescente do tempo que restava a Arthur naquele inferno arquitetónico.

De repente, a cavidade torácica vazia do cadáver começou a estopar, emitindo um som semelhante ao rasgar de pergaminho antigo: — krr-ch... — 

Da profundeza daquele peito aberto, volutas de um fumo cinzento e denso,  que começaram a erguer-se em espirais sinuosas, retorcendo-se no ar até se tomarem formas vagamente humanoides. Eram sussurros visíveis, fragmentos de uma identidade roubada de Julian que tentavam escapar, mas que rapidamente eram reabsorvidos pelas próprias paredes circundantes. As juntas do granito do quarto sugaram o fumo com uma avidez voraz, arqueando-se como se estivessem a lamber os últimos vestígios da alma daquele homem.

— Ele já faz parte da estrutura... agora o teto vai aguentar mais um metro de pesadelo... — retorquiu uma voz espectral e sussurrada, que não vinha de fora, mas ecoava diretamente no interior do crânio de Arthur, raspando contra as paredes do seu pensamento como unhas feitas de vidro.

Uma tontura violenta fê-lo cambalear, mas agarrou-se à estrutura de ferro da sua própria cama, sentindo os dedos afundarem-se na tinta fria.

Ao olhar para as suas mãos, o horror duplicou: as linhas geométricas e cinzentas que sobressaíam sob a sua pele já não estavam estáticas, agora pulsavam ao ritmo exato do gotejar do sangue de Julian. Estendia-se pelos seus pulsos e subia pelos seus antebraços como raízes de uma hera venenosa feitas de metal e carvão. O veneno administrativo do “Fundo”, estava a colonizá-lo por dentro, convertendo a sua carne em material de construção.

No corredor exterior, os passos arrastados cessaram abruptamente.

O silêncio voltou a abater-se sobre a ala, estavz bastante pesado e de uma mortalidade transgressora.

A sombra disforme de um dos guardas estendeu-se novamente sob a fresta da porta de ferro, parando a centímetros do caixilho. Ouviu-se o ranger metálico de uma chave a girar vagarosamente na fechadura, um clique-rechinado — skii-krr — e o ferro grosso a morder os dentes do canhão com uma lentidão sádica, acompanhado por um sussurro colectivo que vinha de todas as celas vizinhas, um sopro arrastado e uníssono que serpenteava pelas paredes como um único pulmão doente: — sssss... hhhhh... 

— instantes depois ouviu-se uma voz isolada: — Abre o peito, Arthur... Deixa o arquiteto medir os teus ângulos... A fundação precisa de ti... — As dobradiças gemeram num grito agudo:

— iiii-zzZ-krr — o bronze e o ferro antigo a chocarem entre si sob o peso de décadas sem óleo, rasgando o silêncio da cela.

A porta começou a curvar-se para o interior de novo, engolida pela gravidade macabra daquela câmara gótica.

Com o coração a martelar furiosamente contra as costelas, prestes a rebentar, Arthur deu por si a recuar até colar as costas ao cadáver de Julian, sentindo o frio mortal do corpo sem vida misturar-se com o seu próprio suor, sabendo que a única saída daquele labirinto passava por descer ainda mais fundo na loucura do seu próprio abismo.

O que iria acontecer de seguida?

Arthur prendeu a respiração. A porta abriu-se por completo, revelando a penumbra espessa do corredor e a figura massiva que vinha recolher o que restava deles. E finalmente fechou-se sobre o som metálico da chave, deixando a loucura estendida no limiar do escuro.

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