FAZER LOGINO fechar da grossa e pesada porta de madeira do quarto marcava o início de uma noite no “Fundo”.
A luz dos candeeiros do corredor penetravam apenas por uma estreita fresta na escotilha, projetando uma barra amarelada sobre o chão de pedra. Instantes mais tarde, Arthur estava sentado na beira do colchão fino, de sacos de estopa cheios de palha rota, ainda aprisionado na lona rija da camisa de forças que lhe imobilizava os braços contra o peito numa mordaça de tecido, sentindo os efeitos secundários da substân-cia ingerida no refeitório: as veias das suas mãos pareciam pulsar com um brilho fosforescente de um azul-lívido, a cor gélida da pele esticada sobre o corpo de um defunto e os batimentos cardíacos ecoavam nas paredes do quarto como pancadas abafadas de um tambor numa cerimónia fúnebre.
Lá fora, na ala comunal, a noite não trazia silêncio; trazia uma sinfonia de demências entrelaçadas, com-posta por uivos que pareciam rasgar a garganta de criaturas esfoladas vivas no escuro. — Úuuuu… úuuuu… — um pranto gutural e prolongado, que subia das profundezas dos corredores como um lamento fúnebre, fazendo vibrar a madeira podre da porta e se colava à pele do Arthur como um suor ardente.
As portas dos quartos vizinhos começaram também a vibrar com as pancadas ritmadas, que surgiam sem parar. Afinal, também eram vozes que se cruzavam no escuro, fragmentadas e sem nexo aparente, mas carregadas de uma urgência aterrorizante que fazia qualquer um arrepiar-se.
— O relógio de bolso da minha avó derreteu na parede do fundo — gritava uma voz rouca e trémula do quarto 304, era um velho chamado Cornelius. — Se os ponteiros derem meia-volta antes da meia-noite, os pregos entram todos de uma só vez, auauauau… — Não digas tolices, Cornelius! — respondeu de forma estridente uma mulher na cela oposta, a rir com um som que lembrava vidro a estilhaçar-se. — Hi-hi-hi-crash… hi-hi… — Os pregos já lá estão desde que o teto era de carne. O sangue nos canos é que avisa quando o Diretor vai descer para medir os crânios.
O ferro do ferrolho cedeu com um ranger seco e doloroso — rrrrrrrrr —, abrindo uma ferida de luz amarelada na escuridão da cela. O enfermeiro-chefe entrou sem pedir licença, arrastando as suas botas no chão de pedra com uma lentidão deliberada, quase predatória. Na mão direita, erguia um candeeiro a petróleo que cheirava a fumo e gordura rançosa, que projetava sombras longas que pareciam contorcer-se nas paredes.
Com uma frieza gélida e calculada, plantou-se à beira da cama.
As suas mãos grossas e calejadas agarraram as correias de lona, desapertando-as num silêncio pesado até que o colete de forças cedeu, deixando os braços do Arthur caírem frouxos e dormentes como dois ramos partidos. O enfermeiro nem sequer olhou para o rosto dele. Desfez-se do colete num puxão seco e, antes que o Arthur pudesse soltar um suspiro ou um pedido de socorro, virou os calcanhares e sumiu-se pela porta, deixando o eco do seu vazio a sufocar o quarto.
Assim que os passos do enfermeiro se perderam no corredor, Arthur ficou sozinho na penumbra, sentindo os braços e as mãos formigarem numa dormência pesada, como se o sangue voltasse a correr a custo por veias mortas.
Com os membros ainda dormentes e a latejar, cobriu os ouvidos com as palmas das mãos, comprimindo a cabeça com força.
Tentava filtrar a lógica dos sons que ouvia, procurava um fio condutor racional naqueles delírios coletivos, mas o seu raciocínio recusava-se a cooperar.
As vozes pareciam infiltrar-se diretamente no seu córtex, como se os pacientes não estivessem a falar para os corredores, mas a fazer uma tradução em voz alta dos pensamentos que o próprio Arthur tentava reprimir.
— Eles estão a contar os dentes dos mortos... — sussurrava alguém colado à porta do seu próprio quarto, a respiração gafeira a passar pela fresta inferior. como um gorgolejo húmido e estalado — khhh-grog... khhh-grog — o chiar pesado de um fole podre a engasgar-se em catarro e ferrugem.
— Um, dois, três... cada dente é um prego na porta da nossa mente. Não abras quando o sangue começar a correr pelos chuveiros outra vez, Arthur... escuta o sangue...
— Quem está aí? Afasta-te da porta! — gritou o Arthur, levantando-se de um salto e dando de caras com a penumbra. A sua própria voz soou-lhe estranha, estava distorcida pela febre química que lhe entorpecia a própria língua.
No corredor, a cacofonia intensificou-se ainda mais, num crescendo ensurdecedor. Risos histéricos
irrompiam em guinchos agudos e saltitantes — hi-hi-hi-crrrrr —, gargalhadas secas e sem fôlego que subiam de tom até serem raspadas por tosses convulsivas e cuspidelas de sangue, misturando-se com lamentações fúnebres e avisos apocalípticos. Gargalhadas invasivas que pareciam raspar vidro que ecoavam de ponta a ponta, entrestecidas com o choro uníssono e ritmado de quem batia com a testa contra as ombreiras das portas de carvalho. Eram pancadas secas, cadenciadas — toc, toc, toc — como pregos batidos a martelo em caixões de pinho verde. A este coro de desespero somavam-se arrastares de correntes enferrujadas sobre a pedra fria, o badalar irregular de um sino de cobre que parecia anunciar a extrema-unção, e gritos estrangulados que imploravam por misericórdia a uma luz de petróleo que já ninguém via. Mas, rompendo a treva com a precisão de um cutelo, uma voz bramiu das sombras: — A sopa tinha dentes, a sopa tinha dentes...— O teto vai fechar-se, guardem os vossos membros, o Diretor quer colecionar sorrisos...
— Eles vêm buscar os que sabem o próprio nome...
Arthur tateou a parede de pedra lufada e esverdeada pelo lodo, deixando cair as costas contra o granito gélido até escorregar lentamente e desamparado, para o chão húmido e coalhado de sombras.
As paranoias cruzadas dos outros pacientes formavam uma tapeçaria macabra, um quebra-cabeças cujas peças ele sentia, muito aterrorizado, começarem a encaixar-se na sua própria mente. Não eram apenas falas desconexas de mentes partidas pelo desespero ou sofrimento; eram avisos literais sobre o que habitava naqueles corredores escuros do “Fundo”. E enquanto os passos lentos e arrastados de um funcionário patrulhavam o exterior, a sua racionalidade desmoronava-se de vez, deixando-o nu perante o terror que cada vez mais se aproximava.
Os passos arrastados no exterior pararam exatamente em frente à porta do quarto de Arthur.
O silêncio que se instalou de imediato naquela ala de perdição foi ensurdecedor. As vozes dos outros pacientes calaram-se numa fração de segundo, como se algo invisível e misterioso tivesse cortado a corrente da loucura coletiva. Nem Cornelius, nem a mulher da cela oposta ousaram emitir mais um único som.
Apenas o tique-taque irregular de um relógio fantasma — algures perdido nas entranhas daquelas paredes grossas de granito e caliça secular — continuava a marcar o tempo com uma cadência mortuária.
Arthur imobilizou-se, respirando com a máxima cautela, tentando comprimir o próprio peito para que o bater acelerado do seu coração não ecoasse pelo próprio cubículo. As palmas das suas mãos continuavam a brilhar com aquela fosforescência, mas desta vez, cinzenta e doentia, projetando sombras fantasmagóricas no chão escuro.
Abaixo da fresta da porta, a linha amarelada da luz do corredor foi subitamente interrompida.
Uma silhueta alongada estendeu-se sobre o chão de pedra, mas não era a sombra normal de um homem; era disforme, com os contornos a ondular e a desfazerem-se em finas ramificações que pareciam tentáculos de fumo negro a quererem entrar no seu quarto e nos quartos contíguos. De seguida, ouviu-se o som metálico de uma chave grossa a rodar na fechadura exterior.
— Clique — O trinco cedeu, mas a porta não se abriu de imediato. Em vez disso, começou a vergar-se para o interior, o metal gemia e estalava sob uma pressão invisível, como se a própria estrutura da madeira estivesse a desfazer-se.
— O Sr. Pendelton está acordado...
— Eu sinto o cheiro da sua identidade fresca a tentar colar-se às paredes — arranhou
uma voz do outro lado, rouca e esguelhada, mas perfeitamente nítida em cada canto da mente de Arthur.Não era a voz do Diretor Kraiser, nem o tom clínico de outro Doutor, o Dr. Malombra. Era algo mais antigo, a própria respiração do edifício a manifestar-se através de um dos seus servos.
Uma mão cinzenta, com dedos excessivamente compridos e unhas pretas e afiadas como bisturis, deslizou pela fresta da porta, esgravatando o ar à procura de uma pega ou de carne para poder agarrar.
O pânico paralisou as pernas de Arthur durante pequenos instantes, porque se fosse apanhado ali, ou se permitisse que aquela “coisa” o tocasse, a sua mente seria de vez reescrita para sustentar os alicerces daquela fenda dimensional. Amputado da sua visão naquele breu espesso onde a penumbra parecia coalhar-se em substância, Arthur recuou às cegas, tateando o vácuo até que as costas lhe embateram com violência contra a ossatura gélida da cama de ferro.
Com um esforço determinado e desesperado, empurrou-a com toda a força contra a porta que continuava a curvar-se para dentro. A madeira da porta estalou num gemido seco e rançoso — crrr-cá — a estrutura de ferro da cama rangeu de uma forma aguda, num grito de ferro torcido — kiii-zzzt — e um som de frustração visceral, meio sopro asfixiado, meio de um ganido estrangulado de um cão raivoso — khhh-unh — que ecoou vindo do corredor.
— Guarda a tua identidade por mais algumas horas, Arthur... — ouviu-se uma voz misteriosa, afastando-se lentamente à medida que os passos arrastados recomeçavam a patrulhar o corredor. — As paredes ainda precisam de secar, escorrem o lodo espesso e febril do desespero.
Deitado sobre as lajes de pedra gélida, com os dedos a cravarem-se nas fendas do granito e o som do próprio sangue a ribombar nos ouvidos como um mar de ferro fundido...
Arthur percebeu que a noite no “Fundo” estava apenas a começar, e que o verdadeiro pesadelo não vinha de fora, mas com a plena certeza aterradora de que parte dele já começava a gostar do som daquelas paredes a respirar, passava a ser uma habituação crónica e putrefacta, um casamento silencioso entre as suas próprias entranhas e o lodo secular do edifício, onde a sanidade apodrecia lentamente como um fruto esquecido nas trevas, transformando-o, célula a célula, num pilar vivo daquele recesso sepulcral.
A febre das alucinações deu tréguas por breves horas, deixando Arthur Pendelton prostrado sobre o colchão, com a testa banhada em suor frio e os músculos doridos.No silêncio opressor da tarde, uma necessidade desesperada apertou-lhe o peito: — lembrar-se. Precisava de agarrar qualquer vestígio do mundo exterior antes que a arquitetura viva “d’o Fundo” apagasse por completo a sua identidade.Lembrou-se de Clarion, a mulher de olhos meigos que o esperava ou que ele supunha que o esperava, numa casa banhada por sol verdadeiro, longe daquela geometria impossível, daquela escuridão dificil de engolir. Durante semanas, ou talvez meses, Arthur escreveu cartas febris a punho, dobrando os papéis com cuidado e entregando-os obedientemente aos enfermeiros nos dias de correio interno, acreditando que a correspondência cruzaria os portões e chegaria na realidade a sua casa.Movido por um impulso súbito de lucidez, Arthur levantou-se e tateou a tábua solta por baixo da sua cama, onde costumava gua
O efeito cumulativo da água contaminada do hospital e das drogas administradas em segredo atingiu o seu ponto de rutura no interior do cubículo de Arthur Pendelton. Agora deitado na cama estreita, com os olhos arregalados na escuridão, Arthur já não conseguia traçar a linha divisória entre a realidade e o delírio químico que lhe inundava o próprio cérebro.As paredes de alvenaria do quarto começaram a contrair-se e a expandir-se num ritmo sincopado, como se o edifício estivesse a respirar através de milhões de poros invisíveis. Veias negras e grossas brotavam da argamassa, que pulsavam com um líquido viscoso que escorria lentamente pelo papel de parede descascado que restava.— Não... isto não é real... a minha mente está apenas... — gorfou em murmúrio Arthur, cravando as unhas no próprio couro cabeludo, tentando suprimir a onda de imagens grotescas que explodiam na sua visão periférica.Mas a alucinação piorou de forma drástica. Seria mesmo uma alucinação? A porta da cela desvaneceu
As escadas de serviço desciam ainda mais fundo, para além dos calabouços, onde a alvenaria de pedra cedia lugar a uma rocha ancestral e húmida que gota a gota constituia um fluido negro e viscoso. Ali ficava o santuário privado do Dr. Malombra — o psiquiatra-chefe, o cirurgião “d’o Fundo”, uma figura esguia e espectral — o Corvo Branco — cuja bata branca parecia fundir-se com a penumbra dos corredores subterrâneos.O Dr. Malombra tinha conduzido Arthur por entre os labirintos de ferro até o largar, sem cerimónias, devido ao seu passo vacilante e o corpo demasiado fraco para continuar a sustentar-se de pé, numa das salas de retenção. O psiquiatra foi de imediato desviado para as celas vizinhas pelo assalto brutal das grades: — CLACK! CLACK! — o eco seco e metálico dos punhos desvairados a golpearem o ferro, logo rasgado pelo “AAAAARGH!” estridente e gutural dos gritos dos pacientes enclausurados, que se desfaziam na humidade da rocha.Aproveitando a desatenção do médico e sem enfermeir
O cheiro a formol e a suor rançoso era mais denso nas profundezas do “Fundo”, muito abaixo do nível dos quartos, onde os corredores de alvenaria nua davam lugar aos calabouços do hospício.Ali, a arquitetura parecia contorcer-se de propósito: os tetos baixos, mostravam a sua forma opressiva e as paredes de pedra suavam uma humidade espessa, negra como um óleo velho, misturada com verdume de musgo.Era o território exclusivo dos funcionários. Longe de serem meros guardas ou enfermeiros, aquelas figuras pareciam ter sido esculpidas a partir da própria matéria corrompida daquele edifício terrorífico.O enfermeiro-chefe, um homem colossal a quem chamavam surdamente de Gárgula, arrastava uma perna excessivamente longa enquanto caminhava pelo corredor dos castigos. A sua farda branca estava permanentemente manchada de fluidos indecifráveis, e o seu rosto exibia uma desproporção anatómica grotesca: o olho esquerdo, enorme e protuberante como um berlinde de vidro sem vida. Fixava-se obsessi
O silêncio que se seguiu ao banho de sangue não era pacífico; era o silêncio tenso de uma armadilha que estava prestes a desabar.Com as roupas ainda húmidas e coladas à pele, Arthur foi de novo empurrado de volta para o seu quarto. As suas mãos tremiam incontrolavelmente, manchadas por vestígios invisíveis ou seriam muito reais? De um rubor que parecia nunca mais sair da sua pele. Este fechou os olhos, mas a imagem da cascata vermelha continuava a pulsar por trás das suas pálpebras, misturando-se com as vozes distantes que ecoavam pelo imenso corredor.A exaustão física e química acabou por vencê-lo, arrastando-o para um sono pesado, povoado por pesadelos sequenciais e sussurros sem rosto.Foi o som de um respingar rítmico, insistente e macabro que o arrancou abruptamente da inconsciência. — Ploc. Ploc. Ploc. —Arthur abriu os olhos. A luz cinzenta da madrugada mal iluminava o quarto. Sentou-se na beira da cama e respirava com dificuldade, sentia o peito muito apertado.Um grito sufo
O apito estridente e metálico cortou o silêncio matinal do “Fundo”, ecoando pelas paredes de granito secular, como o grito agónico de uma alma em completo suplício.Era a alvorada e as portas dos cubículos abriram-se numa cadência sistemática, impulsionadas por molas industriais que rangiam em uníssono.Apanhado pelo turbilhão da rotina, Arthur foi arrastado pela correnteza dos pacientes apáticos indo em direção ao bloco de banhos comunal — uma vasta câmara subterrânea revestida de azulejos brancos e manchados do verdume e do mofo da humidade.O cheiro a cloro misturava-se com o odor acre a suor velho e ao formol omnipresente. Várias dezenas de celas de banho alinhavam-se ao longo das paredes húmidas, sob o olhar vigilante de dois supostos guardas de ombros largos e expressões vazias.Separados por grossas paredes mestras de granito e por um rigor gélido que cortava o asilo ao meio, com os homens confinados a esta ala e as mulheres relegadas para as galerias mortas do lado oposto, os







