LOGINO cheiro a formol e a suor rançoso era mais denso nas profundezas do “Fundo”, muito abaixo do nível dos quartos, onde os corredores de alvenaria nua davam lugar aos calabouços do hospício.Ali, a arquitetura parecia contorcer-se de propósito: os tetos baixos, mostravam a sua forma opressiva e as paredes de pedra suavam uma humidade espessa, negra como um óleo velho, misturada com verdume de musgo.Era o território exclusivo dos funcionários. Longe de serem meros guardas ou enfermeiros, aquelas figuras pareciam ter sido esculpidas a partir da própria matéria corrompida daquele edifício terrorífico.O enfermeiro-chefe, um homem colossal a quem chamavam surdamente de Gárgula, arrastava uma perna excessivamente longa enquanto caminhava pelo corredor dos castigos. A sua farda branca estava permanentemente manchada de fluidos indecifráveis, e o seu rosto exibia uma desproporção anatómica grotesca: o olho esquerdo, enorme e protuberante como um berlinde de vidro sem vida. Fixava-se obsessi
O silêncio que se seguiu ao banho de sangue não era pacífico; era o silêncio tenso de uma armadilha que estava prestes a desabar.Com as roupas ainda húmidas e coladas à pele, Arthur foi de novo empurrado de volta para o seu quarto. As suas mãos tremiam incontrolavelmente, manchadas por vestígios invisíveis ou seriam muito reais? De um rubor que parecia nunca mais sair da sua pele. Este fechou os olhos, mas a imagem da cascata vermelha continuava a pulsar por trás das suas pálpebras, misturando-se com as vozes distantes que ecoavam pelo imenso corredor.A exaustão física e química acabou por vencê-lo, arrastando-o para um sono pesado, povoado por pesadelos sequenciais e sussurros sem rosto.Foi o som de um respingar rítmico, insistente e macabro que o arrancou abruptamente da inconsciência. — Ploc. Ploc. Ploc. —Arthur abriu os olhos. A luz cinzenta da madrugada mal iluminava o quarto. Sentou-se na beira da cama e respirava com dificuldade, sentia o peito muito apertado.Um grito sufo
O apito estridente e metálico cortou o silêncio matinal do “Fundo”, ecoando pelas paredes de granito secular, como o grito agónico de uma alma em completo suplício.Era a alvorada e as portas dos cubículos abriram-se numa cadência sistemática, impulsionadas por molas industriais que rangiam em uníssono.Apanhado pelo turbilhão da rotina, Arthur foi arrastado pela correnteza dos pacientes apáticos indo em direção ao bloco de banhos comunal — uma vasta câmara subterrânea revestida de azulejos brancos e manchados do verdume e do mofo da humidade.O cheiro a cloro misturava-se com o odor acre a suor velho e ao formol omnipresente. Várias dezenas de celas de banho alinhavam-se ao longo das paredes húmidas, sob o olhar vigilante de dois supostos guardas de ombros largos e expressões vazias.Separados por grossas paredes mestras de granito e por um rigor gélido que cortava o asilo ao meio, com os homens confinados a esta ala e as mulheres relegadas para as galerias mortas do lado oposto, os
O fechar da grossa e pesada porta de madeira do quarto marcava o início de uma noite no “Fundo”.A luz dos candeeiros do corredor penetravam apenas por uma estreita fresta na escotilha, projetando uma barra amarelada sobre o chão de pedra. Instantes mais tarde, Arthur estava sentado na beira do colchão fino, de sacos de estopa cheios de palha rota, ainda aprisionado na lona rija da camisa de forças que lhe imobilizava os braços contra o peito numa mordaça de tecido, sentindo os efeitos secundários da substân-cia ingerida no refeitório: as veias das suas mãos pareciam pulsar com um brilho fosforescente de um azul-lívido, a cor gélida da pele esticada sobre o corpo de um defunto e os batimentos cardíacos ecoavam nas paredes do quarto como pancadas abafadas de um tambor numa cerimónia fúnebre.Lá fora, na ala comunal, a noite não trazia silêncio; trazia uma sinfonia de demências entrelaçadas, com-posta por uivos que pareciam rasgar a garganta de criaturas esfoladas vivas no escuro. — Úuu
TOC. TOC. TOC. — O som das botas de Arthur, pesadas e ferradas, ressoava pelo corredor com uma clareza dolorosa, cada impacto a projetar-se como um martelo contra a pedra oculta sob o que parecia linóleo, amplificando a sua solidão naquele abismo de cor verde-esbranquiçada, do musgo que acompanhava as paredes, como um sortido de fungos. Agora era acompanhado de perto pelo passo arrastado de um dos enfermeiros, cujos braços pareciam expandir-se em comprimento, dentro da farda imaculadamente encar-dida.Conforme a ordem do Diretor, foi conduzido até ao seu aposento definitivo na respetiva ala. O quarto era uma cela exígua, onde o ar viciado e o cheiro a formol continuava a sentir-se e estava cristalizado nas pare-des de pedra nua. Ali foi deixado, trancado com um estalido ferroso da fechadura, da porta de madeira es-pessa apodrecida pelo tempo, que lhe selou o próprio fôlego, obrigando-o a digerir o seu pânico durante horas ou talvez dias, pois o tempo ali parecia dissolver-se na penu
Num inverno rigoroso de 1888, o relógio da torre sineira do hospital de “Raven’s Hollow” — uma localidade isolada e esquecida a dezenas de léguas do “Fog” de Londres, que muitos na região conheciam apenas pelo sussurro maldito “d’O Fundo” — bateu as três badaladas da madrugada, rasgando o silêncio de uma noite sem estrelas. A era vitoriana cobrava o seu preço em carvão e mistério; o ar tinha o sabor metálico da fuligem e da solidão. Foi nesse instante de trevas absolutas que o fenómeno começou. O nevoeiro que caía sobre o hospital não caía do céu; vomitava do próprio asfalto de pedra basáltica, rastejando como uma serpente cinzenta em direção aos sapatos de Arthur Pendelton.À medida que o veículo institucional — uma carrinha de chapa batida, com pequenas frestas altas vedadas por pesadas persianas de madeira e grelhas de ferro que ocultavam por completo os horrores do seu interior — sacudia violentamente contra o empedrado — abrandava diante dos portões de ferro forjado, a luz pálida







