LOGINO que acontece quando a realidade deixa de ser uma linha reta e se transforma num labirinto vivo que se alimenta da sua sanidade? Arthur Pendelton acordou enclausurado num pesadelo. À sua volta erguem-se as paredes opressoras de um hospital psiquiátrico misterioso. Mas este não é um lugar de cura. The Bottom é uma entidade arquitetónica predatória, um organismo dimensional que converte a mente, a memória e a anatomia dos reclusos em peças de hardware orgânico e pilares de sustentação para uma fenda cósmica. Sob o comando do enigmático Diretor Kraiser e do implacável cirurgião Dr. Malombra, uma colheita sistemática começou. Ali, pensamentos racionais são transformados em coroas de pregos e identidades são desfeitas para alimentar a estrutura. Entre alucinações avassaladoras, corredores que se dobram sobre si mesmos e o colapso iminente da sua própria perceção, Arthur trava uma luta desesperada pela sobrevivência. Ele precisa de desmontar o monstro por dentro antes que o seu próprio corpo se torne parte dele. Numa narrativa vertiginosa onde o terror psicológico se funde com o fantástico sombrio, Rui Ferrer Trindade constrói um thriller hipnótico que nos força a questionar: Será O Fundo um lugar físico... ou o destino inevitável de qualquer mente que tente escapar aos abismos da consciência humana?
View MoreNum inverno rigoroso de 1888, o relógio da torre sineira do hospital de “Raven’s Hollow” — uma localidade isolada e esquecida a dezenas de léguas do “Fog” de Londres, que muitos na região conheciam apenas pelo sussurro maldito “d’O Fundo” — bateu as três badaladas da madrugada, rasgando o silêncio de uma noite sem estrelas.
A era vitoriana cobrava o seu preço em carvão e mistério; o ar tinha o sabor metálico da fuligem e da solidão. Foi nesse instante de trevas absolutas que o fenómeno começou. O nevoeiro que caía sobre o hospital não caía do céu; vomitava do próprio asfalto de pedra basáltica, rastejando como uma serpente cinzenta em direção aos sapatos de Arthur Pendelton.À medida que o veículo institucional — uma carrinha de chapa batida, com pequenas frestas altas vedadas por pesadas persianas de madeira e grelhas de ferro que ocultavam por completo os horrores do seu interior — sacudia violentamente contra o empedrado — abrandava diante dos portões de ferro forjado, a luz pálida da tarde parecia curvar-se, sugada por uma gravidade invisível que parecia emanar da fachada do hospício.
Arthur apertou os punhos dentro do seu sobretudo de lã escura. O seu nome constava na prancha das admissões, mas a sua mente parecia despedaçar-se em pequenos, mas que acabavam por ser maçudos fragmentos de memórias difusas. Porque é que estava ali?
A pergunta repetia-se vezes sem conta, no seu crânio como se fosse um eco metálico. Os familiares, lembrava-se vagamente dos seus rostos chorosos através de um vidro baço, mas as vozes tinham desde já, sido apagadas por um silêncio administrativo intransponível. Ninguém visitava aquele hospital e ninguém saía de lá, era “O Fundo”.— Chegámos, maldito — rosnou o condutor, um homem de ombros disformes cujo pescoço mais parecia fundido à gola do seu casaco felpudo.
As pesadas portas rangeram numa frequência aguda que fazia vibrar os dentes, soltando um guincho metálico e estridente — iiiiii-iiii — que cortava o silêncio, seguido pelo atrito pesado e cavernoso da madeira ancestral a arrastar-se contra as dobradiças secas — crrrrrr-chiiii — até culminar num eco grave e abafado — uuuuum — que parecia ressoar no interior do seu cérebro e se desvaneceu nas sombras, como um inverno apocalíptico.
Arthur desceu da carrinha, sentindo o ar rarefeito e denso, era um peso impregnado com um odor acre a formol e a terra molhada.
Olhou para cima e viu o edifício principal que se erguia contra o crepúsculo como uma enorme cicatriz de basalto negro contra o imenso horizonte. Os raios do sol poente, em vez de iluminarem as janelas em ogiva, pareciam desvanecer-se a dispersos centímetros das paredes, eram engolidos por uma complexa penumbra insaciável que fazia o edifício parecer infinitamente ainda mais alto do que era, apesar de ter uma altura, que parecia ser estrondosa.
— Seja muito bem-vindo ao nosso modesto repouso perpétuo, querido Sr. Pendelton... os mortais costumam encontrar aqui uma paz da qual jamais se conseguem libertar — sibilou uma voz deslizante, vinda de entre as sombras do pórtico.
Arthur ficou sobressaltado, recuou um passo até bater contra a carroçaria da carrinha. Das trevas da entrada surgiu o Diretor.
O Dr. Ernest Kraiser que deslizava com uma fluidez mecânica e bastante nauseante — era um réptil disfarçado de homem — cujos membros compridos e esquálidos pareciam esticar-se por baixo do seu fato acinzentado, demasiado justo para um corpo que dava a impressão de não ter sequer ossos, mas que era feito de nós de linho apodrecido.
Mas o que mais aterrorizou Arthur foi a face do homem, era uma máscara de pele lívida e cerosa, excessivamente tensa, esticada sobre os ossos maxilares como se a própria carne tivesse sido moldada num rigor antinatural.
O nariz era uma lâmina afiada e, acima de tudo, a boca, em que os lábios de Kraiser abriam-se num sorriso cínico e absoluto que rasgava o rosto de orelha a orelha — uma fenda perpétua e bem gélida, desprovida de qualquer calor humano, que mais parecia a careta trocista de um crânio esculpido para zombar dos vivos.
Contudo, os seus olhos — duas esferas vidradas, de um azul baço e completamente desprovidas de reflexo, fitavam o vazio, como se olhassem através do próprio Arthur, ou pior, para algo horrível escondido logo atrás dele.
— O... o ar aqui é pesado — conseguiu balbuciar o Arthur, sentindo o seu pulso numa aceleração paranoica e de certa forma súbita. — Os meus papéis... o meu advogado...
— Aqui não há papéis que lhe valham, meu caro — respondeu Kraiser, com um sorriso imutável que se esticava ainda mais, num ângulo que desafiava a normal anatomia humana. — As paredes absorvem tudo o que é supérfluo. A racionalidade, o tempo e o passado... desvanecem-se. Na verdade, já cá está tudo o que precisamos de si.
Um relâmpago de pânico cruzou a mente do Arthur, mas antes que pudesse correr em direção aos portões que já se fechavam com um estrondo metálico, uma mão fria como gelo fechou-se sobre o seu ombro.
O pesadelo tinha começado, e as portas daquela dimensão esquecida pela humanidade, tinham-se selado para sempre.
O silêncio abafado que se seguiu ao fecharem-se dos portões não foi apenas a ausência de som; foi uma pressão física muito palpável e realista, como se o próprio ar do hospício estivesse a condensar-se em torno do Arthur, transformando-se numa redoma invisível.
A mão fria que o segurava pelo ombro pertencia a um dos funcionários, cujos braços desproporcionadamente longos se arrastavam quase até ao chão empedrado. Com um empurrão firme, mecânico e destituído de qualquer raiva ou compaixão, o homem impeliu Arthur para a frente, obrigando-o a avançar através do peristilo espectral, onde as colunas centenárias se erguiam como ossos descarnados a suster um teto invisível de trevas.
— Não resista à arquitetura da casa, novo hóspede — sussurrou o Dr. Kraiser, caminhando ao lado de Arthur com passos curtos e flutuantes, como se os seus sapatos nunca chegassem a tocar verdadeiramente no chão. O sorriso parecia perpétuo pois continuava cravado
no seu rosto de marfim, intocável e macabro. — A resistência gera atrito. E o atrito desgasta as paredes. Nós preferimos uma transição suave.
Enquanto atravessavam o limiar do arco da entrada, a temperatura desceu abruptamente.
O calor abafado do final de tarde já tinha desaparecido, substituído por um frio de morgue que penetrava o seu sobretudo de lã e se colava diretamente aos seus ossos.
O átrio interior revelou-se num abismo de mármore cinzento e de mais colunas colossais que pareciam esticar-se para além do teto visível, perdendo-se numa penumbra espessa, onde os bicos de gás sigilosos fungavam num silvo monocórdico e agudo — sssssss-iiii... — um sopro constante e asfixiante que rasgava o silêncio daquela cripta.
Não havia receção, nem sofás de espera, não tinha as caraterísticas de um hospital normal. Apenas um corredor central imenso, cujas paredes de cimento bruto pareciam respirar de forma lenta e rítmica, expandindo-se e contraindo-se como as paredes torácicas de uma criatura adormecida hà séculos.
No chão, viam-se riscas grossas de tinta vermelha desbotada que marcavam caminhos labirínticos que divergiam em ângulos agudos, desafiando qualquer lógica arquitetónica linear.
— Onde... onde estão os outros pacientes? — perguntou o Arthur, com a voz a sair-lhe num arquejo trémulo, sufocado pelo eco que ressoava pelas galerias vazias. — Isto não é um hospital. O que fizeram a este lugar?
Kraiser parou subitamente. O funcionário imobilizou-se logo atrás de Arthur.
O Diretor virou-se lentamente, os seus olhos azuis e baços fixando-se no fundo das pupilas de Arthur, como se estivessem a medir a espessura da sua sanidade.
— Os outros? Oh, os outros estão perfeitamente ocupados, Sr. Pendelton — respondeu Kraiser, com uma suavidade Irónica e aveludada que mesmo assim gelava o sangue. — Alguns sustentam o teto da ala norte. Outros servem de argamassa nas tubagens do subsolo. Ninguém se desperdiça aqui no Fundo. Cada fragmento de identidade que traz consigo é precioso para manter a nossa estrutura... firme.
Antes que Arthur pudesse processar o horror daquela revelação ou tentar uma fuga desesperada para a porta de entrada, que agora lhe parecia a quilómetros de distância, distorcida por uma perspetiva oblíqua — o Diretor estalou os dedos.
O som estalou no corredor com a secura de um golpe de chicote, um “crac” oco e estaladiço — semelhante ao romper de um osso velho nas profundezas de uma cripta — que feriu o silêncio daquela galeria com uma precisão cirúrgica.
De uma porta lateral que se abriu sozinha, arrastando-se pelo chão com um estertor de ferro — iiiiik-crrrr... — o ranger arrastado e sufocado de dobradiças ancestrais a ceder à ferrugem, jorrou uma lufada de ar viciado, carregado de formol e sangue seco.
— Levem o Sr. Pendelton para o seu quarto na ala de adaptação
— ordenou o Diretor, virando as costas e dissolvendo-se lentamente na penumbra labiríntica do corredor. — Que ele comece a habituar-se aos nossos alicerces.
O cheiro a formol e a suor rançoso era mais denso nas profundezas do “Fundo”, muito abaixo do nível dos quartos, onde os corredores de alvenaria nua davam lugar aos calabouços do hospício.Ali, a arquitetura parecia contorcer-se de propósito: os tetos baixos, mostravam a sua forma opressiva e as paredes de pedra suavam uma humidade espessa, negra como um óleo velho, misturada com verdume de musgo.Era o território exclusivo dos funcionários. Longe de serem meros guardas ou enfermeiros, aquelas figuras pareciam ter sido esculpidas a partir da própria matéria corrompida daquele edifício terrorífico.O enfermeiro-chefe, um homem colossal a quem chamavam surdamente de Gárgula, arrastava uma perna excessivamente longa enquanto caminhava pelo corredor dos castigos. A sua farda branca estava permanentemente manchada de fluidos indecifráveis, e o seu rosto exibia uma desproporção anatómica grotesca: o olho esquerdo, enorme e protuberante como um berlinde de vidro sem vida. Fixava-se obsessi
O silêncio que se seguiu ao banho de sangue não era pacífico; era o silêncio tenso de uma armadilha que estava prestes a desabar.Com as roupas ainda húmidas e coladas à pele, Arthur foi de novo empurrado de volta para o seu quarto. As suas mãos tremiam incontrolavelmente, manchadas por vestígios invisíveis ou seriam muito reais? De um rubor que parecia nunca mais sair da sua pele. Este fechou os olhos, mas a imagem da cascata vermelha continuava a pulsar por trás das suas pálpebras, misturando-se com as vozes distantes que ecoavam pelo imenso corredor.A exaustão física e química acabou por vencê-lo, arrastando-o para um sono pesado, povoado por pesadelos sequenciais e sussurros sem rosto.Foi o som de um respingar rítmico, insistente e macabro que o arrancou abruptamente da inconsciência. — Ploc. Ploc. Ploc. —Arthur abriu os olhos. A luz cinzenta da madrugada mal iluminava o quarto. Sentou-se na beira da cama e respirava com dificuldade, sentia o peito muito apertado.Um grito sufo
O apito estridente e metálico cortou o silêncio matinal do “Fundo”, ecoando pelas paredes de granito secular, como o grito agónico de uma alma em completo suplício.Era a alvorada e as portas dos cubículos abriram-se numa cadência sistemática, impulsionadas por molas industriais que rangiam em uníssono.Apanhado pelo turbilhão da rotina, Arthur foi arrastado pela correnteza dos pacientes apáticos indo em direção ao bloco de banhos comunal — uma vasta câmara subterrânea revestida de azulejos brancos e manchados do verdume e do mofo da humidade.O cheiro a cloro misturava-se com o odor acre a suor velho e ao formol omnipresente. Várias dezenas de celas de banho alinhavam-se ao longo das paredes húmidas, sob o olhar vigilante de dois supostos guardas de ombros largos e expressões vazias.Separados por grossas paredes mestras de granito e por um rigor gélido que cortava o asilo ao meio, com os homens confinados a esta ala e as mulheres relegadas para as galerias mortas do lado oposto, os
O fechar da grossa e pesada porta de madeira do quarto marcava o início de uma noite no “Fundo”.A luz dos candeeiros do corredor penetravam apenas por uma estreita fresta na escotilha, projetando uma barra amarelada sobre o chão de pedra. Instantes mais tarde, Arthur estava sentado na beira do colchão fino, de sacos de estopa cheios de palha rota, ainda aprisionado na lona rija da camisa de forças que lhe imobilizava os braços contra o peito numa mordaça de tecido, sentindo os efeitos secundários da substân-cia ingerida no refeitório: as veias das suas mãos pareciam pulsar com um brilho fosforescente de um azul-lívido, a cor gélida da pele esticada sobre o corpo de um defunto e os batimentos cardíacos ecoavam nas paredes do quarto como pancadas abafadas de um tambor numa cerimónia fúnebre.Lá fora, na ala comunal, a noite não trazia silêncio; trazia uma sinfonia de demências entrelaçadas, com-posta por uivos que pareciam rasgar a garganta de criaturas esfoladas vivas no escuro. — Úuu
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