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Capítulo 2 - O Nevoeiro do Refeitório

last update publish date: 2026-10-31 12:55:27

TOC. TOC. TOC. — O som das botas de Arthur, pesadas e ferradas, ressoava pelo corredor com uma clareza dolorosa, cada impacto a projetar-se como um martelo contra a pedra oculta  sob o que parecia linóleo, amplificando a sua solidão naquele abismo de cor verde-esbranquiçada, do musgo que acompanhava as paredes, como um sortido de fungos. Agora era acompanhado de perto pelo passo arrastado de um dos enfermeiros, cujos braços pareciam expandir-se em comprimento, dentro da farda imaculadamente encar-dida.

Conforme a ordem do Diretor, foi conduzido até ao seu aposento definitivo  na respetiva ala. O quarto era uma cela exígua, onde o ar viciado e o cheiro a formol continuava a sentir-se e estava cristalizado nas pare-des de pedra nua. Ali foi deixado, trancado com um estalido ferroso da fechadura, da porta de madeira es-pessa apodrecida pelo tempo, que lhe selou o próprio fôlego, obrigando-o a digerir o seu pânico durante horas ou talvez dias, pois o tempo ali parecia dissolver-se na penumbra difusa.

Quando as pesadas batentes de madeira enegrecida voltaram a abrir-se, rangendo como ossos a quebrar, foi arrancado do seu atual cativeiro.

Acabou por ser empurrado para o refeitório por entre as portas duplas de uma guilhotina de madeira, carvalho escuro, num empurrão seco e sem retorno.

O ar ali dentro era denso, pesado com o bafo  morno e de suor pestilento clínico, de dezenas de corppos e um cheiro adocicado que enjoava ao primeiro contacto, uma mistura nauseabunda de essência de  baunilha artificial e do formol.

Quando entrou, estavam sentados nas longas mesas de carvalho enegrecido, dezenas de pacientes com olhares muito vagos e mastigavam em  silêncio. No entanto, os murmúrios cruzavam-se no ar como murmúrios de fantasmas: — As paredes respiram pelo canto esquerdo, não olhes... — murmurava uma mulher magra, mais velha, a Josephine, de cabelos brancoa e ruivos, bem desgrenhados, riscando  num esgar de repetição obsessiva a mesa onde estava sentada com as unhas. Um arranhar incessante e febril que, a cada fricção contra a madeira àspera fendia a carne até que a unha estalasse e sangrasse, tingindo o sulco de um vermelho vivo e espesso.

— O relógio anda para trás, a minha infância está no fundo da sopa... —  respondia um homem careca, o Brutus, rindo histericamente sem nunca desviar os olhos do prato, onde uma papa de aspeto tumular sepultava pedaços disformes de uma matéria que desafiava a própria natureza.

Arthur foi guiado até uma mesa solitária, composta a preceito. À sua frente foi colocada uma travessa funda. O conteúdo era surpreendentemente requintado para um manicómio: um creme aveludado, de um tom dourado brilhante, coroado com framboesas frescas que pareciam vindas a transbordar de um sumo fresco.

Aos olhos cansados e famintos de Arthur, a iguaria exalava um perfume reconfortante que contrastava violentamente com a lepra das paredes e a podridão daquele antro.

— Vamos, Sr. Pendelton. Não queremos que a sobremesa esfrie. Tem um gosto excelente, garanto-lhe — comentou o enfermeiro, inclinando-se tanto sobre o seu ombro que a seu hálito cheirava a carne crua, um fedor de matadouro que parecia mastigar o próprio silêncio antes de lhe roçar a pele.

Arthur pegou na colher de metal pesado e acabou por sentir uma repulsa instintiva, uma comichão incomodativa na base da cabeça, mas a fome e o torpor da viagem falavam mais alto. Levou a primeira colherada à boca, era deliciosamente doce, cremosa, com uma textura sedosa que derretia na língua, por mais estranho que pareça. No entanto, ao engolir, a doçura transformou-se instantaneamente num travo, áspero, como se estivesse a mastigar limalha de ferro e terra do cemitério.

— O que é isto...? — engasgou-se Arthur, pousando a sua colher com uma certa e direcionada violência, contra a mesa, fazendo salpicar o creme dourado sobre a mesa.

— Está tudo bem, meu caro vizinho? A iguaria está saborosa, não está? — disse um homem gordo, sentado à sua direita, um sujeito de olhos esbugalhados chamado Julian, que sorria de forma quase mecânica, com os dentes cobertos por uma pasta cinzenta, algo que mostrava ser misterioso, um lodo espesso e rançoso que parecia alimentar-se da própria raiz das suas gengivas podres.

— A gente come sempre tudo. Se não comermos, os germes, eles saem de dentro do prato e entram-nos pelos ouvidos. Não viste os vermes dourados a nadar como pequenos girinos?

Arthur pestanejou, sentindo a dar-lhe uma volta violenta ao estômago. Quando voltou a olhar para o prato, o choque paralisou-o, porque o creme dourado já não era cremoso; fervilhava. Milhares de micro-organismos translúcidos, semelhantes a minúsculas enguias com dentes humanos, contorciam-se e nadavam naquela papa, misturados com as cápsulas translúcidas de hidrato de cloral e as gotas escuras de láudano que se dissolviam lentamente.

— O que é que me deram? O que é isto na comida? — gritou Arthur alarmado, levantando-se sobressaltado e empurrando a cadeira para trás com um estrondo estridente, acabando por derrubá-la.

À sua volta, os outros pacientes continuavam a mastigar em silêncio, alheios ao seu pânico, enquanto Julian ria de uma forma abafada, balançando a cabeça de um lado para o outro : — Meu caro, medicamento para a alma… medicamento para a alma… medicamentos para a alma… — repetindo-se vezes sem conta, como se fosse o gotejar incessante de uma bica de formol sobre um crânio aberto, ecoando pelas paredes de um fosso fundo. 

As luzes do refeitório piscavam, engasgando-se como um tremor epilético e irregular, nos bicos de gás, projetando umas sombras longas e distorcidas, que começavam a escorrer pelas paredes, como se fossem um liquido negro viscoso. Ao fundo, as próprias paredes também começaram a ondular como se fossem um tecido vivo, e Arthur sentia o chão ceder sob os seus pés, como se o refeitório estivesse a afundar-se num oceano cheio de sangue invisível. A sua racionalidade estilhaçava-se a cada segundo, engolida pelo veneno doce que agora corria nas suas veias. Seriam alucinações ou a verdadeira realidade?

A vertigem no estômago de Arthur intensificou-se, transformando-se numa ânsia de vómito, que parecia rasgar-lhe a garganta pelo seu interior. As mãos tremiam-lhe de uma forma incontrolável enquanto olhava para as próprias palmas das mãos, onde pequenas linhas de tinta cinzenta começavam a desenhar-se sob a sua pele esbranquiçada, como se a substância ingerida estivesse a mapear o seu corpo a partir de dentro.

— Ele vai cuspir! O espécime está a rejeitar a argamassa! — gritou uma voz estridente a partir do fundo do refeitório, era John, o enfermeiro-chefe.

Imediatamente, o silêncio estrondoso dos autênticos “reclusos” quebrou-se num coro uníssono de murmúrios arrepiantes. Dezenas de cabeças viraram-se em simultâneo na direção de Arthur, com os seus olhos arregalados e vazios, fixando-o com uma voracidade macabra, parecendo emgoli-lo. Os talheres bateram contra a madeira das mesas num ritmo frenético, como o bater de asas de insetos gigantes, com um irritação impossível de tolerar.

Os enfermeiros de braços compridos avançaram a passos largos, criaturas obscuras, contornando as mesas com uma agilidade antinatural, para que parassem as batidas. Antes que Arthur conseguisse dar um passo para trás para fugir, as mãos frias e pesadas do funcionário cravaram-se-lhe nos ombros, imobilizando-o com a força de um torno industrial.

— Não se desperdiça o sustento do “Fundo”, Sr. Pendelton — disse o enfermeiro, aproximando o seu rosto a centímetros do de Arthur. O seu hálito já não era apenas de carne crua; cheirava a ferro oxidado e a terra molhada da cova rasa de morto. — O que entra pelo estômago consolida as paredes. Se recusar o remédio, teremos de o aplicar diretamente nas vigas.

A força do aperto esmagava-lhe as clavículas. A lutar contra a náusea, Arthur tentou forçar o vómito, inclinando-se para a frente, mas a papa dourada parecia ter-se colado às paredes do seu esófago, ardendo como brasas vivas.

Sentiu a cabeça estilhaçar-se por dentro: um zumbido agudo, semelhante ao rasgar de metal contra metal, ecoou nas suas têmporas.

E então, o mundo à sua volta distorceu-se de forma absoluta.

As paredes de carvalho enegrecido do refeitório começaram a vergar, curvando-se para o interior numa contorção convulsiva, como se a sala estivesse a ser sugada por um sumidouro invisível.

Os rostos dos pacientes esticavam-se, transformando-se em borrões de carne cinzenta que fundiam com a mobília à alvenaria.

Através da janela embaciada do refeitório, Arthur já não via o pátio exterior. Via o próprio horizonte dobrar-se sobre si mesmo, revelando que o edifício não assentava na terra, mas sobre um imenso emaranhado de cabos de aço, tubagens sujas de sangue e esqueletos humanos que sustentavam o teto do mundo.

— Vejam... ele já consegue ver a estrutura — disse Julian, cujo rosto se tinha fundido por completo com a borda da mesa, com os seus dentes cravados na madeira.

Com um puxão violento, o enfermeiro arrastou o Arthur para longe da mesa, atirando-o com força contra o chão de azulejo avermelhado desgastado, que agora pulsava como uma artéria viva.

O ar faltava-lhe nos pulmões. Enquanto as luzes do refeitório se fundiam numa penumbra escarlate, Arthur percebeu, com um pavor gélido a congelar-lhe o sangue, que a comida não o estava a envenenar para o matar; estava a prepará-lo para ser digerido, transformando o seu esqueleto no próximo pilar daquele hospício infinito.

Um abraço de lona crua branca e correias de couro estalou-se nas suas costelas, amordaçando os seus gritos num silêncio de chumbo, antes de ser içado do chão como um fardo de carne e arrastado de volta para as entranhas da sua cela.

 

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