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Dez Anos Depois

Penulis: Krystal Pires
last update Tanggal publikasi: 2026-09-26 04:14:04

Dez anos têm o poder de transformar tudo. Aos vinte e quatro anos, o espelho já não refletia mais a garota insegura de olhos azuis que chorava no quarto por causa de um amor não correspondido. Eu havia crescido, amadurecido e encontrado o meu lugar no mundo.

​Trabalhar como auxiliar em uma escola infantil era o meu porto seguro. Todos os dias, ao cruzar os portões da escolinha, eu era recebida por risadas sinceras, abraços apertados na altura do joelho e pezinhos correndo pelo pátio. Cuidar daquelas crianças, ensinar com paciência e ver o mundo através da pureza delas enchia meu peito de um amor puro que nada no mundo pagava. Eu me orgulhava da mulher paciente e afetuosa que havia me tornado.

​Depois do ensino médio, a vida seguiu seu curso natural. Tive alguns relacionamentos breves, histórias sem grandes alardes que me ensinaram a entender o que eu realmente queria para mim. E, até poucas horas atrás, eu achava que tinha encontrado isso em Andrew.

​Estávamos namorando há algum tempo, mas tu acabou da forma mais clichê e dolorosa possível. A descoberta da traição veio como uma facada, sem espaço para dúvidas.

​Agora, estávamos no apartamento em que eu morava alugado. Andrew andava de um lado para o outro na sala, as mãos no cabelo, o rosto vermelho de desespero enquanto tentava juntar os cacos do erro dele.

​— Karen, por favor, me escuta! — ele pediu, aparentando arrependimento — Foi um erro absurdo, um momento de fraqueza. Me perdoa... Fica comigo. A gente pode superar isso juntos, eu juro que nunca mais vai acontecer!

​Olhei para ele do meio da sala. Não havia gritaria da minha parte, nem choro descontrolado. Havia apenas uma clareza serena, esculpida pelos anos em que aprendi a valorizar quem eu era.

​— Não, Andrew. Não tem "superar juntos" — minha voz saiu firme. — Eu me amo demais para me sujeitar a isso.

​Ele parou, surpreso com a minha calmaria.

​— Mas eu te amo! A gente construiu tanta coisa... Você vai jogar tudo fora assim?

​— Quem jogou tudo fora foi você no momento em que quebrou a minha confiança — respondi, mantendo o olhar fixo no dele. — Eu fui inteira com você. Fui fiel, te amei e cuidei de nós. Quem perdeu aqui não fui eu. Você é quem perdeu uma mulher leal, que te apoiava e te amava de verdade.

​Respirei fundo, sentindo um alívio libertador no peito ao pronunciar as últimas palavras:

​— E a verdade é que, olhando para você agora... eu não sinto mais nada. Por favor, pegue as suas coisas e saia.

A porta do apartamento bateu selando a saída definitiva de Andrew. O silêncio que tomou conta da sala não trazia arrependimento, apenas o peso inevitável de um fim. Caminhei até o sofá, peguei o celular sobre a mesa de centro e descansei o dedo sobre um contato.

​Talita atendeu no segundo toque.

​— Amiga! Tava mesmo pensando em te ligar agora. Tudo bem por aí?

​Apenas ouvir a voz dela fez o nó na minha garganta se desfazer um pouco. Ela não era só minha melhor amiga; era a irmã que a vida tinha me dado. Estava ao meu lado durante a infância e adolescência e conhecia cada camada da minha história.

​— Eu terminei com o Andrew, Tali — soltei de uma vez, mantendo a voz o mais firme que conseguia. — Descobri uma traição. Ele tentou pedir desculpas, mas... já era. Coloquei ele para fora.

​Um palavrão abafado veio do outro lado da linha, seguido pelo som de Talita se movimentando rápido.

​— Como é que é?! Aquele canalha... Karen, você tá bem? Quer que eu vá aí agora mesmo quebrar a cara dele?

​Acabei soltando um riso fraco, exatamente o tipo de reação de que eu precisava.

​— Não precisa de violência — respondi, sorrindo de leve. — Eu só... preciso esfriar a cabeça, sair um pouco deste apartamento. Você tá livre hoje?

​— Pra você? Sempre — Talita respondeu sem hesitar um segundo. — Vamos fazer o seguinte: tem um filme novo estreando hoje no shopping, aquele de suspense que a gente tava doida pra ver. Você passa aqui, a gente pega uma pipoca gigante, assiste à estreia e depois comemos algo. Nada de ficar remoendo ex-namorado em casa. O que acha?

​— Acha que 19h tá bom pra te buscar? — perguntei, já me sentindo mais leve.

​— Perfeito. Te espero na porta de casa, você é maravilhosa, tá? Não esquece disso.

​Desliguei o telefone sentindo o peito aquecer. A vida podia dar mil voltas e os relacionamentos podiam falhar, mas saber que eu tinha Talita ao meu lado tornava qualquer recomeço infinitamente mais fácil. Fui para o banheiro, tomei um banho demorado para lavar a poeira daquele dia e comecei a me arrumar para o cinema.

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