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O Fantasma do Meu Primeiro Amor
O Fantasma do Meu Primeiro Amor
Author: Krystal Pires

Aonde Tudo Começou

Author: Krystal Pires
last update publish date: 2026-09-26 03:48:43

Enquanto eu caminhava para casa, arrastando os pés pela calçada. Minhas pernas obedeciam ao piloto automático, mas minha mente ainda estava presa no pátio da escola, exatamente no segundo em que o meu mundo desmoronou.

Desde os meus doze anos, o universo girava em torno de uma única pessoa: Eduardo Lacerda. O Edu. Três anos observando aquele cabelo escuro meio bagunçado, o contraste da pele clara com os olhos verdes que pareciam entender tudo sem precisar de palavras. Três anos guardando um segredo que queimava no meu peito a cada bom-dia, a cada risada compartilhada no corredor da Escola no ensino médio.

​Hoje era para ter sido o dia da virada.

Talita passou o intervalo inteiro me dando aquele choque de ordem que só as melhores amigas conseguem dar. "Karen, você tem quatorze anos, você é linda, tem os olhos azuis que todo mundo repara e um coração enorme. Chega de sofrer em silêncio. Vai lá e fala!", ela me disse, me empurrando suavemente na direção dele antes que eu pudesse recuar.

​Eu tomei coragem. Ajustei a mochila nas costas, passei as mãos nervosas pelos meus cabelos castanhos longos e chamei o Edu para conversar perto do portão da escola. Minhas mãos tremiam tanto que precisei escondê-las nos bolsos do casaco. Quando soltei as palavras, a voz saiu quase como um sussurro, mas ele ouviu. Cada palavra.

— Edu, faz tempo queria falar com você, é que não sei se você percebeu, mas eu gosto de você tem, sei lá, uns três anos, então acho que eu precisava falar isso hoje.

​O silêncio que se seguiu durou uma eternidade. Edu me olhou com uma gentileza que doeu mais do que qualquer grosseria doeria. Ele deu um passo à frente, suspirou baixinho e me deu um sorriso triste, daqueles cheios de consideração, mas desprovidos de qualquer faísca.

​— Karen... você é uma garota incrível, de verdade — ele disse, com uma delicadeza impecável que só tornava tudo mais difícil. — Mas... você é muito nova, agora que você ta no primeiro ano, deve ter uns 14 ou 15 anos, eu já estou no terceiro ano e estou prestes a fazer 18, esse ano termino o ensino médio, sou muito velho pra você, mas por favor não fica triste tabom?

— Tudo bem Edu, é que eu já não aguentava mais guardar isso comigo, mas tudo bem, não vou ficar triste.

— Eu te entendo, preciso ir até depois...—disse Edu indo embora.

​Ele não me humilhou, não riria de mim, não me tratou mal. Ele apenas colocou uma barreira invisível entre nós, desenhada pela diferença de idade e pela imaturidade que ele enxergava em mim.

​Cheguei na porta de casa e subi direto para o meu quarto.

Tranquei a porta do meu quarto e me deixei cair em cima da cama. A mochila foi para o lado e o silêncio da casa pareceu gritar no meu ouvido.

​Três anos. Três anos alimentando um sentimento por Eduardo Lacerda que acabou resumido a um sorriso piedoso e uma frase educada: “Você é muito nova.”

​A delicadeza dele doía mais do que se ele tivesse sido cruel. Se o Edu tivesse rido da minha cara ou contado para a escola inteira, teria sido fácil sentir raiva. Teria sido fácil odiá-lo. Mas ele me olhou com respeito, com aquele par de olhos verdes transbordando uma compaixão sincera enquanto acabava com qualquer esperança que eu guardava desde os meus doze anos.

​O celular no fundo da mochila começou a vibrar sem parar. Sabia que era a Talita, ansiosa para saber se o plano infalível dela tinha funcionado. Não tive forças para atender. Passei a mão no rosto, sentindo as lágrimas quentes molhando minhas bochechas.

​O que eu não sabia, enquanto chorava abraçada aos travesseiros, era que o tempo cuidaria de fechar essa ferida. Eu não sabia que o ensino médio passaria, que a vida adulta nos levaria para caminhos completamente diferentes e que eu aprenderia a seguir em frente.

​E, principalmente, eu não tinha como adivinhar que, dez anos depois, aquele mesmo garoto voltaria para a minha vida de um jeito que mudaria meu destino para sempre — para me dar a maior felicidade da minha história e, logo em seguida, a dor mais devastadora de todas.

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