LOGINRIO DE JANEIRO — VIDIGAL
18H10Cheguei em casa arrasada. Passei o caminho inteiro chorando e, até aquele momento, ainda não tinha conseguido parar. Meus olhos ardiam, minha cabeça latejava e eu provavelmente já estava me desidratando de tantas lágrimas.
Eu simplesmente não conseguia acreditar no que havia acontecido.
Poucas horas antes, estava dentro de uma sala cirúrgica salvando a vida de um homem. Agora, não tinha mais emprego.
Tentei me recompor quando ouvi algumas batidas na porta. Tinha quase certeza de que era Vanessa, mas não consegui disfarçar o estado em que me encontrava.
Assim que abri, ela me olhou preocupada.
— Ei, que que tá pegando?
Antes que pudesse responder, abracei minha amiga e comecei a chorar ainda mais.
Vanessa passou os braços ao meu redor e acariciou minhas costas.
— Calma, amiga. O que aconteceu?
— Eu fui mandada embora! — consegui dizer entre soluços. — E agora, Vanessa? O que eu faço? Eu já estava planejando minha vida de novo...
Apenas pensar que agora poderia acabar debaixo de uma ponte, sem emprego e com contas para pagar, fez meu choro aumentar.
— Caraca! Calma, Helena. Respira primeiro.
Ela me afastou um pouquinho para olhar meu rosto.
— Jonas me disse que te viu chegar às cinco da tarde chorando. Eu já achei estranho, porque seu plantão só acaba às sete. O que aconteceu?
— Me chamaram na administração e disseram que estavam fazendo cortes de gastos. Meu cargo foi eliminado. Simples assim! Nem sequer me deixaram terminar o plantão.
Vanessa arregalou os olhos.
— Que absurdo! Mas eles ainda têm que pagar seus direitos e tudo mais. E outra coisa: você é uma médica excelente. Não vai demorar para arrumar outro emprego. Vou procurar algumas pessoas que conheço e nós vamos sair dessa, ouviu?
Balancei a cabeça, sem muita convicção.
— Agora para de chorar um pouquinho. Vou até desmarcar com o Rafael hoje. Vou explicar tudo para ele e ficar aqui com você esta noite.
Agradeci com outro abraço. Queria dizer que não precisava, que ela podia ir passar a noite com o namorado, mas a verdade era que eu estava completamente desolada. Não queria ficar sozinha.
Entrei no banheiro e abri o chuveiro na água fria. Fiquei alguns minutos embaixo da água, tentando aliviar a pressão que sentia na cabeça. Quando saí, ainda estava triste, mas pelo menos conseguia respirar sem soluçar a cada instante.
Encontrei Vanessa sentada no sofá, mexendo no celular.
— Olha, vou te falar uma coisa — começou ela, assim que me viu. — Se me colocam para trabalhar naquela caceta de penitenciária o dia inteiro e depois me mandam embora, eu abro as celas dos presos tudinho!
Acabei gargalhando, imaginando a confusão que seria aquele tanto de preso saindo das celas ao mesmo tempo.
— Você é completamente maluca!
— Sou nada! Quero ver terem coragem de me demitir depois de uma dessas.
Balancei a cabeça, ainda sorrindo, e me sentei ao lado dela.
— Mas, pensando por outro lado, hoje não foi totalmente ruim. Salvei a vida de alguém. Aquele homem poderia ter morrido se eu não estivesse lá. Foi um acidente terrível, Vanessa. Chegaram várias vítimas ao mesmo tempo. Só de lembrar já me dá um nó na garganta.
— Eu soube! Disseram que teve até uma criancinha que foi jogada para fora do carro. A batida foi sinistra. O motorista do primeiro carro explodiu, né? Fiquei sabendo que foi horrível.
— Não explodiu nada, sua maluca! — respondi, arregalando os olhos. — O carro ficou completamente destruído. O motorista foi esmagado com o impacto, não deu tempo de frear. Ele ficou irreconhecível. O motorista do caminhão também morreu na hora. Estava sem cinto e foi arremessado.
Vanessa fez uma careta.
— Puta falta de responsabilidade, né? Contra a mão, sem cinto... Os caras estavam querendo ir de base.
— Ei, não fala assim. Ninguém sai de casa querendo morrer.
Ela levantou as mãos em rendição.
— Tá bom, doutora. Não está mais aqui quem falou.
Ficamos alguns segundos em silêncio. A lembrança daquele acidente ainda me incomodava. Eu tinha visto coisas difíceis durante minha carreira, mas nunca me acostumaria completamente a perder pacientes.
Mudei de assunto antes que aquela tristeza voltasse a tomar conta de mim.
— Vou fazer alguma coisa para comer. Quer o quê?
— Pô, faz um brigadeiro pra gente!
Levantei do sofá e segui para a cozinha. Vanessa veio atrás, apoiando-se na bancada.
— Olha, sabe o que eu pensei? A gente podia sair domingo. Lá naquele barzinho que te falei.
Olhei para ela como se tivesse acabado de sugerir uma viagem para a Lua.
— Ah, não! Estou sem cabeça para isso.
— Que sem cabeça o quê, garota? A gente pode beber um pouquinho para você espairecer. Vai que arruma um bofinho para tirar o atraso.
Revirei os olhos.
— Olha as coisas que você pensa, garota!
— A vida está aí para ser vivida, dona Helena! Você acabou de chegar ao Vidigal, precisa conhecer o lugar onde vai morar, se divertir um pouco. Não pode ficar trancada nessa casa chorando por causa daquele hospital.
— Fácil falar. Você não é quem está desempregada.
Vanessa ficou séria por um instante.
— Eu sei que não é fácil, amiga. Mas você não vai ficar assim para sempre. E, enquanto isso, vou fazer o que puder para ajudar.
Peguei o chocolate e comecei a preparar o brigadeiro.
— Vou conversar com algumas pessoas que conheço para ver se aparece uma vaga boa para você. O Rafael também conhece muita gente importante. Tenho certeza de que ele vai conseguir ajudar a gente.
Olhei para ela, esperançosa, mas sem querer criar expectativas.
— Não quero que vocês se incomodem por minha causa.
— Helena, pelo amor de Deus! Você é minha amiga. Se eu não puder te ajudar numa hora dessas, vou ajudar quando?
Sorri de leve.
Talvez eu não tivesse mais um emprego, mas pelo menos não estava sozinha.
Naquela noite, comemos brigadeiro direto da panela, conversamos sobre coisas aleatórias e, por algumas horas, consegui esquecer meus problemas.
Antes de dormir, Vanessa ainda garantiu que falaria com Rafael na manhã seguinte.
Eu não sabia se aquilo daria em alguma coisa, mas resolvi acreditar.
O que eu não imaginava era que uma simples conversa poderia mudar novamente o rumo da minha vida.
E que a pessoa responsável por isso ainda era um completo desconhecido para mim.
Rio de Janeiro — Vidigal, 22h10Eu já tinha ouvido falar dela antes mesmo de conhecer seu rosto.Helena.A amiga de Vanessa, a médica que havia perdido o emprego no San Lorenzo e agora estava procurando uma oportunidade para recomeçar.Quando Rafael me trouxe as primeiras informações, não dei muita importância. Precisávamos de um cirurgião para a clínica, e eu queria alguém competente, discreto e, acima de tudo, confiável.Por isso, mandei pesquisar.E o resultado foi melhor do que esperava.Trinta anos, formação em medicina, especialização em cirurgia e uma trajetória profissional respeitável. Conversei com pessoas que conheciam seu trabalho, procurei referências e analisei seu histórico. Não havia dúvidas sobre sua capacidade. Helena era uma excelente profissional, dedicada e reconhecida pelo próprio trabalho.Também descobri sobre a morte da avó, as dívidas que vieram depois, a perda da casa e, por último, a demissão.A vida não tinha sido generosa com ela nos últimos tempos.Aind
Rio de Janeiro — Vidigal, 21h15VanessaEu ainda ia acabar ficando maluca por causa daquele homem!Olhei para Rafael, que estava sentado ao meu lado, tranquilamente, como se não tivesse acabado de me dar uma das piores notícias da noite.— Você está de brincadeira comigo, né?Ele ergueu uma sobrancelha.— Sobre o quê, mulher?— Sobre eu não poder contar para Helena quem é aquele homem!Rafael soltou um suspiro e tomou um gole da bebida.— Vanessa, já conversamos sobre isso.— Conversamos nada! Você falou, falou, falou e terminou dizendo que eu tenho que ficar de boca fechada. Isso não é conversa, é uma ameaça à minha liberdade de expressão!Ele riu, balançando a cabeça.— Você não consegue passar cinco minutos sem falar?— Consigo. Mas não quero!Olhei discretamente para a mesa onde Helena estava. Minha amiga parecia estar se divertindo, mas eu não era cega. Desde que chegamos, ela já tinha olhado umas dez vezes na direção de Miguel.E como não olharia? O homem era bonito, disso ning
Rio de Janeiro — Vidigal, 20h00— Olha, conversei com algumas pessoas que conheço. Pode ter certeza de que logo, logo esse emprego vai bater à sua porta. Agora, por favor, hoje é sábado e amanhã estarei de folga. Vamos sair! — Vanessa implorou, me olhando com aqueles olhos de cachorrinho abandonado.Segurei o riso.— Tudo bem! Vou me arrumar rapidinho e a gente vai. Você nem precisa, já veio pronta.— ÓBVIO! Se você não fosse, eu iria sozinha. E hoje não vou aguentar chororô, não, hein!Ela gritou da sala, mas nem precisava. Aquela casa era tão pequena que eu conseguia ouvir até quando alguém se sentava no sofá.Segui para o quarto e comecei a escolher uma roupa. Separei uma calça jeans, uma papete e um body com decote em V. Entrei no banheiro e tomei uma ducha rápida, porque, para mim, não existia sair de casa sem tomar banho antes.Aproveitei para fazer uma maquiagem básica, vesti a roupa, passei meu perfume favorito e peguei uma jaqueta, caso esfriasse. Finalizei com um pouco de g
Rio de Janeiro —Vidigal, 10h30— O Jacaré caiu. A polícia está na frente do hospital e do quarto onde ele está. Neste momento, não dá nem para tentar ajudar — terminei de enrolar o cigarro enquanto escutava Rafael falar.Soltei a fumaça lentamente, pensando na situação.Mais um homem nosso nas mãos da polícia. Aquilo estava começando a me tirar do sério.— Precisamos arrumar um médico de confiança para a clínica. De tudo, só falta um cirurgião — comentei, apoiando as costas na cadeira.Antes que Rafael respondesse, escutei três batidas na porta. Logo depois, a maçaneta girou, revelando Vanessa.— E aí, tudo bem? — perguntou, entrando sem cerimônia.— Tudo, minha joia. E a sua amiga lá, melhorou?Eu não sabia exatamente de quem estavam falando, então fiquei quieto. Apenas acenei com a cabeça, cumprimentando-a.— Olha, é justamente sobre isso que vim falar.Vanessa se acomodou na cadeira à frente da minha mesa.— Ela foi demitida do hospital e eu queria saber se você conhece alguém que
RIO DE JANEIRO — VIDIGAL18H10Cheguei em casa arrasada. Passei o caminho inteiro chorando e, até aquele momento, ainda não tinha conseguido parar. Meus olhos ardiam, minha cabeça latejava e eu provavelmente já estava me desidratando de tantas lágrimas.Eu simplesmente não conseguia acreditar no que havia acontecido.Poucas horas antes, estava dentro de uma sala cirúrgica salvando a vida de um homem. Agora, não tinha mais emprego.Tentei me recompor quando ouvi algumas batidas na porta. Tinha quase certeza de que era Vanessa, mas não consegui disfarçar o estado em que me encontrava.Assim que abri, ela me olhou preocupada.— Ei, que que tá pegando?Antes que pudesse responder, abracei minha amiga e comecei a chorar ainda mais.Vanessa passou os braços ao meu redor e acariciou minhas costas.— Calma, amiga. O que aconteceu?— Eu fui mandada embora! — consegui dizer entre soluços. — E agora, Vanessa? O que eu faço? Eu já estava planejando minha vida de novo...Apenas pensar que agora po
RIO DE JANEIROVIDIGAL — 5H00Saí de casa meio perdida, ainda tentando não errar todos aqueles becos até conseguir chegar ao ponto de ônibus. O céu ainda estava escuro, e as ruas começavam a despertar lentamente.Assim que finalmente cheguei à entrada da comunidade, avistei Jonas. Ele estava perto de sua moto e me cumprimentou com um sorriso.— Ué, tá indo pra onde essas horas? Não é meio perigoso andar por aí tão cedo? — perguntou, aproximando-se.— Estou indo trabalhar, Jonas. Não sei que horas o ônibus passa, então resolvi sair mais cedo.— Entendi. Olha, posso te ajudar se precisar. Eu sei o horário de todos os ônibus que passam lá no ponto. Se tivesse perguntado ontem, talvez não precisasse madrugar desse jeito. Mas me diz, trabalha onde? Só pra eu ter uma noção de qual ônibus você vai pegar.— Trabalho no San Lorenzo. Sou médica.Ele arregalou os olhos.— Porra, longe pra caramba! Olha, tu pode sair daqui umas cinco e meia que o ônibus passa às seis. Vai te deixar praticamente n