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last update Veröffentlichungsdatum: 30.10.2026 23:38:41

RIO DE JANEIRO

VIDIGAL — 5H00

Saí de casa meio perdida, ainda tentando não errar todos aqueles becos até conseguir chegar ao ponto de ônibus. O céu ainda estava escuro, e as ruas começavam a despertar lentamente.

Assim que finalmente cheguei à entrada da comunidade, avistei Jonas. Ele estava perto de sua moto e me cumprimentou com um sorriso.

— Ué, tá indo pra onde essas horas? Não é meio perigoso andar por aí tão cedo? — perguntou, aproximando-se.

— Estou indo trabalhar, Jonas. Não sei que horas o ônibus passa, então resolvi sair mais cedo.

— Entendi. Olha, posso te ajudar se precisar. Eu sei o horário de todos os ônibus que passam lá no ponto. Se tivesse perguntado ontem, talvez não precisasse madrugar desse jeito. Mas me diz, trabalha onde? Só pra eu ter uma noção de qual ônibus você vai pegar.

— Trabalho no San Lorenzo. Sou médica.

Ele arregalou os olhos.

— Porra, longe pra caramba! Olha, tu pode sair daqui umas cinco e meia que o ônibus passa às seis. Vai te deixar praticamente na esquina do hospital. Pega o 306, não esquece, hein? Tu tem vidas pra salvar hoje!

Não entendi muito bem o comentário. Afinal, todos os dias tínhamos vidas para salvar. Mas agradeci pela informação e segui até o ponto.

Sentei-me ao lado de outras duas pessoas que também aguardavam o ônibus. O tempo passou devagar e, quando percebi, estava quase cochilando. Felizmente, o ônibus chegou antes que eu apagasse de vez.

Entrei e consegui um lugar para sentar. Na maioria das vezes, tinha essa sorte pela manhã. O problema era a volta, quando o coletivo ficava lotado igual a um formigueiro. Pelo menos a linha que atendia São Conrado era assim.

— Caralho, essa passagem só aumenta — murmurou uma mulher ao meu lado, acomodando a bolsa no colo.

Não continuei o assunto. Permaneci calada durante o restante do trajeto, aproveitando para descansar um pouco.

Desci na esquina do hospital e apressei o passo. Precisava registrar minha entrada e me trocar. Logo na entrada, percebi que havia alguma coisa acontecendo. O movimento estava intenso, com profissionais indo e vindo pelos corredores.

Espero que não tenha sido nada muito grave.

Corri para o vestiário e encontrei Vitor e Elisa. Era para os dois já estarem se preparando para ir embora, mas Vitor segurava uma lata de energético enquanto Elisa conferia algumas informações no celular.

— Que que aconteceu, gente? Não era para vocês estarem indo para casa?

— Até era, doutora — respondeu Vitor. — Mas aconteceu um acidente tenebroso na rodovia. Um carro bateu em um caminhão e os veículos que vinham atrás acabaram se envolvendo também. Chegaram cinco vítimas aqui. Estamos te esperando para assumir uma das cirurgias. Vamos te auxiliar.

Elisa completou:

— Tem um homem na emergência. Conseguiram retirá-lo do carro pouco antes de você chegar. Aproximadamente quarenta anos, inconsciente, ferimentos no rosto e bastante sangramento na região abdominal. Ainda não conseguimos identificar a origem exata da hemorragia.

Terminei de me trocar e segui imediatamente para a emergência.

O paciente estava deitado na maca, cercado pela equipe. Seu rosto apresentava diversos ferimentos, e os sinais no monitor indicavam que seu estado era delicado.

— Preparem a sala de trauma. Quero acesso venoso, exames e avaliação rápida. Precisamos descobrir de onde vem esse sangramento — determinei.

Enquanto a equipe realizava os primeiros procedimentos, examinei o paciente. Havia sinais de trauma abdominal importante, e sua pressão continuava diminuindo.

— Doutora, a pressão está despencando!

Olhei para os monitores e depois para a equipe.

— Precisamos levá-lo para cirurgia. Agora!

Pouco depois, eu já estava paramentada, com a equipe posicionada ao meu redor. O anestesista confirmou que o paciente estava pronto.

— Vamos começar.

A sala ficou concentrada no trabalho. O som dos equipamentos e as orientações da equipe preenchiam o ambiente.

Durante a cirurgia, encontramos uma hemorragia interna significativa. Precisávamos controlar o sangramento rapidamente.

— Sucção. Mais compressas.

A equipe respondeu imediatamente.

— Pressão arterial caindo novamente, doutora — avisou o anestesista.

— Mantenham a reposição. Não podemos perder esse paciente.

Os minutos pareciam se arrastar. Eu sabia que qualquer distração poderia custar uma vida. Mantive os olhos no campo cirúrgico, concentrada em cada movimento.

Depois de um trabalho cuidadoso, conseguimos controlar a hemorragia e estabilizar o quadro.

— Conseguimos, doutora — comentou Vitor, visivelmente aliviado.

Soltei o ar que nem percebia estar prendendo.

— Ainda precisamos acompanhar de perto. Quero que ele seja encaminhado à recuperação e monitorado continuamente.

Quando saí do centro cirúrgico, minhas pernas estavam pesadas e minha testa úmida sob a touca. Mesmo cansada, senti uma satisfação difícil de explicar.

Aquele homem tinha chegado ao hospital entre a vida e a morte. Agora teria uma chance de voltar para casa.

Era por isso que eu havia escolhido aquela profissão.

As horas seguintes foram igualmente movimentadas. Atendi pacientes, revisei exames e acompanhei a evolução de alguns casos. Quando olhei para o relógio, já passava das quinze horas.

Eu estava organizando alguns prontuários quando uma funcionária da administração apareceu à porta.

— Doutora Helena? O diretor gostaria de conversar com a senhora.

Franzi a testa.

— Agora?

— Sim. Ele pediu que fosse imediatamente.

Olhei para o relógio. Ainda faltavam algumas horas para terminar meu plantão.

— Aconteceu alguma coisa?

— Acredito que ele vai explicar.

Agradeci e segui pelo corredor, tentando imaginar o motivo daquela conversa.

Ao entrar na sala, encontrei o diretor sentado atrás da mesa, com alguns documentos organizados à sua frente.

— Doutora Helena, sente-se, por favor.

Sentei-me, ainda tentando entender a situação.

— Aconteceu algum problema com algum paciente?

Ele juntou as mãos sobre a mesa.

— Não. Pelo contrário. Recebemos boas avaliações sobre seu trabalho.

Aquilo não fez sentido.

— Então, qual é o motivo da reunião?

O homem respirou fundo antes de continuar.

— O hospital está passando por uma reestruturação financeira. Estamos reduzindo custos e algumas posições precisarão ser encerradas.

Senti um desconforto surgir no estômago.

— O senhor está falando de cortes na equipe?

Ele assentiu.

— Infelizmente, seu cargo está entre os que serão eliminados.

Por alguns segundos, fiquei olhando para ele, esperando que acrescentasse alguma coisa. Talvez dissesse que havia ocorrido um engano ou que existia outra possibilidade.

Mas ele apenas deslizou um documento sobre a mesa.

— Estamos encerrando seu vínculo com o hospital, doutora. Sinto muito.

Sinto muito.

Duas palavras que não pagariam minhas contas, não cobririam meu aluguel e muito menos devolveriam a segurança que eu estava tentando reconstruir.

Assinei os documentos, peguei minha bolsa e saí daquela sala tentando manter a postura. Não queria dar ao diretor o prazer de me ver desmoronar.

No vestiário, tirei o jaleco e o dobrei cuidadosamente antes de guardá-lo na bolsa. Olhei para ele por alguns segundos.

Poucas horas antes, eu estava dentro de uma sala cirúrgica lutando para salvar uma vida. Agora estava sendo dispensada como se aqueles anos de dedicação pudessem ser resumidos a uma linha em uma planilha de gastos. 

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