LOGINRio de Janeiro —
Vidigal, 10h30
— O Jacaré caiu. A polícia está na frente do hospital e do quarto onde ele está. Neste momento, não dá nem para tentar ajudar — terminei de enrolar o cigarro enquanto escutava Rafael falar.
Soltei a fumaça lentamente, pensando na situação.
Mais um homem nosso nas mãos da polícia. Aquilo estava começando a me tirar do sério.
— Precisamos arrumar um médico de confiança para a clínica. De tudo, só falta um cirurgião — comentei, apoiando as costas na cadeira.
Antes que Rafael respondesse, escutei três batidas na porta. Logo depois, a maçaneta girou, revelando Vanessa.
— E aí, tudo bem? — perguntou, entrando sem cerimônia.
— Tudo, minha joia. E a sua amiga lá, melhorou?
Eu não sabia exatamente de quem estavam falando, então fiquei quieto. Apenas acenei com a cabeça, cumprimentando-a.
— Olha, é justamente sobre isso que vim falar.
Vanessa se acomodou na cadeira à frente da minha mesa.
— Ela foi demitida do hospital e eu queria saber se você conhece alguém que possa ajudar. Você conhece tanta gente que pensei que talvez conseguisse alguma coisa. A coitada está na merda.
Virei o rosto na direção dela, interessado.
— Ela está tão ruim assim?
— Miguel, a mulher acabou de perder o emprego, já teve que sair da casa onde morava e está cheia de contas para pagar. Parece que a vida resolveu testar a paciência dela de todas as formas.
Rafael soltou uma risada baixa, mas Vanessa continuou:
— Ela é discreta e de confiança. Uma excelente profissional, pelo que sei. A Helena é cirurgiã. Então, se souber de alguma oportunidade, me avisa.
Olhei para Rafael por um instante. Ele me encarava como se estivesse tentando transmitir seus pensamentos sem precisar abrir a boca.
Entendi perfeitamente o que queria dizer.
Mas neguei discretamente.
Não seria assim, de uma hora para outra. Precisávamos saber quem era aquela mulher, conhecer seu histórico profissional e entender se estaria disposta a trabalhar em uma clínica como a nossa. Não bastava ser uma boa médica. Precisávamos de alguém em quem pudéssemos confiar.
— Vou ver o que consigo e te aviso, tá?
— Beleza! Vou trabalhar agora, mas mais tarde nos vemos. Tchau, Miguel!
— Vai com Deus, Vanessa.
Assim que ela saiu, Rafael se recostou na cadeira e soltou uma risada.
— Porra, essa menina está na merda mesmo, hein? Despejada, devendo o mundo e agora desempregada. Coitada!
Sorri de lado.
— Vanessa esteve aqui há alguns dias pedindo ajuda para conseguir uma casa. Agora aparece pedindo emprego para a amiga. Pelo visto, resolveu adotar a mulher.
— E você vai ajudar?
Apaguei o cigarro no cinzeiro e me levantei.
— Vou pesquisar primeiro. Quero saber quem é essa Helena, onde trabalhou, se tem alguma reclamação profissional. Não vou colocar qualquer pessoa dentro da clínica.
— Mas, se ela for tudo isso que Vanessa falou, pode ser a solução que estamos procurando.
— É justamente por isso que quero saber mais.
Caminhei até a janela e observei o movimento lá fora. Eu tinha problemas demais para resolver e não podia continuar perdendo homens para a polícia. A situação do Jacaré precisava ser acompanhada de perto, assim como os outros assuntos que estavam pendentes.
— Manda o Miranda resolver a questão do Jacaré, fazendo favor. Depois vou precisar sair para cuidar de alguns investimentos. Aproveita e levanta tudo sobre essa menina.
— Pode deixar.
— E fica de olho na situação do Jacaré. Quero saber para onde vão levá-lo e se ele será encaminhado para a penitenciária onde Vanessa trabalha. Não quero nenhuma surpresa.
Rafael assentiu, pegando o celular.
— E a médica?
Voltei a me sentar e peguei alguns documentos sobre a mesa.
— Primeiro quero saber quem ela é. Depois decidimos.
Ele sorriu de canto.
— Vai que encontramos nossa cirurgiã.
— Tomara. Porque está difícil encontrar alguém competente e, principalmente, discreto.
Rafael se levantou, mas, antes de sair, ainda fez questão de provocar:
— Pelo jeito, a Vanessa vai acabar conseguindo tudo o que quer.
— Se ela continuar aparecendo aqui com problemas, vou começar a cobrar pela consultoria.
Ele riu e fechou a porta.
Fiquei sozinho novamente, mas o nome daquela mulher continuou rondando meus pensamentos.
Helena.
Eu ainda não sabia seu rosto, sua voz ou sequer como se comportava diante de uma situação difícil. Sabia apenas que era médica, cirurgiã e amiga de Vanessa.
Talvez fosse exatamente a pessoa que estávamos procurando.
Peguei o celular e fiz uma ligação.
— Quero um levantamento completo sobre uma mulher. O nome é Helena. Médica, trabalhou no San Lorenzo. Preciso saber sobre sua formação e experiência profissional.
Desliguei e voltei aos documentos.
Eu não costumava tomar decisões precipitadas. Muito menos quando envolviam pessoas que poderiam entrar em um dos ambientes mais delicados da minha vida.
Se aquela mulher fosse realmente tão boa quanto Vanessa dizia, talvez tivesse uma oportunidade.
Só não imaginava que, ao abrir uma porta para Helena, estaria colocando aquela mulher cada vez mais perto de mim.
Rio de Janeiro — Vidigal, 22h10Eu já tinha ouvido falar dela antes mesmo de conhecer seu rosto.Helena.A amiga de Vanessa, a médica que havia perdido o emprego no San Lorenzo e agora estava procurando uma oportunidade para recomeçar.Quando Rafael me trouxe as primeiras informações, não dei muita importância. Precisávamos de um cirurgião para a clínica, e eu queria alguém competente, discreto e, acima de tudo, confiável.Por isso, mandei pesquisar.E o resultado foi melhor do que esperava.Trinta anos, formação em medicina, especialização em cirurgia e uma trajetória profissional respeitável. Conversei com pessoas que conheciam seu trabalho, procurei referências e analisei seu histórico. Não havia dúvidas sobre sua capacidade. Helena era uma excelente profissional, dedicada e reconhecida pelo próprio trabalho.Também descobri sobre a morte da avó, as dívidas que vieram depois, a perda da casa e, por último, a demissão.A vida não tinha sido generosa com ela nos últimos tempos.Aind
Rio de Janeiro — Vidigal, 21h15VanessaEu ainda ia acabar ficando maluca por causa daquele homem!Olhei para Rafael, que estava sentado ao meu lado, tranquilamente, como se não tivesse acabado de me dar uma das piores notícias da noite.— Você está de brincadeira comigo, né?Ele ergueu uma sobrancelha.— Sobre o quê, mulher?— Sobre eu não poder contar para Helena quem é aquele homem!Rafael soltou um suspiro e tomou um gole da bebida.— Vanessa, já conversamos sobre isso.— Conversamos nada! Você falou, falou, falou e terminou dizendo que eu tenho que ficar de boca fechada. Isso não é conversa, é uma ameaça à minha liberdade de expressão!Ele riu, balançando a cabeça.— Você não consegue passar cinco minutos sem falar?— Consigo. Mas não quero!Olhei discretamente para a mesa onde Helena estava. Minha amiga parecia estar se divertindo, mas eu não era cega. Desde que chegamos, ela já tinha olhado umas dez vezes na direção de Miguel.E como não olharia? O homem era bonito, disso ning
Rio de Janeiro — Vidigal, 20h00— Olha, conversei com algumas pessoas que conheço. Pode ter certeza de que logo, logo esse emprego vai bater à sua porta. Agora, por favor, hoje é sábado e amanhã estarei de folga. Vamos sair! — Vanessa implorou, me olhando com aqueles olhos de cachorrinho abandonado.Segurei o riso.— Tudo bem! Vou me arrumar rapidinho e a gente vai. Você nem precisa, já veio pronta.— ÓBVIO! Se você não fosse, eu iria sozinha. E hoje não vou aguentar chororô, não, hein!Ela gritou da sala, mas nem precisava. Aquela casa era tão pequena que eu conseguia ouvir até quando alguém se sentava no sofá.Segui para o quarto e comecei a escolher uma roupa. Separei uma calça jeans, uma papete e um body com decote em V. Entrei no banheiro e tomei uma ducha rápida, porque, para mim, não existia sair de casa sem tomar banho antes.Aproveitei para fazer uma maquiagem básica, vesti a roupa, passei meu perfume favorito e peguei uma jaqueta, caso esfriasse. Finalizei com um pouco de g
Rio de Janeiro —Vidigal, 10h30— O Jacaré caiu. A polícia está na frente do hospital e do quarto onde ele está. Neste momento, não dá nem para tentar ajudar — terminei de enrolar o cigarro enquanto escutava Rafael falar.Soltei a fumaça lentamente, pensando na situação.Mais um homem nosso nas mãos da polícia. Aquilo estava começando a me tirar do sério.— Precisamos arrumar um médico de confiança para a clínica. De tudo, só falta um cirurgião — comentei, apoiando as costas na cadeira.Antes que Rafael respondesse, escutei três batidas na porta. Logo depois, a maçaneta girou, revelando Vanessa.— E aí, tudo bem? — perguntou, entrando sem cerimônia.— Tudo, minha joia. E a sua amiga lá, melhorou?Eu não sabia exatamente de quem estavam falando, então fiquei quieto. Apenas acenei com a cabeça, cumprimentando-a.— Olha, é justamente sobre isso que vim falar.Vanessa se acomodou na cadeira à frente da minha mesa.— Ela foi demitida do hospital e eu queria saber se você conhece alguém que
RIO DE JANEIRO — VIDIGAL18H10Cheguei em casa arrasada. Passei o caminho inteiro chorando e, até aquele momento, ainda não tinha conseguido parar. Meus olhos ardiam, minha cabeça latejava e eu provavelmente já estava me desidratando de tantas lágrimas.Eu simplesmente não conseguia acreditar no que havia acontecido.Poucas horas antes, estava dentro de uma sala cirúrgica salvando a vida de um homem. Agora, não tinha mais emprego.Tentei me recompor quando ouvi algumas batidas na porta. Tinha quase certeza de que era Vanessa, mas não consegui disfarçar o estado em que me encontrava.Assim que abri, ela me olhou preocupada.— Ei, que que tá pegando?Antes que pudesse responder, abracei minha amiga e comecei a chorar ainda mais.Vanessa passou os braços ao meu redor e acariciou minhas costas.— Calma, amiga. O que aconteceu?— Eu fui mandada embora! — consegui dizer entre soluços. — E agora, Vanessa? O que eu faço? Eu já estava planejando minha vida de novo...Apenas pensar que agora po
RIO DE JANEIROVIDIGAL — 5H00Saí de casa meio perdida, ainda tentando não errar todos aqueles becos até conseguir chegar ao ponto de ônibus. O céu ainda estava escuro, e as ruas começavam a despertar lentamente.Assim que finalmente cheguei à entrada da comunidade, avistei Jonas. Ele estava perto de sua moto e me cumprimentou com um sorriso.— Ué, tá indo pra onde essas horas? Não é meio perigoso andar por aí tão cedo? — perguntou, aproximando-se.— Estou indo trabalhar, Jonas. Não sei que horas o ônibus passa, então resolvi sair mais cedo.— Entendi. Olha, posso te ajudar se precisar. Eu sei o horário de todos os ônibus que passam lá no ponto. Se tivesse perguntado ontem, talvez não precisasse madrugar desse jeito. Mas me diz, trabalha onde? Só pra eu ter uma noção de qual ônibus você vai pegar.— Trabalho no San Lorenzo. Sou médica.Ele arregalou os olhos.— Porra, longe pra caramba! Olha, tu pode sair daqui umas cinco e meia que o ônibus passa às seis. Vai te deixar praticamente n