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Capitulo 3

Author: Purplefly
last update publish date: 2026-10-24 18:16:55

POV de Rosemarie

O cheiro forte de antisséptico foi a primeira coisa que me trouxe de volta à realidade. Abri os olhos lentamente, piscando contra as luzes brancas e intensas de um quarto de hospital. O bipe constante de um monitor cardíaco ecoava pelo ambiente silencioso. Eu já não estava deitada na varanda de concreto frio.

Uma jovem vestida com um simples vestido de algodão estava sentada ao lado da minha cama. Quando me viu me mexer, seus olhos se iluminaram de alívio. Era Maya, uma das empregadas de baixo escalão que trabalhavam na cozinha da casa da matilha.

—Oh, Luna, graças a Deus você acordou —sussurrou Maya, inclinando-se para a frente. —Encontrei você caída perto da porta da frente quando saí para jogar o lixo fora. Você não reagia, então entrei em pânico e chamei uma ambulância para levá-la ao hospital da cidade.

Engoli em seco, sentindo a garganta áspera como uma lixa.

—Alguém... mais veio? Rex ou a mãe dele perguntaram por mim?

Maya baixou os olhos para o colo, torcendo o tecido da saia entre os dedos. Ela não precisava responder. Seu silêncio me dizia tudo.

Ninguém se importava comigo. Meu marido, minha sogra, minha cunhada, até mesmo meu próprio filho... todos haviam me deixado caída na varanda como um pedaço de lixo. Se Maya não tivesse me encontrado, eu provavelmente teria morrido ali mesmo, no jardim da frente, e eles só teriam percebido quando o cheiro começasse a incomodá-los.

—Obrigada, Maya —disse baixinho. —Você pode voltar ao trabalho. Não quero que Helen crie problemas para você por minha causa.

Depois que ela saiu, o silêncio do quarto do hospital pesou sobre meu peito. Fiquei olhando para o teto, com lágrimas ardendo nos olhos.

Cinco anos.

Durante cinco longos anos, construí toda a minha vida em torno de Rex.

Lembrei-me das discussões com meus pais quando descobri que Rex era meu companheiro predestinado. Eles me alertaram. Disseram que os Alfas eram impiedosos, que nossas origens eram muito diferentes e que eu acabaria perdendo a mim mesma tentando me encaixar no mundo dele.

Mas eu era jovem, tola e completamente apaixonada. Briguei com eles, fiz as malas e cortei contato com as únicas pessoas que realmente me amavam.

E para quê?

Para ser traída, insultada, expulsa da minha própria casa e substituída pelo primeiro amor dele.

Agora eu estava deitada em uma cama de hospital com um tumor cerebral terminal, uma bomba-relógio dentro do crânio e absolutamente ninguém ao meu lado.

Era trágico. Era tão ridículo que uma risada amarga escapou dos meus lábios antes de se transformar em um soluço.

Eu havia sacrificado minha família, minha saúde e minha dignidade por um homem que não sentia absolutamente nada por mim.

A porta se abriu com um clique, e um médico mais velho entrou enquanto consultava uma prancheta. Ele olhou para mim com uma expressão séria e compassiva.

—Ah, Rosemarie. Você acordou. O Dr. Evans, da clínica da matilha, nos encaminhou seus exames. Sabemos sobre o tumor. Como está a dor na sua cabeça neste momento?

—É uma dor surda —respondi, sentando-me lentamente. —Doutor... tenho uma pergunta. O que aconteceria se alguém na minha condição passasse por uma rejeição de companheiro?

O médico ficou imóvel, os olhos se arregalando ligeiramente. Ele colocou a prancheta no pé da cama.

—Uma rejeição de companheiro? Rosemarie, romper um vínculo predestinado provoca um choque enorme tanto no sistema nervoso do lobisomem quanto no espírito do lobo. A dor física varia de pessoa para pessoa, mas, considerando sua condição atual... seu cérebro já está sob uma pressão enorme por causa do tumor. Se o choque for intenso demais, seu corpo poderá entrar em colapso completo. Existe uma probabilidade muito alta de você não sobreviver.

Olhei pela janela em direção às montanhas distantes.

—Então vou deixar isso nas mãos da Deusa da Lua.

—Rosemarie, isso é extremamente perigoso...

—Se eu morrer durante a cerimônia, então tudo finalmente acabará —interrompi, com a voz fria e distante. —A dor, a traição, a humilhação... tudo terá acabado. Mas, se eu sobreviver? Se a Deusa da Lua permitir que eu passe por isso e continue viva, então terei terminado de vez com aquele canalha. Nunca mais olharei para trás e passarei o tempo que me resta finalmente vivendo para mim mesma.

O médico parecia querer argumentar, mas alguma coisa em meus olhos o impediu.

Peguei meu celular na mesa de cabeceira. Minhas mãos estavam completamente firmes agora. O medo havia desaparecido, substituído por uma determinação fria.

Abri o contato de Rex e digitei uma mensagem curta.

“Concordo com o divórcio. Estarei no seu escritório amanhã de manhã para assinar os documentos e realizar a cerimônia de rejeição.”

Não esperei por uma resposta. Deixei o celular de lado, fechei os olhos e me forcei a dormir. Precisaria de toda a força possível para o dia seguinte.

Na manhã seguinte, o corredor em frente ao escritório do Alfa parecia mais frio do que de costume. Caminhei de cabeça erguida, ignorando os sussurros dos funcionários da matilha que passavam por mim. Eu já não me importava.

Quando empurrei a porta, descobri que Rex não estava sozinho atrás de sua mesa. Tracy também estava ali, encostada em um arquivo de metal como se já fosse dona do lugar.

No instante em que entrei, Tracy soltou uma risadinha de desprezo e cruzou os braços.

—Ora, vejam só quem finalmente resolveu aparecer. Sabe, Rosemarie, você deveria parar de fingir que é tão patética. É constrangedor. Sempre que as coisas não acontecem do seu jeito, você de repente finge estar doente só para chamar a atenção de Rex. Concordar com o divórcio? Ah, por favor. Isso provavelmente é apenas mais uma tentativa desesperada de fazê-lo se sentir culpado.

Algo dentro de mim se rompeu.

Eu não me sentia triste nem magoada, como imaginei que me sentiria. Eu simplesmente sentia... repulsa.

Caminhei diretamente até Tracy antes que ela pudesse reagir. Levantei a mão e lhe dei um tapa no rosto com toda a força que ainda me restava.

Pá!

O som agudo ecoou pelo escritório. A cabeça de Tracy virou bruscamente para o lado, seus óculos escuros voaram e deslizaram pelo chão. Ela cambaleou contra o arquivo, levando a mão à bochecha ardente, completamente chocada.

—Rosemarie! —rugiu Rex, batendo as duas mãos sobre a mesa enquanto se levantava de repente.

Eu nem sequer olhei para ele. Mantive os olhos fixos em Tracy, que me encarava com os olhos arregalados de medo.

—Enquanto esses documentos não estiverem assinados, ainda sou a Luna desta matilha —declarei, com uma voz afiada como uma lâmina. —Você não passa de uma amante, Tracy. Não tem absolutamente nenhum direito de falar comigo dessa maneira, muito menos de questionar minhas atitudes neste escritório. Saiba qual é o seu lugar.

Tracy recuou, completamente intimidada pela autoridade da minha voz. Rex soltou um rosnado profundo que fez as janelas tremerem.

—Tracy, saia. Espere no carro.

Ela não hesitou. Pegou a bolsa e saiu apressadamente do escritório, fechando a porta atrás de si.

Rex lançou-me um olhar furioso, com os olhos escurecidos pela raiva.

—Você perdeu completamente a cabeça. Vamos acabar logo com isso.

Ele empurrou os documentos do divórcio em minha direção, junto com uma pesada caneta prateada.

Aproximei-me, peguei a caneta e virei até a página de assinatura. Sem dizer uma palavra, assinei meu nome e rompi oficialmente meus vínculos legais com a vida dele.

Depois, coloquei a caneta de volta sobre a mesa e fui para o centro do escritório.

A cerimônia de rejeição deveria ser um grande evento público diante dos anciãos da matilha, mas nenhum de nós queria aquele espetáculo. Ficamos frente a frente, na privacidade do escritório dele.

Rex olhou para mim, e sua expressão tornou-se fria e desprovida de emoções. Ele inspirou profundamente e liberou sua aura de Alfa até que o ar se tornasse pesado e sufocante.

—Eu, Alfa Rex, rejeito você, Rosemarie, como minha Luna e companheira.

No instante em que a última palavra saiu de sua boca, uma onda violenta de dor atravessou meu corpo. Foi como se uma mão invisível tivesse entrado em meu peito e arrancado o fio prateado que ligava nossas almas.

Ao mesmo tempo, o tumor reagiu ao estresse repentino. Uma dor incandescente explodiu atrás dos meus olhos com tanta intensidade que minha visão ficou completamente escura por dois segundos inteiros.

Meus joelhos ameaçaram ceder, e cada parte do meu corpo gritava para que eu desabasse no chão.

Mas me recusei a ceder.

Cerrei os punhos com tanta força que minhas unhas penetraram nas palmas das mãos, usando a dor para me manter firme. Travei a mandíbula e obriguei minhas pernas a permanecerem estáveis.

Eu preferia morrer de pé a permitir que ele visse mais um único instante de fraqueza minha.

Afastei a escuridão à força e encarei diretamente os olhos frios dele.

—Aceito sua rejeição, Rex —disse, com a voz embargada.

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