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capítulo 4

Author: Loba azul
last update publish date: 2026-09-06 04:31:38

capítulo 4

Helena passou o caminho inteiro até em casa tentando convencer a si mesma de que estava exagerando. Talvez aquela conversa no prédio tivesse sido apenas uma situação constrangedora causada por pessoas indiscretas. Talvez Camila realmente fosse apenas uma antiga conhecida de Rafael. Talvez o sorriso que ele havia dado para ela não significasse nada. Talvez as histórias que os funcionários conheciam fossem coisas antigas, comentários sem importância que haviam chegado aos ouvidos errados. Havia dezenas de explicações possíveis, e Helena tentou encontrar uma que não transformasse seis anos de casamento em uma pergunta sem resposta. Quando entrou em casa, a primeira coisa que percebeu foi que Rafael já estava ali. O paletó estava sobre o encosto do sofá, a gravata havia sido afrouxada e ele estava de pé diante da janela da sala, olhando para a cidade iluminada. Não parecia surpreso quando ouviu a porta se fechar.

— Você demorou.

Helena deixou a bolsa sobre a mesa lateral.

— Eu poderia dizer o mesmo.

Rafael virou o rosto para ela.

— Fiquei esperando você.

— Por quê?

Ele permaneceu em silêncio por alguns segundos.

— Precisamos conversar sobre o que aconteceu hoje.

Helena quase sorriu.

— Engraçado. Eu também estava pensando nisso.

Rafael caminhou até o bar e serviu um copo de água. Helena observou cada movimento, tentando entender por que ele parecia tão desconfortável.

— Aquilo no prédio não deveria ter acontecido — disse ele.

— O que exatamente não deveria ter acontecido?

— Aquele comentário.

— Qual deles?

Rafael pousou o copo sobre o balcão.

— Helena...

Ela cruzou os braços.

— Quero entender.

— Foi uma brincadeira de mau gosto.

— Não estou falando da brincadeira.

Rafael a encarou.

— Então do que está falando?

Helena respirou profundamente antes de responder.

— Da Camila.

O rosto dele mudou quase imperceptivelmente. Foi apenas uma alteração pequena na expressão, mas Helena conhecia aquele homem havia seis anos. Percebeu.

— O que tem ela?

— Por que você ficou tão preocupado quando eu disse que tinha encontrado com ela?

— Porque eu sabia que isso poderia causar uma situação desnecessária.

— Por quê?

— Porque ela voltou recentemente e ainda existem coisas do passado que não precisam interferir na nossa vida.

Helena ficou em silêncio por alguns segundos, tentando absorver aquela resposta.

— Que coisas?

Rafael desviou o olhar.

— Nada que diga respeito a você.

A frase atingiu Helena de uma maneira diferente daquela que ele provavelmente imaginara. Durante seis anos, ela havia se acostumado a ouvir que certas decisões pertenciam ao mundo profissional de Rafael, que determinados assuntos envolviam apenas os negócios da família Almeida, que algumas pessoas faziam parte de um passado que não tinha importância. Ela nunca havia questionado demais porque acreditava que casamento também significava respeitar o espaço do outro.

Mas aquilo era diferente.

— Você acabou de dizer que existe alguma coisa no seu passado que não diz respeito a mim.

— Não foi isso que eu quis dizer.

— Foi exatamente isso.

— Helena, não transforme uma conversa simples em um problema maior.

Ela soltou uma risada baixa, sem humor.

— Uma conversa simples?

— Sim.

— Então me explique por que Camila conhece coisas sobre mim que eu nunca contei a ela.

Rafael ficou imóvel.

Helena percebeu.

— Eu não sabia que você falava de mim com ela.

— Eu não falo.

— Então como ela sabe?

— Talvez tenha ouvido de alguém.

— E como ela sabe há quanto tempo estamos casados?

Rafael não respondeu imediatamente. Helena sentiu alguma coisa se apertar dentro do peito.

— Seis anos é bastante tempo — disse ela, repetindo as palavras de Camila.

Os olhos de Rafael se fixaram nela.

— O que exatamente ela disse?

Helena percebeu novamente aquela reação. Não era irritação. Era preocupação.

— Por que isso importa tanto?

— Porque eu quero saber o que ela falou.

— Ela disse apenas que seis anos era bastante tempo.

Rafael passou a mão pelo rosto.

— Não significa nada.

— Para você, talvez.

Ela pegou a bolsa novamente.

— Onde você vai?

— Para o quarto.

— Helena.

Ela parou e virou o rosto.

— O quê?

Rafael hesitou. Por um instante, Helena pensou que finalmente ele contaria alguma coisa. Qualquer coisa. Uma explicação, uma lembrança, uma verdade que pudesse colocar todas aquelas peças no lugar. Mas ele apenas respirou fundo antes de responder.

— Não quero que você tire conclusões erradas.

Helena olhou para ele durante alguns segundos.

— Então me dê informações suficientes para que eu não precise tirá-las.

Rafael permaneceu calado.

Ela subiu as escadas sem esperar outra resposta.

No quarto, fechou a porta e ficou alguns segundos encostada nela. Não chorou. A vontade existia, mas alguma coisa dentro dela havia começado a mudar. Até aquele dia, quando Rafael se fechava, Helena tentava se aproximar. Procurava entender. Perguntava. Esperava. Agora, pela primeira vez, sentia vontade de parar de fazer isso.

Foi até o closet e abriu uma das gavetas antigas. Ali estavam algumas fotografias do casamento.

Helena pegou a primeira. Ela e Rafael apareciam sorrindo diante de uma grande igreja, cercados por familiares e amigos. Rafael segurava sua cintura. Helena lembrava daquele momento perfeitamente. Lembrava da felicidade que sentira, da expectativa de começar uma vida ao lado do homem que amava.

Virou a fotografia.

Não havia nada escrito atrás.

Pegou outra.

Depois outra.

Em algumas, Camila aparecia ao fundo.

Helena franziu a testa.

Ela nunca havia percebido aquilo.

Camila estava na cerimônia. Estava na festa. Estava em uma fotografia tirada durante o jantar. Em uma delas, aparecia conversando com Rafael enquanto os convidados dançavam.

Helena aproximou a fotografia do rosto.

Por que nunca havia reparado nela?

Talvez porque, naquela época, Camila não significasse nada.

Ou talvez porque Helena tivesse escolhido não enxergar.

Ela abriu uma caixa onde guardava documentos antigos do casamento. Certidões, contratos, convites, cartões recebidos dos convidados. Tudo estava organizado.

Tudo, menos uma coisa.

Faltava o álbum original das fotografias.

Helena ficou alguns segundos olhando para o espaço vazio na caixa. Tinha certeza de que o álbum estava ali. Lembrava de tê-lo guardado depois da mudança para aquela casa.

Pegou o celular e abriu a galeria de fotos. Começou a procurar imagens antigas. Casamento. Lua de mel. Primeiro aniversário. Eventos da família.

Rafael aparecia em todas.

Mas havia poucas fotografias dos dois sozinhos. Muito menos do que Helena imaginava.

Ela continuou descendo a tela até encontrar uma fotografia que não lembrava de ter visto.

Era uma imagem antiga, aparentemente tirada poucos meses antes do casamento. Rafael estava ao lado de Camila. Os dois estavam em frente a uma casa antiga.

Helena ampliou a fotografia.

No canto inferior, havia uma data.

Ela ficou olhando para os números.

A data era anterior ao casamento por apenas alguns meses.

Nada na fotografia parecia romântico. Mas havia alguma coisa na expressão de Rafael que incomodou Helena. Ele parecia diferente. Mais jovem, menos fechado. E estava olhando para Camila de uma maneira que Helena nunca havia visto nos seis anos em que estiveram juntos.

Helena sentiu o coração acelerar.

Não porque acreditasse que Rafael a tivesse traído.

Ainda não.

O que a incomodava era outra coisa.

Por que aquela fotografia existia?

Por que ela nunca tinha visto aquela casa?

E por que o álbum que deveria conter aquela imagem havia desaparecido?

Ela voltou para a sala pouco depois da meia-noite.

Rafael estava sentado no sofá, com o celular na mão. Ao vê-la, levantou os olhos.

— Você não está dormindo?

Helena segurava a fotografia entre os dedos.

— Onde fica essa casa?

Rafael olhou para a imagem.

— Onde você encontrou isso?

Helena apertou a fotografia.

— No meu celular.

Rafael se levantou e caminhou na direção dela.

— Helena, me dê isso.

Ela recuou um passo.

— Por quê?

— Porque essa fotografia não deveria estar com você.

O silêncio que veio depois pareceu ocupar toda a sala.

Helena olhou novamente para a imagem. Então voltou os olhos para o marido.

— Por que não?

Rafael não respondeu.

E foi naquele instante que Helena entendeu que Camila talvez não fosse o verdadeiro problema.

O problema era que Rafael estava escondendo uma parte da própria história.

E, pela primeira vez em seis anos, Helena não teve vontade de perguntar até conseguir uma resposta.

Ela teve vontade de descobrir sozinha.

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