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capítulo 3

Author: Loba azul
last update publish date: 2026-09-06 03:38:01

capítulo 3

Helena percebeu que alguma coisa havia mudado naquela manhã, embora não conseguisse apontar exatamente o quê. Talvez fosse a maneira como Rafael havia reagido ao ouvir o nome de Camila na noite anterior, ou talvez fosse o desconforto que permanecera dentro dela depois daquela conversa. Durante seis anos, Helena aprendera a interpretar os silêncios do marido com uma precisão que ninguém imaginaria possível. Sabia quando ele estava irritado pelo modo como colocava as chaves sobre a mesa, quando estava preocupado pela maneira como passava os dedos pela gravata e quando queria encerrar uma conversa simplesmente porque começava a olhar para o celular. O que ela ainda não sabia era reconhecer aquele homem que parecia existir quando Camila estava por perto.

Naquela manhã, Rafael não apareceu para o café.

Helena ficou sentada à mesa por alguns minutos, olhando para a cadeira vazia diante dela enquanto mexia distraidamente no café que já havia esfriado. Não era novidade que o marido não tomasse café da manhã com ela. Durante boa parte do casamento, os dois haviam criado rotinas separadas dentro da mesma casa, como se fossem hóspedes de uma residência luxuosa demais para admitir que existia solidão em seus cômodos. Ainda assim, depois da conversa da noite anterior, a ausência dele parecia ter outro peso.

O celular vibrou sobre a mesa.

Era uma mensagem de Júlia.

“Você está bem?”

Helena sorriu sem vontade antes de responder.

“Estou.”

A resposta veio quase imediatamente.

“Você mente muito mal.”

Helena deixou escapar uma risada baixa, mas não respondeu. Júlia era uma das poucas pessoas que conseguia perceber quando ela estava escondendo alguma coisa, talvez porque fosse sua amiga desde antes de Rafael existir em sua vida. Ela conhecia Helena antes do sobrenome Almeida fazer parte de seus documentos, antes das festas sofisticadas, dos jantares empresariais e das fotografias em revistas nas quais apareciam ao lado de Rafael sorrindo como um casal perfeitamente feliz.

Helena terminou o café, subiu para o quarto e começou a se arrumar para uma reunião da empresa de decoração que havia construído praticamente sozinha. Não precisava do dinheiro de Rafael, embora muitas pessoas acreditassem que aquele negócio só existia porque carregava o sobrenome do marido por trás. Essa era uma das coisas que mais a incomodavam. Helena trabalhara durante anos para construir algo que fosse somente seu, mas quanto mais crescia, mais percebia que o mundo insistia em enxergá-la primeiro como esposa de Rafael Almeida.

Naquela tarde, ela tinha uma reunião importante com um cliente que poderia representar uma expansão significativa para sua empresa. Escolheu um vestido azul-marinho discreto, prendeu parte dos cabelos e pegou a bolsa antes de descer.

Quando chegou à garagem, encontrou Rafael ao lado do carro.

Ele parecia estar esperando por ela.

Helena diminuiu o passo.

— Você vai sair?

Rafael olhou para ela e, por alguns segundos, pareceu esquecer a pergunta que pretendia fazer.

— Tenho uma reunião no centro.

— Eu também.

Ele assentiu.

— Posso levar você.

Helena quase recusou por instinto, mas acabou entrando no carro. Durante o trajeto, os dois permaneceram em silêncio. Não era um silêncio novo, mas havia alguma coisa diferente nele. Helena sentia que Rafael queria dizer alguma coisa e, ao mesmo tempo, parecia estar escolhendo cuidadosamente o que poderia ou não revelar.

Quando chegaram ao prédio onde aconteceria a reunião, Helena percebeu que Rafael também havia marcado um encontro no mesmo edifício.

— Coincidência? — perguntou.

— Provavelmente.

Ela não respondeu.

A reunião de Helena durou pouco mais de uma hora. Quando saiu da sala, encontrou algumas pessoas reunidas no saguão do andar térreo. Entre elas estavam dois empresários que conhecia de eventos anteriores e algumas mulheres que trabalhavam com Rafael.

Foi então que ouviu uma voz atrás dela.

— Helena.

Ela se virou.

Camila estava parada a poucos metros, elegante em um vestido claro e com uma expressão tranquila demais para alguém que acabara de entrar novamente na vida de uma pessoa depois de tantos anos.

Helena não esperava encontrá-la ali.

— Camila.

— Não sabia que você estaria aqui.

— Eu poderia dizer o mesmo.

Camila sorriu.

— Rafael me pediu para acompanhá-lo em uma reunião.

Helena sentiu uma pequena contração no estômago.

Não era ciúme. Pelo menos foi isso que tentou dizer a si mesma.

Era apenas estranho.

Rafael nunca havia pedido que ela o acompanhasse a uma reunião. Na verdade, durante seis anos, raramente demonstrara interesse em dividir com ela qualquer parte de sua rotina profissional.

Antes que pudesse responder, Rafael apareceu no final do corredor.

Ele olhou primeiro para Camila.

E sorriu.

Foi um sorriso pequeno, espontâneo, diferente daquele que costumava oferecer a Helena quando alguém estava observando.

Helena ficou imóvel por um instante.

Camila caminhou até Rafael e disse alguma coisa em voz baixa. Ele respondeu da mesma maneira. Os dois pareciam tão à vontade um com o outro que Helena teve a sensação incômoda de estar observando uma cena que já havia acontecido muitas vezes antes.

Então uma das mulheres que estava perto deles se aproximou.

— Finalmente conheci você.

Helena franziu levemente a testa.

— Eu?

A mulher sorriu.

— A esposa do Rafael.

— Sim.

— Camila já tinha falado muito sobre você.

O sorriso de Helena desapareceu lentamente.

— Sobre mim?

A mulher percebeu o próprio erro tarde demais.

— Sim... quer dizer...

Camila interveio com naturalidade.

— Ela está falando demais hoje.

A mulher riu sem graça.

— Eu só quis dizer que conhecemos você pelas histórias do Rafael.

Helena olhou para Camila.

— Que histórias?

O ambiente pareceu ficar mais silencioso.

Camila manteve a expressão tranquila.

— Nada demais.

Rafael se aproximou.

— Helena, precisamos ir.

Ela virou o rosto para ele.

— Precisamos?

— Tenho outro compromisso.

— Eu não sabia.

Rafael a encarou por alguns segundos.

— Eu te explico no carro.

Helena não respondeu.

Naquele momento, percebeu que algumas pessoas estavam olhando para os três. E foi justamente quando uma voz masculina surgiu atrás deles.

— Rafael, você não vai apresentar a Camila corretamente?

Um dos empresários riu.

— Acho que todo mundo aqui já conhece a Camila.

O homem olhou para Helena, depois para Rafael.

— Menos ela.

Algumas pessoas riram.

Não foi uma gargalhada aberta, mas foi suficiente.

Helena sentiu o rosto aquecer.

Rafael imediatamente lançou um olhar duro para o homem.

— Cuidado.

O sorriso dele desapareceu.

— Foi só uma brincadeira.

Helena segurou a bolsa com mais força.

Ela queria ir embora.

Não porque estivesse com ciúmes de Camila, mas porque, pela primeira vez, compreendeu que havia uma história acontecendo ao redor dela na qual todos pareciam conhecer o roteiro, menos ela.

Rafael colocou a mão nas costas de Helena.

O gesto deveria ter sido reconfortante.

Não foi.

Ela se afastou discretamente.

— Vou para casa sozinha.

— Helena.

— Tenho algumas coisas para resolver.

— Eu levo você.

— Não precisa.

Ela saiu antes que ele pudesse insistir.

No elevador, sozinha, Helena finalmente permitiu que a expressão mudasse.

Não chorou.

Não naquele momento.

Ficou apenas olhando para os números que diminuíam no painel enquanto tentava organizar tudo o que havia acontecido.

Camila sabia coisas sobre ela.

Os funcionários de Rafael conheciam histórias que Helena desconhecia.

Rafael parecia diferente quando estava perto daquela mulher.

E, pior do que tudo, ninguém parecia achar aquilo estranho.

Quando chegou ao estacionamento, Helena entrou no próprio carro e permaneceu alguns minutos sem ligar o motor.

Pegou o celular.

Abriu a conversa com Rafael.

Escreveu:

“Quem é Camila para você?”

Ficou olhando para a frase.

Depois apagou.

Escreveu novamente:

“Por que todo mundo parece saber mais sobre o nosso casamento do que eu?”

Apagou outra vez.

Por fim, guardou o celular.

Talvez o problema não fosse Camila.

Talvez o problema fosse Rafael.

E talvez, durante seis anos, Helena tivesse feito a pergunta errada.

Ela sempre quis saber por que o marido não conseguia amá-la.

Agora começava a suspeitar que deveria perguntar outra coisa.

O que exatamente ele estava escondendo dela?

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