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capítulo 5

Author: Loba azul
last update publish date: 2026-09-10 08:08:16

Capítulo 5 — O primeiro passo

— Eu ainda não posso.

Helena ficou olhando para o homem que dividia a mesma cama que ela havia seis anos e sentiu a decepção atravessar o peito de um jeito diferente. Antes, teria insistido. Teria perguntado por que, chorado, tentado arrancar uma explicação.

Dessa vez, não.

O envelope continuava sobre o criado-mudo, exatamente onde ela o deixou na noite anterior. Dentro dele, a fotografia de Rafael e Camila na frente daquela casa de tijolos com porta azul. A imagem que ele dissera que não deveria estar com ela. A imagem que ele se recusava a explicar.

E, pela primeira vez em seis anos, Helena não pretendia esperar que ele decidisse quando era o momento certo de contar a verdade.

Ela se levantou antes do despertador, tomou banho, escolheu uma roupa elegante mas confortável, prendeu os cabelos e desceu para a cozinha. A casa estava silenciosa. Rafael ainda não havia aparecido.

Preparou o próprio café e abriu o computador sobre a mesa. Mensagens de clientes, propostas pendentes, um projeto para revisar. Durante quase uma hora mergulhou no trabalho e só depois percebeu: era a primeira vez em muito tempo que conseguia passar tanto tempo sem pensar no marido. Não era porque havia deixado de se importar. Era porque alguma coisa dentro dela começava, finalmente, a exigir espaço.

Quando Rafael entrou na cozinha, Helena estava fechando uma planilha.

— Você acordou cedo.

Ela levantou os olhos.

— Tenho uma reunião.

Rafael pegou uma xícara e permaneceu próximo à bancada.

— Hoje?

— Hoje.

Ele a observou por alguns segundos.

— Você não me falou.

Helena voltou a atenção para o computador.

— Eu não sabia que precisava avisar.

A resposta fez Rafael parar. Não havia agressividade na voz dela. Talvez fosse justamente isso que o tivesse incomodado.

— Não foi isso que eu quis dizer.

— Eu sei.

Helena fechou o computador e guardou alguns documentos na bolsa. Rafael continuou parado.

— Sobre ontem...

Ela ergueu os olhos.

— O que tem ontem?

— Aquela fotografia.

Helena sentiu o corpo ficar tenso, mas não demonstrou.

— O que tem ela?

— Eu não queria que você encontrasse.

— Eu percebi.

Rafael desviou o olhar.

— Helena, existem coisas que são complicadas.

— Então me explique.

Ele ficou em silêncio. Ela esperou.

— Eu ainda não posso.

Helena sentiu a pontada, mas dessa vez não tentou convencê-lo.

— Tudo bem.

Rafael pareceu surpreso.

— Tudo bem?

— Sim.

Ela colocou a bolsa no ombro.

— Se você não pode me contar, eu não posso obrigar

— Você está com raiva?

— Não.

— Então o que está sentindo?

Ela encarou o homem que havia sido seu marido durante seis anos.

— Estou cansada de tentar entender sozinha coisas que deveriam ser conversadas entre duas pessoas casadas.

Rafael não respondeu. Helena passou por ele e saiu da cozinha.

No carro, antes de ligar o motor, permaneceu alguns minutos olhando para a própria imagem refletida no espelho retrovisor. Havia alguma coisa diferente em seu rosto. Não era física. Era a decisão de parar de esperar.

Ligou para Júlia.

— Você está ocupada?

— Depende. Por quê?

— Preciso conversar sobre a empresa.

— Aconteceu alguma coisa?

— Não exatamente. Eu quero começar a olhar para algumas coisas que deixei de lado.

Júlia ficou em silêncio por um momento.

— Você está falando da empresa?

— Também.

— E do Rafael?

Helena respirou fundo.

— Principalmente de mim.

— Quando quiser conversar, estou aqui.

— Eu sei.

A reunião daquela manhã foi mais difícil do que Helena esperava. Um cliente antigo decidiu reduzir o orçamento e manter todas as exigências. Durante alguns minutos ela ouviu em silêncio. Antes, teria aceitado para não decepcionar.

Dessa vez, não.

— Nesse orçamento, não consigo entregar o que vocês estão pedindo com a qualidade que o projeto exige.

O cliente pareceu surpreso.

— Não existe uma forma de ajustar?

— Existe. Podemos reduzir algumas etapas ou aumentar o investimento.

— Você não pode simplesmente dar um jeito?

Helena sustentou o olhar dele.

— Posso dar um jeito em muita coisa. Mas não vou prometer algo que não consigo entregar.

No final, o cliente aceitou rever o orçamento. Quando saiu da sala, Helena percebeu que estava sorrindo. Era uma vitória pequena. Mas era dela.

No caminho de volta para o escritório, abriu o aplicativo do banco. Durante anos Rafael havia se oferecido para resolver qualquer imprevisto. Ela nunca dependeu completamente dele, mas se acostumou com a facilidade. Agora, abriu os investimentos da própria empresa e analisou os números. Descobriu que estava em uma posição muito melhor do que imaginava. Não era uma fortuna. Era o suficiente para tomar decisões que havia adiado por anos.

Fechou o aplicativo. Não tomou nenhuma decisão ainda. Mas pela primeira vez enxergou a própria vida como algo que poderia existir independentemente do casamento.

À noite, quando chegou em casa, encontrou Rafael na sala. Ele levantou os olhos assim que ela entrou.

— Você demorou.

Helena deixou a bolsa sobre o sofá.

— Tive uma reunião.

— Correu bem?

— Sim.

Rafael observou o rosto dela.

— Você está feliz.

— Meu trabalho deu certo hoje.

— Fico feliz por você.

Era estranho ouvir aquilo. Rafael raramente perguntava sobre seu trabalho.

— Obrigada.

Ela começou a subir as escadas.

— Helena.

Ela parou.

— Sim?

— Você vai jantar?

— Ainda não sei.

Rafael hesitou.

— Eu posso esperar.

Ela virou o rosto.

— Não precisa.

— Eu quero.

Aquelas três palavras fizeram Helena ficar imóvel. Durante seis anos Rafael havia sido educado, correto e distante. Nunca cruel. Mas também nunca pareceu precisar dela.

— Por quê?

— Porque hoje eu quero jantar com você.

Ela assentiu.

— Está bem.

O jantar foi diferente. A conversa começou leve, quase cautelosa, como se testasse um território novo. Rafael perguntou sobre o projeto, sobre os clientes, sobre o que ela queria fazer a seguir. Helena falou sobre querer experimentar novos projetos sem depender dele.

Rafael não tentou impedi-la. Não ofereceu dinheiro. Não ofereceu contatos.

— Eu percebo você mais do que imagina.

Helena estranhou, porque passou anos se sentindo invisível.

— Você está diferente, mais presente.

Ele ficou em silêncio por um momento.

— Talvez eu esteja percebendo algumas coisas tarde demais.

Depois do jantar, Helena voltou ao quarto. A casa voltou a ficar silenciosa, mas era um silêncio diferente. Olhou novamente para o envelope sobre o criado-mudo. A fotografia ainda estava lá. Rafael e Camila, meses antes do seu casamento, na frente daquela casa que ela não conhecia.

Pela primeira vez não sentiu apenas dor ao olhar. Sentiu determinação. Não ia mais esperar.

Foi quando o celular dela vibrou em cima da cama. Número desconhecido. Sem texto. Apenas uma imagem.

Helena abriu.

Era a mesma casa de tijolos da fotografia. Só que tirada hoje. Com uma placa de VENDE-SE na frente. E estacionado na calçada, o carro de Camila Duarte.

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