LOGINA batida da música fazia meu corpo vibrar antes mesmo de entrar no salão da fraternidade. Benjamin estava ao meu lado, quente, firme, a mão dele na minha cintura como se quisesse me lembrar de que eu era dele, ou talvez para mostrar aos outros. O cheiro dele se misturava ao perfume doce que eu tinha passado de propósito, só para provocar.
Mas então eu a vi. Ela.
A mesma garota que se afastou completamente do grupo do dia para a noite após transar com Ben dentro do carro. O mesmo cabelo loiro preso de qualquer jeito, o mesmo sorriso que, meses atrás, tinha me roubado o ar enquanto a via gozar. E ali estava ela, rindo como se o mundo fosse um lugar seguro para esse tipo de gente, encarando Benjamin sem vergonha alguma na cara.Meu sangue esquentou tão rápido que quase fiquei tonta. Benjamin continuava dançando, despreocupado, o corpo dele se movendo perto do meu. Talvez ele não tivesse notado… ou talvez tivesse, e apenas disfarçava.
Sem pensar, agarrei a gola da camisa dele e o puxei para mim. Nossos lábios se encontraram com força, não com carinho. Era raiva. Era território marcado. Era um beijo para doer, nele e nela. Senti o corpo dele enrijecer, as mãos subindo para me segurar. O gosto de cerveja, de música alta, de tudo que eu não conseguia dizer.
Quando abri os olhos, percebi que todo mundo estava nos olhando. Inclusive ela.
— O que foi isso? — Benjamin rosnou, a voz rouca no meu ouvido, quase engolida pela batida da música.
Antes que eu respondesse, ele prendeu minha mão e me puxou pelo salão, passando por gente suada, copos no chão, luzes piscando. Subimos as escadas rapidamente com ele praticamente me arrastando.O quarto que entramos estava escuro, só uma luz fraca da rua entrava pela janela. A porta bateu atrás de nós e, de repente, o som da festa virou um eco distante. Ele me encarou, o peito subindo e descendo.
— Você perdeu a porra da cabeça? — disse, se aproximando.
— Você não é ninguém pra falar de cabeça, Benjamin. — ri com desgosto — Você costuma pensar com a cabeça debaixo... — Não começa… — ele rosnou. — Não começa você. Ou quer que eu finja que não vi? Que ela não estava ali te comendo com os olhos? — falei, sentindo o coração bater tão forte que quase doía.Ele não respondeu. Só ficou me olhando, a mandíbula apertada. E por um instante, no meio da raiva, eu quis beijá-lo de novo.
Ele deu um passo à frente e, por reflexo, eu recuei até sentir as costas tocarem a parede fria.
— Mi-Suk… — disse meu nome baixo, quase um aviso, quase uma súplica. — O quê? Vai dizer que não foi nada? — minha voz saiu trêmula, mas não de medo — Vai dizer de novo que ela não passou de um erro?Ele encostou uma das mãos na parede, ao lado da minha cabeça. A proximidade me fez prender a respiração. O calor do corpo dele, o cheiro familiar que me tirava o chão… era injusto sentir isso no meio de uma briga.
— Eu errei — ele disse, finalmente. — Mas você também. Lá embaixo… você queria apenas me marcar como um gado. Eu não sou um objeto, e saber disso... machuca.
— E você conseguiu me machucar primeiro, lembra? — respondi, sem desviar os olhos.O silêncio entre nós ficou denso, quase palpável. A raiva que queimava no meu peito começou a se misturar com outra coisa, mais perigosa. Ele estava perto demais. Meu coração batia rápido demais.
— Você me deixa louco — Benjamin disse, a voz grave, quase rosnando.
— Ótimo. Assim estamos empatados.Por um segundo, achei que ele fosse recuar. Mas ele não recuou. Ao invés disso, seu rosto se aproximou, e eu senti a respiração dele roçar a minha boca. A tensão era tão forte que parecia que o quarto encolhia. Eu podia sentir a vontade dele, e sabia que ele sentia a minha também.
— A gente não devia… — murmurei, mas não tinha força na voz.
— Então me manda parar — ele respondeu.Eu não mandei.
Ele sabia.
Eu via nos olhos dele.Benjamin sabia exatamente o que estava fazendo, cada movimento calculado para me prender ali, entre o corpo dele e a parede, sem me dar chance de respirar.
— Você tá brava comigo — ele disse, quase sorrindo. — Mas não consegue me olhar e não querer me beijar.
O atrevimento dele me fez morder o lábio, mais para esconder a reação do que por qualquer outra coisa. — Para de falar como se soubesse de tudo. — Eu sei o suficiente — ele respondeu, inclinando-se mais, a mão deslizando da parede para minha cintura. Os dedos dele pressionaram de leve, e foi como se meu corpo traísse minha cabeça.Eu queria dizer que ele estava errado, que não tinha poder nenhum sobre mim. Mas meu corpo… meu corpo estava mentindo na minha cara.
— Lembra como você me beijou lá embaixo? — ele continuou, a voz baixa, grave, como se fosse um segredo só nosso. — Foi com raiva… mas também foi com fome.
Fechei os olhos, tentando não ceder. — Benjamin… — É. Fala meu nome assim. — Ele se aproximou até nossas testas se tocarem. — Não tenta lutar comigo, Mi-Suk. Você nunca ganha.Era verdade. Eu odiava admitir, mas era verdade. Ele me bagunçava. Pegava minha raiva, minha mágoa, e transformava tudo em outra coisa. Algo quente. Algo que me queimava por dentro e me deixava fraca.
— Você me manipula — falei, a voz falhando.
— Eu só te lembro do que você quer — ele sussurrou, e seus lábios roçaram os meus sem encostar de verdade, só o bastante para me fazer prender a respiração. — E do que eu quero também.O pior é que ele tinha razão.
O espaço entre nós desapareceu. Eu podia sentir o coração dele batendo rápido contra o meu peito, a respiração quente e irregular, como se ele estivesse tão perto de perder o controle quanto eu.
A mão de Benjamin subiu devagar pela lateral do meu corpo, deixando um rastro de calor por onde passava. Eu devia ter empurrado. Devia ter dito não. Mas minhas mãos, traiçoeiras, já seguravam a camisa dele, puxando-o mais para perto.
— Vê? — ele murmurou, a voz tão baixa que quase se perdeu no ar. — Você quer. Mesmo quando jura que me odeia, você quer.
— Cala a boca — falei, mas soou mais como um pedido do que uma ordem.Ele sorriu de canto, aquele sorriso que sempre significava problema. Seu nariz roçou o meu, e por um segundo ele parou, só me olhando, como se estivesse decidindo o quanto iria me torturar antes de me dar o que eu queria.
A música da festa, lá embaixo, parecia outra vida. Aqui, havia só o calor, o cheiro dele, a maneira como o corpo dele parecia envolver o meu sem nem precisar de força.
— Me pede — ele disse, a boca tão perto que eu quase sentia o gosto das palavras.
— Não… — sussurrei, mas minha voz já estava fraca. — Então eu vou fazer você pedir.Os dedos dele apertaram minha cintura, e ele me prendeu de vez contra a parede. O olhar dele cravou no meu, intenso, como se estivesse me lendo por dentro. Eu senti meu corpo ceder, minha respiração falhar, e naquele instante entendi que a briga tinha acabado, ele tinha vencido.
E eu odiava o quanto eu queria perder.
[][] Epílogo – 10 anos depois [][]Dez anos após aquela noite em que Leonie acordou chamando por nós, Corippo ainda permanece o nosso lar, um refúgio de pedra e paz onde as cicatrizes do passado se transformaram em memórias distantes, suavizadas pelo tempo e pelo amor.Leonie está com 17 anos agora, uma adolescente vibrante, com os cabelos escuros caindo pelos ombros e o mesmo espírito arteiro que encantava a casa quando ela era pequena. Ela herdou a teimosia de Min-ho e minha paixão por criar, mas em vez de tortas, ela pinta; Telas cheias de cores vivas que capturam os Alpes, o rio Verzasca e as histórias que inventava sobre fadas e dragões. Sua risada ainda ecoa pelas ruas de paralelepípedos, e ela agora ajuda na padaria de dona Claire, que, apesar dos cabelos ainda mais brancos, continua nos mimando com donuts açucarados.Nosso segundo filho, Elias, chegou dois anos após aquela noite selvagem com Min-ho. O parto foi tranquilo, ao contrário do que temíamos, e ele nasceu forte, com o
O tempo voou como um foguete. Leonie, agora com sete anos, era uma força da natureza; uma menina de cabelos escuros e cheios como os meus, olhos profundos como os de Min-ho, e uma língua afiada que nos fazia rir e suspirar. Ela falava sem parar, contando histórias inventadas sobre fadas nas florestas de castanheiros ou perguntando por que o rio Verzasca brilhava como esmeralda.Sua energia era incansável, mas cada risada dela, cada abraço apertado, era um lembrete de que a vida nos dera uma segunda chance.Naquela tarde de primavera, o sol aquecia o quintal da nossa casa de pedra, as flores silvestres explodindo em cores vibrantes ao redor, e o ar cheirava a maçãs frescas e terra úmida. Estávamos na cozinha, as janelas abertas deixando entrar a brisa, enquanto preparávamos tortas de maçã para a padaria de dona Claire. A mesa de madeira estava coberta de farinha, tigelas de maçãs fatiadas e uma bagunça de utensílios que Leonie insistia em "ajudar" a usar. Ela estava empoleirada num ban
Dois anos se passaram desde o nascimento de Leonie, nossa pequena leoa, e cada dia com ela tem sido uma mistura de caos delicioso e amor infinito que eu nunca imaginei merecer depois de tudo que vivi.O parto foi uma batalha; pélvico, doloroso, com ela virada ao contrário como se desafiasse o mundo desde o útero.Lutou bravamente para vir ao mundo, gritando como uma guerreira, e nós a batizamos Leonie, valente como uma leoa, um nome que ecoava sua força e a nossa esperança renovada.Ser mãe dela é como navegar um rio selvagem: ela é arteira, curiosa até o perigo, com olhos escuros como os de Min-ho e um sorriso que derrete o meu coração.Aos dois anos, ela já escala os móveis da nossa casa de pedra como se fossem montanhas, rouba frutas do cesto antes do jantar, e ri com uma gargalhada gutural que enche o ar de alegria. Tem sido exaustivo: noites sem dormir quando ela chora por monstros imaginários, tardes correndo atrás dela pelo quintal para impedir que coma terra ou persiga os gato
Sete anos se passaram desde que nos instalamos em Corippo, e a vida, de alguma forma, encontrou um ritmo que eu nunca imaginei possível após o inferno que deixamos para trás.O vilarejo, com suas casas de pedra e ruas sinuosas, tornou-se mais do que um refúgio, era um lar.Eu me reinventei aqui, transformando a dor em algo doce, literalmente. Tornei-me confeiteira, especializada em tortas de maçã feitas com as frutas crocantes dos pomares locais, a massa amanteigada e o recheio quente perfumando nossa casa de pedra. Minhas tortas eram vendidas nas poucas padarias da região, entregues em cestas de vime que eu carregava pelas trilhas íngremes até Locarno ou Ascona.O luto pelo meu filho nunca me deixou, mas aprendi a carregá-lo como uma cicatriz, não uma ferida aberta. A meditação diária, o apoio de Min-ho e a simplicidade da vida em Corippo me ensinaram a perdoar; não os outros, mas a mim mesma.Agora, aos seis meses de gravidez, eu sentia uma nova vida crescendo dentro de mim. Era uma
[][][] Quatro anos depois [][][]Quatro anos se passaram desde aquela noite de fogo e sangue no galpão, uma eternidade que parecia ao mesmo tempo um piscar de olhos e uma vida inteira.Fugimos do México para a Ásia, de lá para a África e depois Europa, sempre trocando de identidades como peles de cobra, até nos instalarmos em Corippo, um vilarejo rústico e esquecido no cantão do Ticino, na Suíça. Aqui, o mundo moderno mal nos tocava: sem internet para nos conectar ao passado, com apenas uma TV por satélite que sintonizava canais antigos, pilhas de livros empoeirados que Min-ho trazia de viagens esporádicas a Locarno, e frutas e vegetais frescos colhidos dos pequenos pomares ao redor; maçãs crocantes, peras suculentas, e tomates vermelhos como sangue seco.A vizinhança era quase nula, com menos de uma dúzia de habitantes no vilarejo inteiro, a maioria idosos que mal saíam de suas casas de pedra, trocando olhares desconfiados mas respeitosos com os "estrangeiros" que éramos. Nossa casa
Meu coração batia descompassado, o luto e o horror do que havíamos feito pesando no peito como uma pedra. O martelo não estava mais na minha mão, mas o peso do sangue ainda grudava na minha pele, o cheiro de gasolina e carne queimada impregnado nas minhas narinas.Eu era a vilã dessa história agora.Mas pelo meu filho, pelo vazio que ele deixou, eu faria de novo.Min-ho dirigiu por um longo tempo enquanto falava ao telefone; o fone em seu ouvido me impedia de ouvir o que estava sendo combinado, mas suas falas eram curtas e secas com a pessoa do outro lado da ligação. Suas mãos estavam firmes no volante, os olhos fixos na estrada, mas ele me olhava de relance, como se tentasse avaliar se eu ainda estava inteira.— Já está tudo arranjado — disse ele após apertar um botão no painel do carro, a voz rouca demonstrando o seu cansaço. — Um dos meus contatos conseguiu um navio de carga saindo do porto em meia hora. Vamos para o México, e de lá traçamos o resto do caminho. Ninguém vai nos acha







