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O Peso do Arrependimento
O Peso do Arrependimento
Author: Fernanda Passos

Capítulo 1

Author: Fernanda Passos
O salão funerário estava tão frio que parecia não haver qualquer vestígio de calor. A música fúnebre se repetia incessantemente. A cera das velas derretia silenciosamente no castiçal de bronze.

Elena permanecia ajoelhada diante do retrato de seu pai. Seus joelhos já haviam perdido toda a sensibilidade. Suas unhas estavam cravadas na palma da mão com tanta força que parecia que, se relaxasse um instante sequer, desmoronaria por completo.

Ao lado, algumas pessoas cochichavam em voz baixa.

— Onde está o Sr. Caio? Por que ele ainda não chegou?

— Você não soube? Ele foi ao aeroporto buscar alguém. Até saiu nas notícias.

— Buscar alguém? Quem pode ser tão importante a ponto de fazê-lo faltar ao funeral do próprio sogro?

— Ouvi dizer que ele foi receber uma antiga paixão. Aquele amor do passado que ele nunca conseguiu esquecer. O primeiro amor sempre deixa marcas.

— Ah, homens... É normal ele ter uma vida amorosa complicada.

Cada palavra era como um pisão direto sobre seus tímpanos.

De repente, seu celular vibrou. A tela se iluminou, e uma manchete atingiu seus olhos como uma lâmina.

[Herdeiro do Grupo Albuquerque, Caio Albuquerque aparece no aeroporto durante a madrugada segurando um buquê de lírios para receber uma mulher misteriosa!]

Ela encarou aquelas palavras por alguns segundos antes de abrir a notícia.

Na fotografia em alta definição, o homem vestia um elegante sobretudo preto de corte impecável. Em uma das mãos carregava um enorme buquê de lírios; com a outra, envolvia os ombros da mulher ao seu lado. O ângulo da foto havia sido cuidadosamente escolhido, dando a impressão de que os dois estavam prestes a se beijar.

A mulher tinha um perfil delicado e sereno, sua maquiagem era discreta e refinada. Mas o leve sorriso de satisfação no canto dos olhos era impossível de ignorar.

Elena fechou os olhos por um instante. E, quando voltou a abri-los, seu olhar estava estranhamente límpido.

Ela conhecia aquela mulher.

Mirela Valença.

Desde pequena, Mirela foi cercada de mimos. Era mimada, arrogante e fazia o que bem entendia. Caio, por sua vez, sempre a tratava com infinita paciência, cedendo a todos os seus caprichos.

Certa vez, um funcionário derramou acidentalmente algumas gotas de bebida sobre ela. Mirela, furiosa, quebrou uma taça de vinho diante de todos e obrigou o funcionário a ajoelhar-se sobre os cacos para pedir desculpas.

Ninguém ousou dizer uma única palavra. Apenas Caio interveio, resignado, para resolver toda a confusão.

Quando Elena ouviu esses rumores pela primeira vez, não deu muita importância.

No dia em que registraram o casamento, foi o próprio Caio quem segurou sua mão e a conduziu até o cartório.

Agora, porém, olhando para aquela fotografia, tudo lhe parecia ridículo.

De repente, um burburinho surgiu na entrada do salão. Um Maybach preto estacionou do lado de fora. A porta se abriu, e logo duas figuras subiram os degraus.

Mirela caminhava à frente, vestindo um simples vestido branco, com um xale claro sobre os ombros. Seu rosto estava ligeiramente pálido, os olhos avermelhados, transmitindo uma fragilidade quase comovente.

Caio vinha logo atrás. Usava um terno preto impecável. A gravata estava perfeitamente alinhada. Alto, de postura ereta, irradiava naturalmente uma presença fria e imponente. Seu olhar atravessou a multidão e repousou por um breve instante sobre o retrato do pai de Elena, e seus lábios finos se comprimiram levemente.

— Sr. Miguel, que descanse em paz. — Ele fez uma reverência respeitosa, com o tom de voz firme. — Perdoe-me pelo atraso.

Sua postura era irrepreensível. Mas, para Elena, aquele "Sr. Miguel" soava como uma cruel ironia.

Era o pai de sua esposa. Mesmo assim, nunca o tratava como um sogro.

Ela não disse nada, apenas curvou os lábios em um sorriso carregado de sarcasmo.

Mirela permaneceu um passo atrás dele e falou com voz delicada:

— Elena, por favor, não culpe Caio. A culpa é toda minha. Meu voo atrasou de última hora e só consegui chegar de madrugada. Caio ficou preocupado por eu estar sozinha e foi me buscar. O falecimento do Sr. Miguel foi repentino. Conseguir chegar até aqui já foi o máximo que pudemos fazer...

Os cochichos dentro do salão aumentaram.

— Então essa é a Srta. Mirela? A mesma da notícia.

— Olha como ela fica colada nele... Claramente veio só para provocar.

Só então Elena ergueu a cabeça e seu olhar pousou sobre os dois.

— E você é...? — Sua voz era fria, sem qualquer emoção.

— Elena, sou a Mir... — Mirela ficou surpresa.

— Eu estava perguntando para ele. — Elena a interrompeu e voltou o olhar para Caio.

— Leninha, esta é Mirela. Mirela, esta é Elena. — Ele franziu a testa.

— Leninha? — Elena soltou uma risada baixa. — Mirela?

Ela se levantou, suas pernas estavam tão dormentes que quase perdeu o equilíbrio, mas ainda assim manteve a postura.

— Vocês parecem ser muito próximos. — Ela então olhou para Mirela. — Além disso, não me lembro de ter te enviado um convite para o funeral do meu pai.

— Elena, eu... — O rosto de Mirela empalideceu, lágrimas imediatamente encheram seus olhos. — Eu só estava preocupada que Caio estivesse exausto. Quis acompanhá-lo para prestar homenagem ao Sr. Miguel. Se minha presença a incomoda, eu vou embora agora mesmo.

Enquanto falava, ela deu um passo para trás. Seu corpo balançou, como se fosse desmaiar no instante seguinte.

Instintivamente, Caio a segurou.

— Mirela, cuidado.

— Há uma coisa que eu gostaria de perguntar antes. — A voz de Elena voltou a ecoar pelo salão. Ela olhou diretamente para Caio, com um olhar tão calmo que beirava a indiferença. — Quem ficou com a vaga para o tratamento clínico do novo medicamento anticâncer da Nexo Farma?

Caio congelou.

Mirela também, seu rosto endureceu imediatamente.

Num canto do salão funerário, alguém cochichou:

— Nexo Farma? Aquele remédio novo de que tanto andam falando?

— Ouvi dizer que conseguir uma vaga é quase impossível. Só com muita influência.

— Minha prima comentou que um parente da família Valença conseguiu entrar na lista. Parece que a família Albuquerque ajudou.

— Agora tudo faz sentido...

Aos poucos, todos os olhares se voltaram para eles.

— Você me prometeu que encontraria uma solução. Disse que faria o possível para conseguir aquela vaga. Eu confiei em você. — Os dedos de Elena ficaram brancos de tanta força. — Quando o hospital me informou que todas as vagas haviam sido preenchidas, convenci a mim mesma de que você já tinha feito tudo o que podia. — Seu olhar permaneceu fixo nele. — Caio, vou perguntar uma última vez. — Ela pronunciou palavra por palavra. — Você deu a vaga que poderia salvar a vida do meu pai para alguém da família Valença?

O pomo de Adão de Caio se moveu, seus lábios permaneceram cerrados, e ele permaneceu em silêncio por um bom tempo.

— Elena, por favor, não pressione o Caio assim. — Mirela, aflita, tomou a palavra. — Fui eu quem implorou para ele. Era a única esperança do marido da minha prima. Não o culpe...

— Eu não perguntei para você. — Elena a interrompeu pela segunda vez.

Os olhares dos dois se encontraram.

Depois de um longo silêncio, Caio finalmente falou:

— Seu pai já estava em estágio terminal. Mesmo com o novo medicamento, a chance de sobrevivência era praticamente nula. Eu...

— Então você decidiu por ele? — Elena completou a frase. Ela sorriu, mas naquele sorriso não havia o menor vestígio de calor. — Então, para você, a vida do meu pai podia ser reduzida a um cálculo de probabilidades.

— Elena, não fale desse jeito. Caio também estava sem alternativas. Ele sofreu muito. Ele apenas... — Os olhos de Mirela ficaram vermelhos.

— Desde que entrou aqui, você disse três vezes que está preocupada com Caio. — Elena olhou para ela friamente. — Em nenhum momento mencionou meu pai. Você veio prestar condolências ou veio anunciar para todos qual é o seu lugar ao lado dele?

O rosto de Mirela ficou completamente vermelho.

— Leninha, você está emocionalmente abalada. A gente conversa melhor em casa. — Caio franziu as sobrancelhas.

Elena inspirou profundamente, engoliu toda a dor, toda a revolta e todo o mal-estar que pareciam rasgar seu peito. Então voltou a se ajoelhar diante do retrato do pai.

— Já que vieram, acendam uma vela em homenagem ao meu pai. — Sua voz estava serena. — Depois disso, Sr. Caio, Srta. Mirela, podem ir embora.

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