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Capítulo 2

Author: Fernanda Passos
O local mergulhou em um silêncio absoluto.

O rosto de Caio escureceu imediatamente, enquanto as pessoas ao redor prendiam a respiração.

Mirela ficou sem palavras. As lágrimas se acumularam em seus olhos, compondo uma expressão de injustiça e mágoa.

Por fim, Caio pegou uma vela e se aproximou do altar para prestar suas homenagens ao pai de Elena. Parado diante do retrato, mantinha as costas eretas. Ainda assim, por algum motivo, sentia um aperto estranho e inexplicável no peito.

Durante todo esse tempo, Elena sequer voltou a olhá-lo.

Depois de colocar a vela, Caio se virou. Observou aquela figura magra ajoelhada diante do altar. Hesitou por alguns instantes antes de dizer:

— Leninha, eu vou ficar.

— Caio... — Mirela levou a mão à testa de repente. Seu corpo balançou levemente. — Minha cabeça está girando... Acho que não estou me sentindo bem...

A mão que segurava a manga de seu terno tremia discretamente, como se ela fosse desabar a qualquer instante.

A mão de Caio ficou suspensa no ar. Alguns segundos depois, ele acabou apoiando Mirela.

— Vou levá-la de volta ao hotel primeiro. Quanto ao velório...

— Não precisa se incomodar. — Ela disse com frieza. — É o funeral do meu pai. Eu consigo cuidar dele sozinha.

— Pai. — Ela baixou os olhos para o retrato e murmurou baixinho. — Não precisa mais esperar por ele.

Caio permaneceu olhando para suas costas. Acabou por não dizer mais nada. Apoiando Mirela, deu meia-volta e foi embora.

Assim que os dois saíram, os cochichos voltaram a se espalhar entre os presentes, agora carregados de um entusiasmo indisfarçável por assistir a todo aquele espetáculo.

— O Sr. Caio realmente não faz questão nenhuma de esconder.

— Essa Srta. Mirela também é impressionante. Roubar o marido de outra mulher e ainda aparecer no funeral do pai... É muita ousadia. A Sra. Elena é digna de pena.

— Se for reparar, as duas até têm alguns traços parecidos.

Elena ouviu cada uma daquelas palavras, mas não respondeu a nenhuma delas. Limitou-se a acariciar repetidas vezes o rosto gentil de seu pai na fotografia.

"Pai, eu não confio mais nele", ela sussurrou baixinho em seu coração.

Algumas pessoas tentaram convencê-la a descansar um pouco, mas ela apenas balançou a cabeça.

Permaneceu ali até que a última vela se apagasse. Até que o último visitante fosse embora.

Metade das luzes do local foi apagada, e as sombras recaíram pesadamente sobre seus ombros.

Quando finalmente se levantou, suas pernas mal obedeciam.

Ela pegou o celular e enviou uma mensagem para sua melhor amiga, Valentina:

[Você ainda tem o contato daquela advogada especializada em divórcio que comentou comigo? Pode me passar?]

A resposta veio quase imediatamente.

Valentina: [Você decidiu mesmo?]

[Sim!]

Ela ia pedir o divórcio.

Quando o funeral terminou, já passava das dez da noite.

Ao voltar para a mansão da família Albuquerque, Elena encontrou a casa completamente às escuras, silenciosa, vazia e sem vida.

Depois de deixar a bolsa sobre o aparador da entrada, estava prestes a entrar na sala quando o celular vibrou e a tela se acendeu.

Caio: [Já chegou em casa? Você teve dias difíceis. Vá descansar.]

Elena apenas lançou um olhar para a mensagem, colocou o telefone no modo silencioso, virou-o com a tela para baixo e foi dormir.

Ela não precisava mais esperar ansiosamente por uma mensagem dele, muito menos por sua volta para casa.

Na manhã seguinte, o céu estava carregado de nuvens escuras.

Diante da penteadeira, Elena encarava seu rosto que parecia mais pálido do que nunca.

Lentamente, ergueu a mão e retirou a aliança de diamante de seu dedo anelar. Abriu o porta-joias, colocou o anel cuidadosamente dentro dele e fechou a tampa. Depois abriu a gaveta e empurrou a caixa até o fundo.

Não havia mais nada naquele casamento que valesse a pena guardar.

Vestindo um moletom cinza simples, uma calça jeans, ela prendeu os cabelos em um rabo de cavalo baixo e saiu de casa.

Na zona sul da cidade, num antigo edifício comercial, o elevador rangia a cada andar. A tinta dos botões havia sido praticamente desgastada pelos incontáveis dedos que os pressionaram ao longo dos anos.

Os corredores estavam cobertos por anúncios colados nas paredes e havia no ar um cheiro úmido e envelhecido, difícil de definir.

No fim do corredor, uma discreta placa dizia: Áquila Advocacia. Era simples, mas transmitia organização e limpeza.

A recepcionista conduziu Elena até uma pequena sala de reuniões, onde, sobre a mesa, havia um bule de chá recém-preparado, soltando finos fios de vapor.

Pouco depois, a porta se abriu e entrou uma mulher de pouco mais de trinta anos. Vestia camisa social e calça de alfaiataria, seus cabelos curtos estavam penteados para trás, e seus traços transmitiam firmeza e competência.

— Srta. Elena, suponho? Sou Vivian Medeiros.

— Dra. Vivian. — Elena levantou-se e apertou sua mão.

— Sente-se. — A advogada puxou uma cadeira e abriu seu caderno de anotações. — Primeiro, preciso entender sua situação.

Elena respirou fundo e então começou a contar tudo o que havia vivido durante aqueles três anos de casamento.

Quando chegou ao momento da morte de seu pai, sua voz ficou rouca. Ela precisou parar por alguns segundos para recuperar o fôlego antes de continuar.

Durante todo o relato, Vivian não a interrompeu. Apenas anotava rapidamente.

Quando Elena terminou, a sala mergulhou em silêncio.

— O que você espera conseguir com esse divórcio? — Vivian levantou os olhos.

— Liberdade. — Elena baixou o olhar, seus dedos se fecharam e relaxaram lentamente. Após uma breve pausa, acrescentou. — E tudo aquilo que me pertence por direito como esposa dele. A casa, o dinheiro, as ações... Eu quero tudo o que me cabe.

Assim que pronunciou aquelas palavras, ela própria ficou surpresa. Ela finalmente conseguia dizer, sem culpa, aquilo que desejava.

Um discreto brilho de aprovação passou pelos olhos de Vivian.

— Muito bem. — Ela consultou suas anotações. — Pelas circunstâncias, seus pedidos são perfeitamente razoáveis. No entanto, existem dois problemas. — Ela fez uma pausa. — Primeiro, vocês assinaram um acordo pré-nupcial. Seguindo os termos desse contrato, a quantia que você poderá receber será muito pequena. Segundo, você não faz ideia do tamanho do patrimônio dele. A estrutura acionária do Grupo Albuquerque é extremamente complexa. Além disso, a família Albuquerque não se resume ao seu marido. Precisamos descobrir, com o máximo de precisão possível, quais bens pertencem pessoalmente a ele. E há outro ponto. A família Albuquerque é poderosa e mantém uma equipe de advogados extremamente cara. — Ela falou sem rodeios. — Se me permite ser franca, se você pedir o divórcio agora, sem preparação, existe uma grande chance de sair desse casamento sem receber nada.

As unhas de Elena cravaram-se na palma da mão, mas ela não contestou. Ela sabia que aquela era a realidade.

— Por isso, minha recomendação é que você mantenha a calma por enquanto. — Vivian fechou o caderno. — Até levantarmos todos os bens registrados em nome do seu marido, você não pode deixar transparecer suas verdadeiras intenções. E, se conseguirmos provar que ele teve culpa pelo fracasso do casamento, isso será ainda mais favorável para nós.

Os cílios de Elena estremeceram.

— Então, ele realmente teve culpa? — A advogada percebeu imediatamente.

— Sim. — A garganta de Elena apertou.

— Sinto muito pelo que você passou. — Ela empurrou um cartão de visitas sobre a mesa. — Assim que recebermos o pagamento da primeira parcela dos honorários, iniciaremos oficialmente o processo. Da nossa parte, começaremos a solicitar judicialmente a investigação dos bens registrados em nome dele e daremos andamento aos procedimentos legais. — Ela a advertiu. — Esse processo não será rápido. Prepare-se psicologicamente. Enquanto isso, se conseguir qualquer prova da infidelidade ou de outras faltas cometidas por ele durante o casamento, envie tudo diretamente para mim.

— Entendido. — Elena assentiu, se levantou e fez uma leve reverência. — Então, deixarei em suas mãos.

Quando saiu do escritório, uma garoa fina já caía sobre a cidade. A chuva na zona sul sempre carregava o cheiro úmido dos prédios antigos.

Parada sob o beiral, Elena pegou o celular e abriu uma conversa que não acessava havia muito tempo.

[Mestre, eu gostaria de voltar ao ateliê.]

Assim que enviou a mensagem, seu coração acelerou inexplicavelmente.

Ela estudava com o Mestre Augusto havia quase vinte anos. Era sua última discípula e também a mais talentosa.

Sua habilidade na restauração de pinturas antigas era extraordinária, e seu talento artístico impressionava a todos.

Depois de se casar, porém, dedicou-se inteiramente a cuidar de Caio e da família Albuquerque. Aos poucos, afastou-se de seu mestre e dos antigos colegas.

Além das felicitações em datas comemorativas, praticamente não mantiveram mais contato.

Ela imaginava que aquela mensagem jamais receberia resposta. No entanto, menos de dez minutos depois, o celular vibrou.

Augusto: [Volte quando quiser. O endereço continua o mesmo.]

Era uma resposta simples. Mesmo assim, os olhos de Elena se encheram de lágrimas.

Ela ergueu a cabeça, contemplou o céu cinzento e respirou profundamente o ar úmido da chuva.

Elena: [Certo, mestre. Até amanhã.]

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