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Capítulo 3

Author: Suely
Depois de cuidar de toda a papelada da internação da minha mãe, voltei para casa para buscar algumas coisas que levaria ao hospital.

Na parede do quarto, ainda estava pendurada a placa decorativa com nossos nomes e a data do casamento.

Eu não alcançava aquela altura. Tinha sido Gabriel quem me pegara no colo para que eu pudesse colocá-la ali.

O enxoval da cama também havia sido escolhido por nós dois, depois de passarmos uma tarde inteira discutindo cores, tecidos e detalhes.

Cada canto daquela casa guardava um pedaço da vida que construímos juntos, pouco a pouco.

E bastara um único dia para tudo desmoronar.

Eu mal tinha aberto a mala sobre a cama quando Gabriel voltou.

Ele entrou direto no quarto. Pelo jeito como me olhava, parecia convencido de que eu só estava fazendo as malas no calor do momento.

— A casa é sua. Você não precisa sair. Eu vou embora.

Fez uma breve pausa.

— E não precisa devolver o dinheiro que passei para você. Considere uma compensação.

Falava com uma indiferença que me feria mais do que qualquer discussão.

— Só não vá mais atrás da Ju. Ela também está passando por uma situação difícil.

Aquilo rompeu o pouco de controle que ainda me restava.

— Ela está passando por uma situação difícil... E eu, Gabriel?

Minha voz tremeu.

— Eu fiquei ao seu lado desde a época em que você não tinha absolutamente nada...

— Chega.

Gabriel me interrompeu, impaciente, como se eu estivesse repetindo uma história que ele já não suportava ouvir.

— Eu sei que você ficou comigo quando eu não tinha nada. Sei que passou por muita coisa ao meu lado. Sei de tudo isso.

Ele me encarou sem emoção.

— Foi justamente por saber o quanto você sofreu que eu deixei a escolha nas suas mãos.

Então acrescentou:

— Carolina, você precisa aprender a se dar por satisfeita.

Fiquei olhando para ele, sem conseguir reagir.

Meus olhos arderam.

Oito anos.

Foram oito anos de amor.

Nós já tínhamos morado num apartamento alugado que ficava cheio de goteiras toda vez que chovia.

Já dividimos um pacote de miojo porque o dinheiro mal dava para chegar ao fim do mês. Teve época em que até comprar um ovo a mais fazia diferença.

Na idade em que eu mais gostava de me arrumar, eu não tinha sequer um vestido bonito para usar.

Meus pais diziam que eu era boba.

Juliana também dizia.

E, depois de tudo aquilo, Gabriel ainda tinha coragem de dizer que eu não sabia me dar por satisfeita.

Quando percebeu meus olhos vermelhos, ele hesitou.

Por um instante, alguma coisa em sua expressão amoleceu.

Então se aproximou e me abraçou, tentando me acalmar como fazia antigamente.

— Carol, eu já disse. A escolha é sua.

Sua voz ficou mais suave.

— Se você ainda quiser se casar comigo, eu faço outra cerimônia para compensar o que aconteceu hoje.

Ele se afastou um pouco e continuou, como se a proposta fosse perfeitamente razoável:

— Mas a Ju realmente sofreu muito. Toda vez que você me abraçava, eu via o jeito como ela olhava para nós, querendo estar no seu lugar... Aquilo acabava comigo.

Fiquei em silêncio.

Gabriel prosseguiu:

— Você podia me beijar em plena luz do dia. Podia me abraçar quando quisesse, sem precisar esconder nada. Ela não. Ela sempre teve que ficar nas sombras, chorando sozinha.

Ele falava com uma naturalidade absurda.

Como se a verdadeira injustiçada daquela história fosse Juliana.

Para mim, porém, cada palavra abria uma ferida nova.

A verdade era que eu não tinha sido completamente cega.

Os sinais sempre estiveram ali.

Quando saíamos os três juntos, eu quase nunca conseguia acompanhar as conversas entre Gabriel e Juliana.

Sempre que Juliana usava salto alto, Gabriel tirava um curativo da bolsa quase por reflexo e entregava a ela.

Certa vez, nós duas passamos mal depois de andar em uma montanha-russa.

Mesmo assim, Gabriel passou direto por mim e foi até Juliana, massageando suas costas para ajudá-la a se recuperar.

Depois, ela sempre transformava aquilo em brincadeira.

Ria e dizia:

— Está vendo? Homem que ama de verdade não cuida só da namorada. Cuida até das amigas dela.

Então piscava para mim.

— Carol, homem assim está em falta. É melhor segurar esse aí bem firme!

Na época, eu tinha percebido a frustração no rosto de Gabriel.

Só nunca entendera o motivo.

Agora entendia.

Engoli as lágrimas e forcei um sorriso.

— Gabriel, o que foi que você viu nela?

Ele franziu a testa.

Soltei uma risada curta, sem humor.

— Ouvi dizer que, na primeira noite em que vocês foram mais longe, você transou com ela oito vezes.

Ergui os olhos para ele.

— O quê? Ela é tão oferecida assim... Ou você é tão desesperado por sexo?

Assim que terminei de falar, a porta se abriu.

Juliana entrou.

A humilhação estampada em seu rosto fazia parecer que eu é que acabara de ultrapassar todos os limites.

Nas mãos, trazia uma caixa dos meus doces favoritos, comprados numa confeitaria famosa onde sempre havia fila.

— Carol, como você consegue falar assim de mim?

As lágrimas começaram a escorrer pelo rosto dela.

— Eu já disse que foi um acidente. Por que você precisa me humilhar desse jeito?

Antes, eu teria cedido.

Teria me levantado, abraçado Juliana e, no fim, provavelmente encontrado alguma maneira de perdoá-la.

Mas eu estava cansada demais.

Cansada da dor.

Cansada das mentiras.

Cansada dos dois.

Apenas me sentei na cama e observei a cena em silêncio.

Gabriel, no entanto, interpretou meu silêncio como crueldade.

Aproximou-se de Juliana, enxugou com o polegar uma lágrima no canto do rosto dela e então se virou para mim, furioso.

— É isso mesmo! Nós somos desesperados por sexo!

Sua voz ecoou pelo quarto.

— Então quer saber de mais uma coisa?

Meu peito se apertou.

Gabriel não hesitou.

— No dia em que seu pai morreu, quando eu liguei para consolar você e minha voz ficou entrecortada, não foi porque eu estava sofrendo junto com você. Foi porque a Ju estava me apertando com tanta força que eu não consegui controlar os sons que saíam de mim...

— Gabriel!

Juliana o interrompeu às pressas e cobriu a boca dele com a mão.

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