로그인Depois que os policiais foram embora, o hospital voltou lentamente ao ritmo normal.
Ou pelo menos ao que nós chamávamos de normal.
Pacientes continuavam chegando, enfermeiros corriam de um lado para o outro e telefones tocavam sem parar no balcão da enfermagem. Era o tipo de caos controlado que fazia parte da rotina de qualquer emergência. Ainda assim, eu sentia como se estivesse assistindo tudo de fora, como se meu corpo estivesse ali, mas minha cabeça ainda estivesse em outro lugar.
No sofá de um apartamento luxuoso.
Costurando o ferimento de um homem perigoso.
Fiz o possível para me concentrar no trabalho durante a próxima hora. Revisei alguns prontuários, dei orientações para um paciente que estava recebendo alta e ajudei Carla a organizar algumas anotações da madrugada.
Mas meu cérebro insistia em voltar para a mesma pergunta.
O que exatamente eu tinha acabado de fazer?
— Bianca?
Levantei os olhos.
Era Carla.
Ela me observava com aquele olhar curioso que os enfermeiros desenvolvem depois de anos trabalhando em hospital.
— Você tem certeza que está bem?
— Estou.
Ela inclinou levemente a cabeça.
— Você parece… distante.
Eu soltei um pequeno suspiro.
— Foi uma noite longa.
— Eu imagino.
Ela apoiou os cotovelos no balcão.
— Aqueles homens estavam assustadores.
— Estavam.
— E você simplesmente foi com eles.
Eu dei de ombros.
— Alguém tinha que ir.
Ela ficou em silêncio por um momento antes de falar novamente.
— Você é corajosa, sabia?
Eu ri baixo.
— Ou imprudente.
— Talvez os dois.
Antes que eu pudesse responder, ouvi passos firmes se aproximando pelo corredor.
Carla imediatamente se endireitou.
Eu já sabia quem era antes mesmo de olhar.
Antony Reed.
O diretor do hospital tinha aquele tipo de presença que fazia todo mundo prestar atenção automaticamente. Ele era alto, sempre bem vestido e tinha o tipo de expressão séria que parecia permanente.
Quando chegou ao balcão, olhou diretamente para mim.
— Doutora Halcrow.
— Senhor Reed.
— Podemos conversar um minuto?
Eu assenti.
Seguimos alguns passos até um canto mais silencioso do corredor.
— Ouvi sobre o incidente desta noite — ele disse.
— Sim.
— A polícia esteve aqui.
— Esteve.
Ele me observou por alguns segundos.
— Você está bem?
— Estou.
Reed suspirou levemente.
— Isso poderia ter terminado muito pior.
— Eu sei.
Ele cruzou os braços.
— Não é exatamente comum que médicos sejam sequestrados durante um plantão.
— Imagino que não.
Por um instante achei que ele fosse me pressionar por mais detalhes, mas ele apenas balançou a cabeça.
— De qualquer forma… seu plantão já está praticamente encerrado.
Olhei para o relógio na parede.
Ele estava certo.
Faltava menos de uma hora.
— Você pode ir para casa — disse Reed. — Descanse.
Eu hesitei.
— Tem certeza?
— Absoluta.
Ele me deu um pequeno aceno.
— Nos vemos amanhã.
Eu agradeci rapidamente e fui até o vestiário pegar minhas coisas.
Quando finalmente saí do hospital, a luz do sol já iluminava completamente a cidade. Silverport estava em plena atividade agora. Carros passavam pela avenida, pessoas caminhavam apressadas pelas calçadas e algumas cafeterias estavam cheias.
Eu estava exausta.
Meu pequeno apartamento ficava a alguns quarteirões do hospital, então decidi ir andando mesmo. O ar fresco da manhã ajudava a manter meus olhos abertos.
A caminhada foi tranquila.
Mas quando virei a última esquina da rua onde eu morava, algo chamou minha atenção.
Um carro estava estacionado perto do prédio.
Nada muito estranho nisso.
Exceto pelo fato de que assim que eu apareci na calçada, o motor ligou.
O carro arrancou imediatamente.
Franzi a testa enquanto observava o veículo desaparecer no final da rua.
— Estranho — murmurei.
Continuei caminhando até a entrada do prédio.
Meu apartamento ficava no terceiro andar de um prédio pequeno e antigo perto do centro. Não era grande coisa, mas era suficiente para mim. Um quarto, uma pequena sala, cozinha minúscula e um banheiro.
Depois de turnos longos no hospital, aquilo sempre parecia um refúgio.
Subi as escadas lentamente.
Meu corpo inteiro protestava de cansaço.
Mas quando cheguei ao corredor do terceiro andar, algo me fez parar.
Havia uma bolsa encostada na minha porta.
Uma bolsa de academia.
Eu congelei por um segundo.
Olhei para os dois lados do corredor.
Nada.
Peguei a bolsa com cuidado.
Ela parecia pesada.
— O que é isso…?
Entrei rapidamente no apartamento e tranquei a porta atrás de mim.
Coloquei a bolsa sobre a pequena mesa da cozinha.
Meu coração começou a bater mais rápido enquanto eu puxava o zíper.
Quando abri…
Eu congelei.
Dinheiro.
Muito dinheiro.
Notas empilhadas ocupavam praticamente todo o espaço da bolsa.
Minha primeira reação foi olhar novamente para a porta, como se alguém pudesse entrar a qualquer momento.
— Meu Deus… — murmurei.
Fechei a bolsa rapidamente.
Minha mente estava tentando processar aquilo quando percebi algo mais dentro dela.
Um celular.
Pequeno.
Simples.
Claramente pré-pago.
Peguei o aparelho.
Havia também um pequeno envelope dobrado.
Minhas mãos estavam um pouco trêmulas quando abri.
Dentro havia apenas um bilhete.
A letra era firme e direta.
"Doutora Halcrow,
Obrigado por salvar minha vida.
Use este telefone quando eu precisar falar com você.
A."
Fiquei olhando para o papel por alguns segundos.
Alexander.
Claro.
Soltei um suspiro longo e cansado.
— Idiota.
Fechei os olhos e passei a mão pelo rosto.
Eu estava irritada.
Muito irritada.
Não porque ele tivesse deixado dinheiro.
Mas porque aquilo parecia… simplificar demais o que tinha acontecido.
Como se tudo fosse apenas uma transação.
Como se eu tivesse sido apenas mais uma médica paga para fazer um trabalho.
Olhei novamente para a bolsa aberta sobre a mesa.
Havia dinheiro suficiente ali para resolver muitos problemas da minha vida.
Inclusive um muito específico.
Meus empréstimos da faculdade de medicina.
Anos de estudo tinham deixado uma dívida que eu ainda pagaria por muito tempo.
E ali, naquela bolsa, havia provavelmente dinheiro suficiente para quitar tudo.
Soltei um pequeno suspiro.
— Eu odeio isso.
Mas no fundo eu sabia que aquela situação já estava muito além de simples escolhas morais.
Eu tinha feito um acordo com Alexander Sinclair.
E aquele dinheiro era parte disso.
Fechei a bolsa novamente e empurrei para o canto da mesa.
— Eu resolvo isso depois.
Naquele momento havia algo muito mais urgente.
Dormir.
Caminhei até o quarto praticamente arrastando os pés. Tirei os sapatos no meio do caminho e caí na cama ainda vestida.
Minha cabeça ainda estava cheia de pensamentos confusos.
Alexander.
O acordo.
O casamento.
A guerra que Conrad tinha mencionado.
Mas o cansaço era mais forte que tudo.
Meus olhos fecharam quase imediatamente.
E pela primeira vez desde que aquela noite começou… eu finalmente dormi.
Eu nunca imaginei que um dia como aquele chegaria.Não daquele jeito.Não com aquela sensação no peito.Leve.Cheia.Quase… tranquila.Eu estava parada diante do espelho, olhando para o meu reflexo, tentando reconhecer a mulher que me encarava de volta.Porque, por muito tempo…Eu não fui ela.Ou talvez… eu sempre fui.Só nunca tive espaço para existir assim.O vestido deslizava pelo meu corpo com suavidade.Seda.Cor de vinho.Profundo.Elegante.Sem exageros.Mas impossível de ignorar.Ele marcava minha cintura, caía leve pelos quadris e seguia até o chão com um movimento quase silencioso. As alças finas deixavam meus ombros livres, e o decote era delicado, o suficiente para valorizar, nunca para exagerar.Eu passei a mão pelo tecido, devagar.Sentindo.Absorvendo.— Você está perfeita.A voz de Carla veio atrás de mim.Eu sorri pelo reflexo.— Você é suspeita.— Eu sou honesta.Caden apareceu ao lado dela, cruzando os braços.— Pela primeira vez na vida, eu concordo com ela.— Isso
Eu fechei a ficha clínica com um suspiro longo.Mais um paciente atendido.Mais um dia que parecia não ter fim.Mas, naquele momento, eu não estava exausta.Na verdade… eu estava estranhamente calma.Talvez fosse porque, pela primeira vez em muito tempo, eu sentia que as coisas estavam… no lugar.Ou pelo menos caminhando para isso.— Então, doutora… isso significa que eu vou sobreviver? — a voz rouca e levemente irônica de Teodoro Moretti me trouxe de volta.Eu ergui o olhar e encontrei os olhos dele.Ainda fortes.Ainda atentos.Mas agora… mais cansados.— Significa que o tratamento está funcionando — eu respondi, simples.— E que o senhor precisa continuar fazendo exatamente o que eu mandei.Ele fez uma careta leve.— Essa é a parte difícil.— Eu sei.— Eu não gosto de obedecer.— Eu também não.Ele sorriu de lado.— Talvez seja por isso que eu gosto de você.— Eu prefiro acreditar que é pela minha competência.— Isso também.Eu não consegui evitar um pequeno sorriso.Porque, de alg
Algumas semanas tinham passado desde o aniversário da Bianca.E, por mais que muita coisa na minha vida sempre fosse rápida, intensa e imprevisível… aquilo tinha ficado.O jeito que ela sorriu.O jeito que disse “sim”.Simples.Sem hesitar.Sem medo.Aquilo não saía da minha cabeça.E, pra alguém como eu… isso dizia muito.Eu estava em frente ao espelho, com um terno parcialmente ajustado, enquanto o alfaiate marcava a barra da calça com uma calma quase irritante.— Fica parado, por favor — ele disse.— Eu estou parado.— Não o suficiente.Eu soltei um suspiro baixo.Olhei de canto.E vi Conrad sentado em uma poltrona, mexendo no celular, completamente à vontade.— Engraçado como com você ele não implica.— Eu sei me comportar — Conrad respondeu, sem levantar o olhar.— Você acabou de derrubar uma fita métrica.— Foi um acidente.— Você estava girando ela no dedo.— Estilo.Eu balancei a cabeça, soltando um leve riso.O alfaiate terminou e se afastou.— Pode andar agora.Finalmente.E
Eu nunca fui muito de comemorar aniversário.Na verdade… por muito tempo, eu preferi fingir que a data nem existia.Era mais fácil.Menos expectativa.Menos decepção.Menos gente tentando dizer como eu deveria me sentir naquele dia.Mas, naquele ano…Era diferente.Eu estava diferente.A minha vida estava diferente.E, pela primeira vez em muito tempo, eu quis comemorar.Quis… juntar as pessoas que, de algum jeito, tinham se tornado importantes pra mim.Mesmo que esse “importante” tivesse vindo de formas completamente inesperadas.Eu olhei em volta do meu apartamento.Pequeno.Simples.Mas… meu.E, naquela noite, ele parecia mais cheio.Mais vivo.Eu tinha passado o dia arrumando tudo.Comprado algumas comidas.Organizado a mesa.Separado pratos, copos…Coisas simples.Mas feitas com cuidado.E, enquanto eu ajeitava os últimos detalhes…Meu coração estava acelerado.Não de nervoso.Mas de… expectativa.Porque, de alguma forma, aquilo era mais do que um aniversário.Era um encontro de
Eu devia ter passado um batom melhor.Foi a primeira coisa que eu pensei quando o carro parou diante da mansão.Ridículo.Completamente ridículo.Eu já tinha enfrentado sequestradores, tratado gente baleada no meio da madrugada, discutido com a minha família sem baixar a cabeça… mas ali, parada diante da casa da mãe do Alexander, a única coisa que ocupava minha mente era… batom.E postura.E respiração.E se eu estava sorrindo demais.Ou de menos.— Você está fazendo de novo — Alexander disse ao meu lado.— Fazendo o quê?— Pensando demais.Eu olhei pra ele.— Eu estou indo conhecer a sua mãe, Alexander.— Eu sei.— Isso não é “pensar demais”, isso é… sobreviver.Ele riu baixo.E aquilo me irritou um pouco.— Eu estou falando sério.— Eu também.— Você devia ter me avisado.— Eu já disse isso.— E continua errado.— Mas funcionou.— Eu ainda posso entrar no carro e ir embora.— Não vai.Silêncio.Eu encarei a mansão de novo.Grande.Bonita.Imponente.Mas… curiosamente, não parecia fr
Eu deveria ter desconfiado.Na verdade… eu sempre deveria desconfiar quando o Alexander diz algo com aquele tom casual demais.“Vamos almoçar fora da cidade.”Simples.Inocente.Quase… normal.E esse era exatamente o problema.Nada na vida dele era realmente normal.Eu estava no banco do passageiro, olhando pela janela enquanto a cidade ficava para trás. Os prédios iam diminuindo, as ruas ficavam mais largas, o trânsito mais leve… e o ar parecia até diferente.Mais limpo.Mais silencioso.Mais caro.— Você está quieta — ele comentou, dirigindo com uma das mãos.— Eu estou observando.— Observando o quê?— Tentando entender onde exatamente é esse “almoço fora da cidade”.Ele sorriu de leve.E aquele sorriso…Ah.Aquele sorriso.Eu virei o rosto lentamente para ele.— Alexander.— Hm?— Pra onde a gente está indo?— Eu já disse.— Não disse não.— Disse sim.— Não disse.Silêncio.Ele soltou um pequeno riso pelo nariz.— A gente vai ver a minha mãe.…Eu pisquei.Uma vez.Duas.Três.—







