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Capítulo 71

Author: A. OLIVEIRA
last update publish date: 2026-09-22 22:56:27

Era Helena.

Atendi na hora, a voz dela do outro lado quente como sempre.

— Oi, Angélica, bom dia — disse ela. — Desculpa incomodar no trabalho, só queria saber que horas você sai hoje. Vou fazer minha sessão de quimioterapia à tarde, e se não ficar ruim demais depois, pensei em passar aí à noite pra jantar com vocês, já que o desnaturado do meu filho não apareceu lá em casa esses últimos dias.

Ri baixinho, balançando a cabeça, pensando que desde a semana antes da viagem pra Minas, a gente tinha
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  • O acordo perfeito   Capítulo 72

    Ninguém se mexeu por um segundo inteiro.Eu ainda estava no colo de Antônio, a mão dele na minha nuca, o gosto do tiramisu ainda na boca, quando o mundo inteiro pareceu travar naquela porta aberta. Lucas ali parado, os olhos arregalados, o relatório amassado entre os dedos, o rosto passando por umas três cores diferentes antes de finalmente se fixar num vermelho vivo que subia do pescoço até as orelhas.Desci do colo de Antônio o mais rápido que consegui, ajeitando a blusa, sentindo o próprio rosto pegando fogo também, mas ele nem se mexeu direito, só recostou na cadeira com uma calma quase ofensiva, como se ser flagrado daquele jeito não fizesse a menor diferença pra ele. Aliás, dava pra jurar que via um traço de satisfação escondido no canto da boca dele, um prazer quieto em ter sido visto exatamente por aquela pessoa.— Desculpa a intromissão — Lucas falou, a voz saindo estranha, engasgada, os olhos pulando de mim pra Antônio e voltando pra mim, incapaz de decidir onde doía menos o

  • O acordo perfeito   Capítulo 71

    Era Helena.Atendi na hora, a voz dela do outro lado quente como sempre.— Oi, Angélica, bom dia — disse ela. — Desculpa incomodar no trabalho, só queria saber que horas você sai hoje. Vou fazer minha sessão de quimioterapia à tarde, e se não ficar ruim demais depois, pensei em passar aí à noite pra jantar com vocês, já que o desnaturado do meu filho não apareceu lá em casa esses últimos dias.Ri baixinho, balançando a cabeça, pensando que desde a semana antes da viagem pra Minas, a gente tinha se aproximado tanto que Antônio passou a almoçar e jantar comigo quase todos os dias, sobrando bem pouco tempo pra mais alguém, inclusive pra própria mãe.— Sem problema nenhum, pode aparecer — respondi, sorrindo sozinha. — O Josué vai com a senhora hoje na sessão?Ela suspirou do outro lado.— Talvez. Ele falou que ia, mas está numa reunião com os acionistas desde cedo, sabe como é.Pensei imediatamente na ligação que Antônio tinha recebido lá no estacionamento, aquela voz preocupada do outro

  • O acordo perfeito   Capítulo 70

    O carro entrou na garagem da empresa devagar, e eu já sentia o estômago revirar só de pensar em atravessar aquele hall de novo depois de tudo que tinha acontecido nos últimos dias. Antônio estacionou na vaga dele, perto do elevador, mas antes que conseguisse desligar o motor, o celular dele começou a vibrar insistente no porta-copos.Ele olhou pro visor, suspirou, e atendeu já com aquele tom sério de reunião.— Sim, pode falar — disse, a voz mudando completamente, formal, o executivo tomando conta de todo o corpo dele em segundos.Fiquei observando ele por um instante, o jeito como a testa franzia levemente enquanto escutava alguma coisa do outro lado da linha, provavelmente algum acionista chato demais pra esperar ele chegar na sala. Peguei minha bolsa, ajeitei a blusa, e me inclinei pro lado dele, cochichando baixinho pra não atrapalhar.— Vou subindo — sussurrei, já com a mão na maçaneta.Ele só assentiu, ainda de ouvido colado no celular, escutando o que quer que fosse do outro la

  • O acordo perfeito   Capítulo 69

    Cheguei em casa ainda tremendo por dentro, uma mistura de raiva, adrenalina, e um cansaço emocional que parecia ter drenado cada gota de energia que me restava. Passei pela cozinha sem sequer cumprimentar Dona Rosa, que ficou me olhando com uma expressão preocupada, sem coragem de perguntar nada, respeitando o silêncio carregado que eu carregava comigo escada acima.Subi direto pro quarto, tranquei a porta do banheiro, e entrei debaixo do chuveiro ainda de roupa, por um segundo, só sentindo a água quente bater nos ombros tensos, antes de finalmente me despir e deixar a água escorrer por um bom tempo, tentando lavar junto aquele dia inteiro de cima a baixo: a Júlia se jogando no chão, a bronca de Antônio, o jantar horrível com Lucas, cada camada daquilo escorrendo junto com a água, sem realmente desaparecer.Fiquei ali, parada, encostada no azulejo frio, por mais tempo do que qualquer banho razoável deveria durar, até que os dedos começaram a enrugar e o cansaço venceu a vontade de con

  • O acordo perfeito   Capítulo 68

    Chegamos ao restaurante que Lucas tinha sugerido ainda no elevador, como esperado não tinha tanto movimento, mas fiz questão de escolher a mesa eu mesma, uma perto da janela, cercada de outras mesas próximas, garçons circulando o tempo inteiro. Se ele quisesse fazer alguma cena ali, cercado de gente, teria que se controlar um pouco, ou correria o risco de virar o próprio escândalo dele mesmo.Sentamos, o clima ainda carregado desde que ele tinha saído transtornado da minha sala horas antes, o burburinho do restaurante preenchendo o silêncio tenso que se estendia entre a gente enquanto esperávamos o pedido chegar.— Eu sei que você ainda me ama — ele disparou, sem nenhum aviso, a voz carregada daquela raiva mal contida de mais cedo. — Mas você não pode ficar criando esse tipo de confusão com a Júlia, Angel. Não é certo.Fiquei olhando pra ele por um segundo inteiro, tentando processar o tamanho daquele absurdo.— Como assim, apaixonada por você? — repeti, incrédula, um riso seco, sem h

  • O acordo perfeito   Capítulo 67

    Voltei pra minha sala ainda carregando aquele desconforto todo grudado no peito, as pernas meio bambas, atravessando o mesmo corredor onde, minutos antes, um bando de gente inteiro tinha assistido a cena bizarra da Júlia se jogando no chão. Cada rosto que cruzava comigo parecia carregar um julgamento silencioso, os cochichos abafados assim que eu passava, e eu sentia a vergonha subindo quente pelo pescoço, a vontade enorme de sumir dali, de me tornar invisível até aquele burburinho todo esfriar. A conversa com Antônio ainda ecoava de um jeito que eu não sabia bem como processar. Sentei na cadeira, encostei a cabeça no espaldar por um segundo, e fechei os olhos, tentando organizar os pensamentos, quando uma batida gentil na porta me tirou daquilo.— Você tá bem? — Bruna perguntou, entrando sem esperar convite direito, fechando a porta atrás de si, o rosto carregado de preocupação genuína.— Tô — menti, sentando mais reta na cadeira, tentando parecer mais composta do que estava de fato.

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