MasukENOLA HARRINGTON
Pela urgência que o Rick saiu da casa, eu jurava que ia encontrá-lo correndo desesperado pelo campo de futebol.
Mas a cena aqui é outra.
Sento-me na arquibancada de cimento frio e observo os jogadores. Meu irmão está totalmente focado no treino, alheio ao resto do mundo.
Reparo nos detalhes ao redor: o relógio do Ricky foi deixado no banco, bem próximo ao treinador Vydor, mas é o Justin quem está com o anel.
No campo, os jogadores correm puxando os cintos de tração com elástico, rasgando a grama com a resistência pesada nas costas. Um eforço bruto e repetitivo.
Pode ser impressão minha, mas o relógio no banco parece estar brilhando. Uma luz vermelha, piscando fraca. Ou será que é só o reflexo do sol nele?
Preciso checar isso de perto.
Ergo-me, desço os degraus da arquibancada com pressa e entro no campo pela lateral, pisando na grama rala.
Franzo o cenho ao encarar dois homens de terno e óculos escuros no rosto, totalmente fora do figurino universitário.
Eles estão parados bem próximos da trave. Um deles observa a tela do celular enquanto o outro ergue a mão e aponta direto para… o meu irmão?
Meu coração dá uma batida errada.
O que esses homens querem com o Justin?
Balanço a cabeça determinada e sigo em direção aos desconhecidos.
Meu braço é agarrado com uma força absurda, rápido demais para eu reagir.
Sou puxada para trás com um solavanco, arrancada do campo aberto e arrastada para a penumbra embaixo da arquibancada.
Primeiro eu encaro a mão grande e quente que aperta o meu antebraço.
Levanto o olhar, o peito arfando pelo susto, e noto a respiração cortada que faz o tórax dele subir e descer rápido. Os olhos azuis intensos me encaram.
Ricky D’Ambrosio.
Nervoso, com o cabelo loiro desalinhado e nada heroico como o bombeiro que minha mente criativa cisma de fantasiar.
— O que deu em você? — reclamo e forço o corpo para trás até me soltar dos dedos dele.
Ricky dá um passo à frente e bloqueia a passagem com seus ombros largos, me escondendo atrás do seu corpo imenso. A atenção dele, porém, já não está mais em mim.
— Eu… só queria te ver de novo. — Sua voz escapa num tom baixo, mas seus olhos continuam focados no campo.
Ele está mentindo. Sinto o cheiro da hesitação, da ideia mirabolante que surge na ponta da língua, que muitas vezes acontece comigo.
Mas agora, isso tudo está misturado ao perfume amadeirado e ao suor limpo que emana da pele dele e invade meus sentidos.
Mesmo desconfiada, meu coração traiçoeiro acelera contra as minhas costelas com a proximidade.
— Achei que queria recuperar seu anel e seu relógio com o meu irmão — pontuo e estreito os olhos.
Ricky olha de soslaio para algo no gramado lá fora. Atento e tenso demais para um simples universitário.
Incomodada com a sua distração, levanto a mão e seguro seu queixo áspero, forçando seu rosto a virar. Trago a atenção direta e exclusivamente para mim.
— O que você está escondendo, Ricky? — sussurro.
Sinto a sua pele queimar contra as pontas dos meus dedos.
Percebo os ombros dele ficarem rígidos. Um riso curto, sem humor nenhum, escapa da sua boca.
Ricky segura minha mão. O nosso contato, como sempre, é quente e preciso. Ele retira do seu rosto, mas não me solta.
— Não tenho o que esconder, Enola. Por que a pergunta? — devolve, a voz mansa, mas os olhos brilham em desafio.
Um desafio que o Ricky, tenista certinho, não tem.
Estou cara a cara com o Ricky verdadeiro.
O que provoca.
O que retruca.
O que tem um jeito que me deixa embasbacada e curiosa ao mesmo tempo.
Esse Ricky me desarma de um jeito que eu não gosto de admitir.
Eu não vou parar até entender quem é Ricky D’Ambrosio.
Ele dá mais um passo, encurtando a distância entre nós a quase nada. O calor do corpo dele me aperta contra o espaço imediato.
Minhas costas se chocam contra uma pilastra de concreto fria da estrutura da arquibancada.
— Porque parece que você…
As palavras morrem na minha boca assim que desvio o rosto por cima do seu ombro. Vejo, pelas frestas da madeira, os homens desconhecidos caminhando mais para o centro do campo.
Avançando exatamente na direção do meu irmão.
Meu estômago afunda.
O radar está em alerta máximo na minha mente.
Ricky também acompanha o movimento deles. O maxilar do tenista trava com tanta força que uma linha dura se desenha em sua bochecha.
Ele estica os dois braços na parede, um de cada lado da minha cabeça, me cercando completamente, como se temesse que eu fosse sair correndo dele.
Pode ser coisa da minha cabeça, mas eu acho que o tenista golden boy conhece os homens.
Os homens que, por algum motivo que eu ainda não entendo, tem o Justin como alvo.
O Ricky se coloca na minha frente, bloqueando o campo como se estivesse me escondendo de alguma coisa. De uma maneira estranha, mas é bem Ricky de ser.
Um duque desaparecido pode estar fugindo dos próprios guardas reais?
Será que esses desconhecidos são a escolta real do duque e o próprio nobre herdeiro está aqui comigo, com os braços musculosos me prendendo contra a pilastra?
Mas por que eles olharam para o meu irmão?
Tudo bem, o Justin é amigo do Ricky e colega de quarto dele. Talvez os guardas saibam e estão tentando usar o meu irmão como isca para capturar o Ricky.
Meu Deus do céu!
Nós estamos literalmente no meio de uma caçada aristocrática internacional na faculdade.
E eu estou aqui, presa com o fugitivo mais cobiçado e misterioso do reino, sentindo a respiração dele bater no meu rosto.
Ou eu estou fantasiando tudo de novo.
Ricky é esquisito igual a Ariane. Não tem mistério. Só talvez um cara que use uma máscara social, e por algum motivo, eu sou a única que consegue quebrá-lo fazendo sua verdadeira personalidade sobressair.
O fato real e perigoso é que tem homens esquisitos chegando cada vez mais perto do meu irmão.
Eu preciso chegar até ele agora.
KNOX KINGSLEYTRÊS SEMANAS DEPOISMinhas mãos suam frio dentro do tecido grosso do paletó.O estômago se revira em um nó apertado e ácido.Passo a mão pelos meus fios castanhos naturais.O reitor Branson cedeu o auditório principal da Northwood University para anunciarmos o noivado. Há dezenas de jornalistas lá dentro, sussurrando e ajeitando as lentes de câmeras. Estão todos famintos para registrar o início do nosso plano.Caminho com passos pesados até Ariane, que permanece encostada na parede fria do corredor.— Alguma movimentação suspeita nos arredores?— Negativo —
ENOLA HARRINGTONSe alguém me dissesse há uma semana que eu estaria usando o anel de um duque e planejando um casamento com o amigo do meu irmão, eu diria que a pessoa estava louca.Mas o perigo tem uma forma estranha de acelerar o tempo. E, no meio de tantas mentiras, o calor da pele do Knox contra a minha e a promessa silenciosa no chuveiro são as únicas verdades que me restam.Solto um suspiro assim que paro diante da porta de madeira escura do quarto de hóspedes onde Justin está instalado.Aperto o metal frio do anel de sinete do Knox contra a palma da minha mão.Dobro o indicador e bato na madeira com três toques firmes. Espero alguns segundos, com o coração na garganta, até que ele finalmente abre.
KNOX KINGSLEYAs lágrimas descem devagar pelo rosto da Enola.Os olhos azuis, antes tão cheios de respostas, agora estão arregalados, fixos em mim.Ela deve estar me chamando de louco.E é loucura mesmo o que vou falar. Mas pode ser a loucura que vai nos salvar.Sinto o sangue pulsar com força nas minhas têmporas.Eu nunca tive tanta certeza assim toda a minha vida.— Eu vou te dar uma escolha — aviso e ela inclina o rosto para o lado. — Mas se a resposta for a que eu não quero ouvir, meus planos terão que ser modificados para o meu azar.Enola tem o direito de escolher cada passo sobre a própria vida.
ENOLA HARRINGTONLevo a xícara de cerâmica fria até a boca e tomo o último gole do chá morno.O gosto amargo da camomila parece se prender à minha língua.Vasculho a minha mente, repassando cada linha do banco de dados do consórcio de notícias.Nada. Absolutamente nada.Nenhum arquivo confidencial mencionava a morte da Kate, o exílio do Justin ou o envolvimento do meu pai com os Maddox. Muito menos que a pequena Maya é filha de um duque escocês.Não tem nada de normal nessa história.Justin me explicou algumas coisas, mas eu ainda sinto que faltam tantas informações para eu finalmente finalizar esse quebra-cabeça.
KNOX KINGSLEYRespiro fundo assim que Lennox fecha a porta pesada do escritório.O clique da fechadura ecoa no meu peito como um tiro de advertência.Ariane me encara em guarda, o corpo tenso sob as roupas escuras de combate. Como se soubesse que eu sou capaz de pegar o meu irmão pelo colarinho e socar várias vezes a cara dele.A raiva queima no meu peito.A vontade de quebrar o nariz do Lennox é enorme. Mas eu preciso me controlar, pelo menos um pouco, para entender o objetivo do plano deles.Porque o meu irmão pode não ter confiado em mim, mas eu sei que ele seria capaz de queimar o mundo para proteger o Callum.Então, se fingir de morto… sim,
ENOLA HARRINGTONO mundo está girando.Na verdade, está capotando em câmera lenta bem diante de mim.E eu sou a passageira indefesa dentro desse carro desgovernado, esmagada ao lado do Knox.Recebendo um bombardeio de verdades capaz de… sei lá, acabar de me pulverizar de vez.Meu. Deus.A Maya. Minha irmãzinha.Não é a minha irmãzinha de sangue.Ela é do Callum. Sobrinha do Knox. E filha do Duque de MacLeod que não está morto.— É a pura verdade — Justin afirma ao quebrar o silêncio pesado da sala e me encara hesitante. — Quando eu falo







