LOGINMeu pai sempre fez o impossível para me apoiar, da forma exata como podia e com tudo o que tinha a oferecer. No dia em que precisei arrumar as malas, apertando roupas, sapatos e expectativas em zíperes que quase cederam, o coração dele visivelmente ameaçou sair pelo peito.
Deixar a segurança do nosso lar para trás e me mudar para a cidade grande, um oceano de concreto em busca de estudos e oportunidades de trabalho de verdade, foi o maior teste para o coração dele. Sendo filha única, e com toda aquela distância geográfica nos separando, não havia um único dia em que o telefone não tocasse. Ele ligava para saber se eu tinha comido bem, se o prato do almoço tinha sido reforçado, como andavam as coisas no trabalho ou simplesmente para ouvir o som da minha voz e matar a saudade constante que o consumia. Mamãe havia falecido quando eu tinha apenas quatro anos de idade. Minhas memórias dela eram borrões distantes, como fotos antigas desbotadas pelo sol; por isso, desde as lembranças mais remotas até os dias de hoje, fomos apenas nós dois contra o mundo. Ele era meu porto seguro, meu fã número um nas arquibancadas da vida e a única pessoa no planeta capaz de arrancar uma gargalhada sincera de mim nos momentos de maior desespero. Como há poucas horas, por exemplo, quando o cartão de crédito dele havia acabado de salvar a minha pele no shopping, financiando o visual impecável que eu desesperadamente precisava comprar. Aquele fim de semana passou de forma arrastada, parecendo durar uma eternidade sufocante. Cada segundo que reluzia no relógio foi aproveitado ao máximo para me dedicar a um verdadeiro mutirão de beleza, resgate da autoimagem e sobrevivência corporativa. Fiz as unhas meticulosamente, optando por um tom de esmalte neutro, elegante e estritamente profissional. Hidratei o cabelo em camadas profundas até que cada fio ganhasse vida e brilhasse sob a luz, e acertei cada milímetro rebelde da sobrancelha no espelho do banheiro. Eu precisava estar absolutamente impecável. A armadura tinha que ser perfeita; na segunda-feira, a dinâmica mudaria por completo. Eu deixaria de ser apenas mais uma assistente anônima no meio da multidão engravatada, perdida entre cubículos e planilhas esquecidas. Eu estaria, finalmente, cara a cara com o temido e lendário Alexander Aethelgard. Quando coloquei os pés na sede da empresa na manhã de segunda-feira, o ar condicionado gelado e o perfume caro dos executivos me receberam como um tapa de realidade. Percebi imediatamente que o meu caminho rumo ao topo teria um obstáculo clássico logo na primeira etapa: a recepção principal. Um espaço ostensivo com piso de mármore polido e lustres imponentes, projetado para impressionar clientes e sócios, e o território oficial da Kátia. Sim, aquela chata de carteirinha que parecia nutrir um prazer quase infantil em complicar a vida alheia. Lembra dela, né? Ajustei a gola estruturada da minha nova blusa de alfaiataria, passei a mão pela franja para garantir que nada estivesse fora do lugar e adotei a minha melhor postura de confiança. Imprimi um passo firme e cadenciado ao caminhar, cruzando o saguão cintilante em direção ao corredor privativo que dava acesso exclusivo aos elevadores executivos. A bonita, é claro, não perdeu um único segundo. Ao me ver ultrapassar a linha invisível que ela tanto protegia, veio praticamente correndo em minha direção. Seus saltos estalavam alto no piso, e o rosto trazia aquela clássica expressão desdenhosa de quem adora aplicar regrinhas corporativas para se sentir poderosa: — Ei! Você não pode... Esse elevador é exclusivo para os executivos! Não vacilei. Virei-me com calma calculada, ajustando a postura, e encarei-a bem no fundo dos olhos, mantendo uma expressão absolutamente séria. Atrás de mim, o sinal sonoro do elevador apitou suavemente e a porta de aço inoxidável começou a se fechar vagarosamente, cortando a distância entre nós. Não abri a boca para dizer uma única palavra. Deixei que o silêncio denso e o meu olhar sustentassem todo o recado. Em breve, muito mais cedo do que ela imaginava, a Kátia descobriria da pior ou da melhor forma possível o motivo exato pelo qual teria que me engolir passando por ali todos os santos dias.Com o apartamento finalmente impecável e o cheiro de casa nova se espalhando pelos cômodos, naquela quinta-feira pela manhã aproveitei para arrumar as malas, pois aproveitaria o restante da semana flexível para matar a saudade do meu pai. Levantei bem cedo, antes mesmo de o sol despontar por completo no horizonte, joguei alguns itens essenciais em uma mala pequena de bordo e chamei um táxi rumo ao aeroporto. Já devidamente acomodada na poltrona do avião, observando através da pequena escotilha o mar infinito de nuvens branquinhas lá fora, lembrei-me da foto provocante que Alexander havia me enviado no dia anterior. Um sorriso travesso e ligeiramente audacioso brotou nos meus lábios. Decidi, ali mesmo, que não deixaria aquela provocação barato. Tirei uma foto discreta e bem enquadrada mostrando a janela da aeronave, com a asa cortando o céu azul, mas segurei o envio por algum tempo. Fui estrategista: esperei pacientemente o pouso, a jornada de carro até a pequena e aconchegante
Poder trabalhar de casa remotamente estava se provando uma verdadeira bênção disfarçada em meio ao caos da rotina. Já se haviam passado três dias completos desde que ele embarcou rumo ao exterior, e ainda não me ligou para nenhuma demanda urgente ou imprevisto de última hora, o que, por um lado, era excelente, pois provava matematicamente que a nossa organização prévia da agenda e o alinhamento de relatórios haviam funcionado com precisão cirúrgica.Por outro lado, confesso sem hesitar que havia um estranho e incômodo vazio na minha rotina. O silêncio do meu home office parecia ecoar a falta daquela presença marcante.Aproveitei o tempo livre ganho com a flexibilidade de horários e o ritmo mais dinâmico para colocar praticamente tudo em ordem no meu novo apartamento. Entre dezenas de caixas de papelão desencaixotadas, cortinas leves penduradas nas janelas e alguns detalhes delicados de decoração espalhados pela sala, o espaço finalmente começava a ter cara de "casa de moça". Antes
O tempo parecia passar ainda mais rápido na presença daquele homem, como se os ponteiros do relógio conspirassem para encurtar os minutos em que eu estaria sob o seu campo de visão. O restante da semana transformou-se em um verdadeiro turbilhão, impulsionado pelo frenesi do remanejo das atividades, pelo alinhamento de relatórios e, sobretudo, pela iminência da longa viagem que ele faria para o exterior na segunda-feira ao amanhecer.Tudo precisava estar milimetricamente impecável, pois a agenda internacional dele para os dias fora incluía uma maratona exaustiva de reuniões estratégicas, jantares de negócios com executivos e palestras em grandes conferências. A cada documento que eu revisava, a sensação de que o espaço ao meu redor encolhia tornava-se mais palpável, um reflexo direto da pressão invisível que a ausência dele começava a projetar sobre o escritório.Quando finalmente chegamos à sexta-feira à tarde, o andar executivo parecia estranhamente silencioso, quase ecoando o vazi
No dia seguinte, Alexander chegou um pouco mais tarde do que o habitual, mas o que realmente chamou a atenção não foi o relógio, e sim o seu semblante. Seus traços normalmente tensos pareciam suavizados, desprovidos daquela rigidez característica que parecia fazer parte do seu terno feito sob medida.Ele trazia um sorriso discreto nos lábios e uma leveza incomum no passo; parecia que toneladas de peso haviam sido magicamente retiradas de seus ombros largos.Querendo ou não, aquela pausa com os velhos amigos de infância lhe fez bem. Fugir por algumas horas daquela redoma de vidro e concreto da holding parecia ter trazido de volta o homem por trás do cargo.Fiquei observando-o de relance enquanto ele cruzava a antessala, constatando que o CEO implacável e sempre carrancudo ficava absurdamente mais perigoso quando decidia sorrir. Havia algo magnético ali, uma descontração que parecia redefinir o espaço ao seu redor. E aquilo, por si só, era um perigo e tanto para o meu autocontrole recém
Já passava muito da hora de encerramento do expediente quando eles finalmente decidiram sair da sala privativa. Enquanto a algazarra ecoava, eu já havia corrido contra o tempo para reorganizar a agenda, remarcando e cancelando alguns compromissos menores daquela tarde que haviam sido atropelados pela visita surpresa.Estavam todos prontos para a famosa maratona de "algumas rodadas de bebidas" — como um dos amigos fez questão de anunciar em alto e bom som.A turma já ia saindo pela porta da antessala quando Alexander parou, olhou para mim com aquela expressão polida e se despediu:— Bom descanso, Alice. Obrigado por gerenciar o caos de hoje.Eu sorri educadamente, respirando aliviada por finalmente poder ir para casa descansar os pés. Mas, antes que eu pudesse responder, um dos amigos de infância dele se meteu, abrindo um sorriso malicioso:— Bom descanso o caramba! Ela vai com a gente!Fiquei completamente sem rumo, estacada no lugar, sem a menor ideia de como me comportar naquela arm
Já havia se passado uma semana inteira desde que eu assumira o cargo na sala do senhor Aethelgard — ou melhor, Alexander, como ele havia feito questão de exigir com aquela voz firme e autoritária que parecia vibrar no meu estômago.A vergonha paralisante do primeiro dia já tinha ficado para trás, mas o meu sistema nervoso parecia não ter recebido o memorando. Bastava que ele se levantasse da mesa, cruzasse o escritório ou respirasse um pouco mais perto para que as minhas pernas decidissem virar gelatina pura.O que diabos está acontecendo comigo? Eu me perguntava mentalmente, revirando os olhos para mim mesma enquanto fingia concentrar os olhos na planilha da tela do computador.Tudo bem, eu admitia: ele era absurdamente lindo, charmoso e dono de um porte físico que parecia ter saído diretamente de uma campanha de grife internacional. Mas o meu corpo precisava aprender urgentemente a se comportar! Afinal de contas, ele era meu chefe, o homem mais temido da diretoria... e, céus, bota s







