FAZER LOGINJá passava das 8h30 da manhã. Eu já havia arrumado tudo milimetricamente, seguindo à risca as dicas de ouro da Helena. No domingo, conversamos bastante por ligação; ela teve a paciência de me passar o mapa da mina com todos os segredos, manias e preferências do chefe, e eu fiz questão de colocar cada ensinamento em prática logo no meu primeiríssimo dia.
O café na temperatura exata que ele gostava estava fumegante na garrafa térmica ao lado; as documentações para as reuniões do dia foram organizadas impecavelmente em ordem alfabética na gaveta superior; e a agenda de couro, já previamente preenchida pela própria Helena com todos os compromissos daquela segunda-feira, repousava aberta e convidativa bem no centro da mesa. Tudo parecia sob controle. Ou pelo menos era isso o que eu tentava convencer a mim mesma enquanto o meu coração ameaçava romper as costelas. Foi quando ouvi a porta imponente se abrir. Ele entrou com aquele semblante sério de quem parecia carregar o peso do mundo corporativo nas costas e, ainda assim, me lançou um breve: — Bom dia. Minhas pernas imediatamente ameaçaram falhar. Eu estava em pé, plantada ao lado da minha mesa, e foi absolutamente inevitável: passei os olhos da cabeça aos pés, medindo cada detalhe daquela verdadeira obra-prima de terno e gravata. Ele vestia um terno cinza-escuro impecável, cortado sob medida, e a camisa social branca com o primeiro botão aberto revelava o início do pescoço forte, dando um toque de elegância despojada que só piorava a situação. Cada centímetro daquela produção parecia desenhado para evidenciar a perfeição do conjunto. Ele parou, ergueu o queixo e me olhou de cima, franzindo levemente a testa com um gesto impaciente de quem aguardava uma resposta imediata. — B-bom dia! gaguejei, sentindo o rosto queimar de vergonha por ter sido pega secando o próprio chefe logo no primeiro minuto do expediente. Ele continuou avançando a passos largos em direção à sua imensa mesa de madeira nobre. Antes mesmo que ele tivesse a chance de abrir a boca para me testar ou fazer qualquer pergunta, decidi tomar a iniciativa e meti os pés pelas mãos na tentativa de parecer ultraeficiente: — O seu café já está pronto sobre a bandeja, senhor Aethelgard. Os documentos essenciais para hoje foram devidamente conferidos e estão organizados em ordem alfabética na primeira gaveta, e a sua agenda do dia já está aberta com os compromissos marcados pela Helena. Ele parou por um segundo antes de puxar a cadeira, encarando a mesa perfeitamente organizada e, depois, voltando o olhar para mim. Me analisou por mais um instante, o maxilar tenso, antes de estreitar os olhos com uma confusão genuína estampada no rosto. — Desculpa... qual é o seu nome mesmo? — perguntou, com um tom seco e direto. Senti o meu castelo de cartas desabar na mesma hora. — Meu nome é Alice, senhor. Ele soltou um suspiro nasal, descruzando os braços com um leve aceno de cabeça. — Por favor, Alice... me chame apenas de Alexander. Fiz que sim com a cabeça, achando que talvez houvesse um pingo de simpatia ali. Mas foi um engano meu. Ele deu meia-volta, caminhando firme até a sua cadeira executiva e disse: — Se eu tiver alguma dúvida ou precisar de algo, eu te chamo. E assim, com um gesto frio de dispensa, ele virou as costas e mergulhou nos papéis da mesa, me fazendo sentir a pessoa mais pateta, invisível e insignificante de todo o edifício corporativo.O tempo parecia passar ainda mais rápido na presença daquele homem, como se os ponteiros do relógio conspirassem para encurtar os minutos em que eu estaria sob o seu campo de visão. O restante da semana transformou-se em um verdadeiro turbilhão, impulsionado pelo frenesi do remanejo das atividades, pelo alinhamento de relatórios e, sobretudo, pela iminência da longa viagem que ele faria para o exterior na segunda-feira ao amanhecer.Tudo precisava estar milimetricamente impecável, pois a agenda internacional dele para os dias fora incluía uma maratona exaustiva de reuniões estratégicas, jantares de negócios com executivos e palestras em grandes conferências. A cada documento que eu revisava, a sensação de que o espaço ao meu redor encolhia tornava-se mais palpável, um reflexo direto da pressão invisível que a ausência dele começava a projetar sobre o escritório.Quando finalmente chegamos à sexta-feira à tarde, o andar executivo parecia estranhamente silencioso, quase ecoando o vazi
No dia seguinte, Alexander chegou um pouco mais tarde do que o habitual, mas o que realmente chamou a atenção não foi o relógio, e sim o seu semblante. Seus traços normalmente tensos pareciam suavizados, desprovidos daquela rigidez característica que parecia fazer parte do seu terno feito sob medida.Ele trazia um sorriso discreto nos lábios e uma leveza incomum no passo; parecia que toneladas de peso haviam sido magicamente retiradas de seus ombros largos.Querendo ou não, aquela pausa com os velhos amigos de infância lhe fez bem. Fugir por algumas horas daquela redoma de vidro e concreto da holding parecia ter trazido de volta o homem por trás do cargo.Fiquei observando-o de relance enquanto ele cruzava a antessala, constatando que o CEO implacável e sempre carrancudo ficava absurdamente mais perigoso quando decidia sorrir. Havia algo magnético ali, uma descontração que parecia redefinir o espaço ao seu redor. E aquilo, por si só, era um perigo e tanto para o meu autocontrole recém
Já passava muito da hora de encerramento do expediente quando eles finalmente decidiram sair da sala privativa. Enquanto a algazarra ecoava, eu já havia corrido contra o tempo para reorganizar a agenda, remarcando e cancelando alguns compromissos menores daquela tarde que haviam sido atropelados pela visita surpresa.Estavam todos prontos para a famosa maratona de "algumas rodadas de bebidas" — como um dos amigos fez questão de anunciar em alto e bom som.A turma já ia saindo pela porta da antessala quando Alexander parou, olhou para mim com aquela expressão polida e se despediu:— Bom descanso, Alice. Obrigado por gerenciar o caos de hoje.Eu sorri educadamente, respirando aliviada por finalmente poder ir para casa descansar os pés. Mas, antes que eu pudesse responder, um dos amigos de infância dele se meteu, abrindo um sorriso malicioso:— Bom descanso o caramba! Ela vai com a gente!Fiquei completamente sem rumo, estacada no lugar, sem a menor ideia de como me comportar naquela arm
Já havia se passado uma semana inteira desde que eu assumira o cargo na sala do senhor Aethelgard — ou melhor, Alexander, como ele havia feito questão de exigir com aquela voz firme e autoritária que parecia vibrar no meu estômago.A vergonha paralisante do primeiro dia já tinha ficado para trás, mas o meu sistema nervoso parecia não ter recebido o memorando. Bastava que ele se levantasse da mesa, cruzasse o escritório ou respirasse um pouco mais perto para que as minhas pernas decidissem virar gelatina pura.O que diabos está acontecendo comigo? Eu me perguntava mentalmente, revirando os olhos para mim mesma enquanto fingia concentrar os olhos na planilha da tela do computador.Tudo bem, eu admitia: ele era absurdamente lindo, charmoso e dono de um porte físico que parecia ter saído diretamente de uma campanha de grife internacional. Mas o meu corpo precisava aprender urgentemente a se comportar! Afinal de contas, ele era meu chefe, o homem mais temido da diretoria... e, céus, bota s
Já passava das 8h30 da manhã. Eu já havia arrumado tudo milimetricamente, seguindo à risca as dicas de ouro da Helena. No domingo, conversamos bastante por ligação; ela teve a paciência de me passar o mapa da mina com todos os segredos, manias e preferências do chefe, e eu fiz questão de colocar cada ensinamento em prática logo no meu primeiríssimo dia.O café na temperatura exata que ele gostava estava fumegante na garrafa térmica ao lado; as documentações para as reuniões do dia foram organizadas impecavelmente em ordem alfabética na gaveta superior; e a agenda de couro, já previamente preenchida pela própria Helena com todos os compromissos daquela segunda-feira, repousava aberta e convidativa bem no centro da mesa.Tudo parecia sob controle. Ou pelo menos era isso o que eu tentava convencer a mim mesma enquanto o meu coração ameaçava romper as costelas.Foi quando ouvi a porta imponente se abrir. Ele entrou com aquele semblante sério de quem parecia carregar o peso do mundo corpor
Meu pai sempre fez o impossível para me apoiar, da forma exata como podia e com tudo o que tinha a oferecer. No dia em que precisei arrumar as malas, apertando roupas, sapatos e expectativas em zíperes que quase cederam, o coração dele visivelmente ameaçou sair pelo peito. Deixar a segurança do nosso lar para trás e me mudar para a cidade grande, um oceano de concreto em busca de estudos e oportunidades de trabalho de verdade, foi o maior teste para o coração dele. Sendo filha única, e com toda aquela distância geográfica nos separando, não havia um único dia em que o telefone não tocasse. Ele ligava para saber se eu tinha comido bem, se o prato do almoço tinha sido reforçado, como andavam as coisas no trabalho ou simplesmente para ouvir o som da minha voz e matar a saudade constante que o consumia.Mamãe havia falecido quando eu tinha apenas quatro anos de idade. Minhas memórias dela eram borrões distantes, como fotos antigas desbotadas pelo sol; por isso, desde as lembranças mais







