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OS NOVOS DONO DO VIDIGAL A HERANÇA
OS NOVOS DONO DO VIDIGAL A HERANÇA
Kally Hathor

A NOVA GERAÇÃO

last update Veröffentlichungsdatum: 10.09.2026 08:27:52

Capítulo 1

JN

O Vidigal nunca dormia.

Podia ser madrugada, manhã, tarde ou noite. Sempre existia alguém subindo ou descendo aquelas vielas, algum som vindo de uma casa, uma moto cortando caminho, uma música escapando de uma janela ou uma conversa acontecendo em algum canto.

Eu cresci ouvindo aquilo.

Cresci vendo meu pai caminhar pelo morro e sendo respeitado por onde passava. Cresci vendo minha mãe ao lado dele, forte, determinada e sempre pronta para colocar qualquer um no lugar.

Ruivo e Noemi.

Meus pais.

Durante muito tempo, eu fui apenas o filho deles.

Hoje, isso tinha mudado.

Eu estava sentado em uma das áreas reservadas do camarote, observando o baile lá embaixo enquanto segurava um copo na mão. A música fazia o chão vibrar, as luzes coloridas cortavam a escuridão e centenas de pessoas dançavam como se o mundo não tivesse problemas.

Mas eu não conseguia relaxar.

Porque eu sabia que, a partir daquela noite, muita coisa mudaria.

— Está com essa cara por quê?

Reconheci a voz antes mesmo de olhar.

MK.

Meu melhor amigo.

Ele se jogou no sofá ao meu lado e soltou uma risada quando percebeu que eu continuava sério.

— Estou pensando.

— Péssimo hábito.

Olhei para ele.

— Engraçadinho.

MK sorriu.

Ele era enorme. Negro, alto, musculoso e com os braços completamente tatuados. Os cabelos cacheados estavam bem cortados, e a corrente dourada no pescoço brilhava quando as luzes do camarote passavam por ele.

Meu pai costuma dizer que MK tem força suficiente para derrubar uma parede.

Eu acreditava.

Mas sabia que aquela força não estava apenas nos músculos.

MK era leal.

E, no nosso mundo, lealdade valia mais do que dinheiro.

— Seu pai está lá embaixo? — perguntei.

— Está.

— E sua mãe?

— Também.

Fiquei alguns segundos em silêncio.

— Parece que nossos pais estão querendo passar o bastão.

MK me encarou.

Dessa vez, não brincou.

— Eles não estão querendo.

Ele se inclinou para frente.

— Eles já passaram.

Aquelas palavras bateram diferente.

Eu olhei novamente para o baile.

Meu pai tinha me chamado mais cedo para conversar.

Não houve discurso.

Não houve cerimônia.

Apenas algumas palavras.

“Chegou sua hora.”

Só isso.

Mas eu sabia exatamente o que significava.

O Vidigal seria meu.

A responsabilidade seria minha.

As decisões seriam minhas.

E, junto com tudo isso, viriam os inimigos que meu pai passou anos acumulando.

— Está nervoso? — MK perguntou.

— Não.

— Mentiroso.

Dei um sorriso de canto.

— Não estou nervoso. Só estou consciente.

— Então está com medo.

Virei o rosto devagar.

— Eu não tenho medo.

MK levantou as mãos.

— Calma, chefe. Só estou tentando entender.

— Ainda não sou chefe.

Ele riu.

— Para mim, já é.

Antes que eu respondesse, senti dois braços envolverem meu pescoço.

— Vocês dois estão com uma cara horrível.

Era ela.

Mariza uma mina que eu saia.

Sorri imediatamente.

Ela se sentou ao meu lado e encostou a cabeça no meu ombro.

— Estávamos falando de trabalho — expliquei.

— No baile?

— O trabalho não escolhe lugar.

Ela revirou os olhos.

— Vocês são impossíveis.

Olhei para MK.

A mina que ele saia estava perto da grade do camarote, observando o baile. completamente acostumada com aquele ambiente de ostentação.

Era engraçado pensar que, quando éramos crianças, nossas maiores preocupações eram outras.

Agora tínhamos homens dependendo das nossas decisões.

Famílias dependendo da nossa proteção.

E um legado inteiro esperando para ser carregado.

— Olha quem chegou — MK falou.

Segui o olhar dele.

E então vi.

Alexandre.

O Gigante.

Ele estava subindo a escada que levava ao camarote.

Não era necessário perguntar quem ele era.

Alexandre tinha uma presença impossível de ignorar.

Alto, muito forte, loiro, tatuado e com olhos claros que pareciam atravessar qualquer pessoa que ousasse encará-lo por tempo demais.

Atrás dele vinha a mulher que o acompanhava.

Ela era linda, era mais umas das que ele saia.

Alexandre abriu os braços quando nos viu.

— Finalmente encontrei vocês.

Levantei-me.

— Gigante.

Nós nos abraçamos.

MK também foi até ele.

— Demorou, irmão.

— A Rocinha estava uma loucura.

— Sempre está.

Alexandre olhou ao redor.

— Então esse é o famoso camarote do futuro dono do Vidigal?

Olhei para ele.

— Já começaram com isso?

Ele sorriu.

— Não fui eu quem decidiu.

— Meu pai decidiu.

— Então está decidido.

MK colocou uma mão no ombro dele.

— E você?

Alexandre arqueou uma sobrancelha.

— Eu o quê?

— Vai continuar sendo o filho do Mago para sempre?

O sorriso de Alexandre desapareceu.

Por alguns segundos, ninguém falou.

Então ele respondeu:

— Meu pai me ensinou que respeito não se herda.

Assenti.

— Concordo.

— Você pode receber o nome, o território, o dinheiro e até os homens.

Alexandre olhou diretamente para mim.

— Mas se não souber comandar, perde tudo.

Aquilo era exatamente o que eu estava pensando.

— Por isso estamos aqui.

MK ergueu o copo.

— Pela nova geração.

Alexandre pegou uma garrafa sobre a mesa.

— Pela nova geração.

Bati meu copo no deles.

— Pela nossa família.

Os três brindamos.

Por alguns segundos, parecia que nada poderia quebrar aquele momento.

Até meu celular vibrar.

Olhei para a tela.

Número desconhecido.

Ignorei.

O aparelho vibrou novamente.

Dessa vez, atendi.

— Fala.

Ninguém respondeu.

Apenas uma respiração pesada.

— Quem está falando?

Então uma voz masculina surgiu do outro lado.

Baixa.

Fria.

— Aproveita sua última noite tranquila, JN.

Meu corpo inteiro ficou alerta.

— Quem é você?

A ligação caiu.

— O que aconteceu? — MK perguntou imediatamente.

Mostrei o celular.

Alexandre ficou sério.

— Conhece o número?

— Não.

— O que ele falou?

Olhei para os dois.

— Disse para eu aproveitar minha última noite tranquila.

O sorriso desapareceu do rosto de MK.

Alexandre ficou imóvel.

Por alguns segundos, só ouvimos a música do baile.

Então MK falou:

— Isso não foi uma ameaça qualquer.

— Eu sei.

Levantei-me.

Olhei para o Vidigal lá embaixo.

A comunidade continuava dançando.

As luzes continuavam acesas.

As pessoas continuavam vivendo.

Mas alguma coisa havia mudado.

Eu sentia.

Meu pai passou anos construindo aquele império.

Meu tio, meus amigos, nossos homens e nossas famílias carregavam histórias que eu conhecia desde criança.

Agora era a minha vez.

Só que eu estava começando a entender uma coisa.

A coroa que eu estava prestes a receber não vinha sozinha.

Ela vinha acompanhada de sangue.

De lealdade.

e traições.

Olhei para MK.

Depois para Alexandre.

— A partir de hoje, ninguém anda sozinho.

Os dois assentiram.

— Ninguém mexe com nossas famílias — continuei. — Ninguém toca em quem é nosso.

MK abriu um sorriso perigoso.

— Agora você está falando como chefe.

Alexandre colocou a mão sobre meu ombro.

— Então vamos mostrar para eles quem é a nova geração.

Olhei novamente para o Vidigal.

Meu Vidigal.

Ainda não oficialmente.

Mas em meu coração, eu já sabia.

A partir daquela noite, tudo seria diferente.

Porque meu pai tinha me entregado uma herança.

E alguém, em algum lugar, acabara de deixar claro que estava disposto a tirá-la de mim.

O jogo tinha começado.

E eu não pretendia perder.

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