LOGINO ar no subsolo do Hotel Rosewood era gélido. Na sala de monitoramento das câmeras, as telas de alta definição mostravam cada ângulo do salão nobre e dos corredores das suítes.Enquanto a equipe médica particular de Arthur prestava os primeiros socorros a Clara na suíte presidencial — administrando o reagente para neutralizar o sedativo de ação rápida —, Gabriel permanecia debruçado sobre a bancada do sistema de segurança. Os seus olhos repassavam os códigos de acesso e os registros dos servidores do hotel com uma agilidade fruto do seu treinamento técnico em TI.— Ramos, me dê o relatório do sinal do rádio do garçom que o meu pai pegou — pediu Gabriel, a voz firme e sem o vacilo de outrora.— O equipamento era um modelo criptografado, Sr. Gabriel — respondeu o chefe da segurança, aproximando-se. — Sem identificação de frequência registrada na lista do evento.Gabriel não hesitou. Ele conectou o seu próprio notebook à central do hotel e começou a rodar um script de varredura de dados
O brinde na varanda do Rosewood parecia o fecho de ouro para uma noite impecável. As luzes de São Paulo piscavam no horizonte enquanto o som abafado da orquestra tocava ao fundo.Levei a taça de cristal aos lábios, tomando um gole demorado do champagne gelado. O sabor era frutado, mas deixou um retrogosto sutilmente amargo no fundo da garganta, algo que atribuí ao safra antiga da bebida.— Você está distante, minha rainha — disse Arthur, a sua voz grave ressoando perto da minha orelha enquanto ele me puxava para mais perto.— Apenas admirando a vista — respondi, tentando sorrir, mas uma onda repentina de calor subiu pelo meu pescoço.Menos de dois minutos se passaram quando a minha visão começou a embaçar ligeiramente nas bordas. O chão da varanda pareceu oscilar sob os meus saltos. Um suor frio cobriu a minha testa e o meu coração começou a disparar em um ritmo desordenado e anormal.A taça de cristal escorregou dos meus dedos dormentes, chocando-se contra o piso de mármore e estilha
O Salão Nobre do Hotel Rosewood, no coração pulsante de São Paulo, brilhava sob a luz majestosa de imensos lustres de cristal Baccarat. O teto alto, trabalhado em afrescos clássicos e detalhes em ouro, refletia a opulência do evento que parou a elite financeira do país. A festa daquela noite não celebrava apenas mais um trimestre de lucros; marcava a consolidação definitiva do Grupo Vance como o maior e mais impenetrável conglomerado de tecnologia, defesa e finanças de toda a América Latina.A grande porta dupla de carvalho entalhado se abriu com imponência. No instante em que pisamos no recinto, uma tempestade cega de flashes disparou quase em simultâneo. Dezenas de fotógrafos e jornalistas credenciados pela imprensa internacional disputavam cada ângulo da nossa entrada.Caminhei ao lado de Arthur, sentindo a firmeza e o calor do braço dele sustentando o meu. Eu vestia um longo vestido de alfaiataria em tom verde esmeralda escuro, desenhado sob medida com uma fenda profunda na perna
Três semanas após a assinatura do acordo de cooperação, o clima no quadragésimo andar da Vance Enterprises era de uma eficiência renovada. As manchetes sobre a derrota da Aegis e a prisão definitiva de Helena no circuito europeu já haviam sido absorvidas pelo mercado financeiro, dando lugar às notícias sobre o crescimento recorde das ações do Grupo Vance.Eu estava na minha nova sala de Vice-Presidência, analisando o plano de expansão para o setor de inteligência artificial da empresa, quando a porta foi aberta com duas batidas leves.Gabriel entrou.Ele usava um terno cinza discreto, sem ostentações, e carregava uma pasta de couro simples. O olhar arrogante deu lugar a uma postura respeitosa. Ele ocupava agora um cargo técnico no departamento de análise de riscos, longe do conselho executivo, mas sob a supervisão direta da minha equipe.— Clara, com licença — disse ele, parando diante da minha mesa. — O relatório de auditoria dos ativos repatriados da Suíça está concluído. Conforme o
O dia seguinte começou com um céu limpo sobre a capital paulista. No prédio do Foro Central da Justiça Federal, no centro de São Paulo, o movimento dos advogados de terno escuro e pastas de couro era constante.Na sala de reuniões privada do terceiro andar, o silêncio era absoluto.De um lado da mesa de jacarandá, o Dr. Silveira, chefe do departamento jurídico da Vance Enterprises, organizava os documentos do acordo de colaboração premiada. Do outro lado, Gabriel estava sentado, trajando uma camisa social simples que a nossa equipe lhe enviara pela manhã. O rapaz mantinha os olhos fixos na mesa, sem coragem de encarar a porta.A porta abriu-se devagar.Arthur entrou na sala. A presença do CEO fez o ar no cômodo pesar instantaneamente. Vindo logo atrás dele, vestindo um terno sob medida em tom creme e mantendo a postura serena de quem controlava cada detalhe daquela operação, posicionei-me ao seu lado.Gabriel enrijeceu o corpo. A respiração do jovem ficou curta quando o olhar cinzento
A chuva fina que começava a cair sobre a Avenida Paulista não conseguia diminuir o clima quente dentro da suíte da presidência na Vance Enterprises.Arthur permanecia em pé diante da grande janela de vidro, com as mãos afundadas nos bolsos da calça social. A postura dele era de uma rigidez quase monumental. Quando a porta de jacarandá da sala se abriu e eu entrei, o som dos meus saltos fez o CEO virar o rosto devagar. Os olhos cinzentos dele vieram de encontro aos meus, carregados de uma tempestade contida.— Você esteve na Polícia Federal — disse ele. Não era uma pergunta; era uma constatação baseada no relatório que Ramos já lhe enviara. A voz dele era um sussurro grave, perigosamente calmo. — Foi ver o Gabriel.Caminhei em direção a ele sem hesitar, desfazendo o nó do meu sobretudo e colocando-o sobre o sofá.— Fui, Arthur — respondi com a voz serena, mantendo o olhar fixo no dele. — Fui dar ao seu filho a única oportunidade que ninguém na vida dele se deu ao trabalho de oferecer:







