LOGIN— Tio, por favor.A voz de Garry ecoou dentro do quarto.Pela primeira vez desde o início de seu cativeiro, havia medo verdadeiro em seus olhos.Donatus estava perto da porta, dando instruções aos homens enquanto vários guardas se movimentavam rapidamente pelo prédio.A atmosfera havia mudado completamente.A rotina calma que existira durante dias havia desaparecido.Agora, todos pareciam tensos.Com pressa.Garry sabia o motivo.Sabia que alguma coisa havia acontecido.Desde o momento em que Donatus recebeu aquela ligação mais cedo, ele entendeu que alguém havia descoberto alguma coisa.— Por favor, pare com essa loucura — disse Garry novamente.Donatus finalmente olhou para ele.Por um breve instante, Garry viu exaustão no rosto do homem mais velho.Então ela desapareceu, substituída por uma determinação teimosa.— É tarde demais para isso.Garry balançou a cabeça.— Não. Não é.Sua voz ficou mais firme.— Pelo menos ninguém morreu ainda.O homem mais velho soltou uma risada amarga.
As palavras caíram pesadas.Donatus ficou imóvel.Garry continuou:— E mesmo que você se recuse a aceitar isso, o que Cassienne tem a ver com tudo? O que o filho que ela carrega tem a ver com isso? O que Tina tem a ver com isso?Ao mencionar Tina, a expressão de Donatus mudou.Garry percebeu.— Você tentou matar ela.Donatus não respondeu.— Esse silêncio já é resposta suficiente.— Ela sabia demais.— Ela estava com medo — rebateu Garry. — Ela ligou para Dreston porque eu disse para procurar ajuda. Você transformou ela em alvo porque deixou de ser conveniente para você.Os olhos de Donatus escureceram.— Isso é maior do que Tina Freshman.— Não — disse Garry. — É menor do que você pensa.Aquilo chamou a atenção do homem mais velho.Garry baixou a voz.— Você fica tentando chamar isso de vingança, legado, justiça e lealdade à família.Deu um passo à frente.— Mas tire tudo isso e o que sobra?Seu olhar endureceu.— Um velho amargurado que perdeu o irmão e decidiu que o mundo inteiro d
Do lado de fora do Vinhedo Richardson, tudo parecia calmo e tranquilo.A primeira luz da manhã se espalhava pelos campos amplos, tocando as fileiras de videiras com um brilho dourado e suave.De longe, a propriedade parecia pacífica.Quase bonita.Parecia o tipo de lugar onde famílias ricas realizavam degustações privadas, assinavam contratos caros e fingiam que o dinheiro antigo não escondia segredos enterrados debaixo dele.Mas, bem no interior de um dos prédios particulares, longe da casa principal da propriedade, Garry Richardson estava sentado sozinho.O cômodo onde era mantido era grande o bastante para ser confortável.Mesmo assim, cada canto lembrava a ele que conforto não era liberdade.As cortinas permaneciam fechadas.As portas eram vigiadas.Seu telefone havia sido tomado dias atrás.Dois homens ficavam do lado de fora da entrada o tempo todo.E, embora fossem educados o suficiente para não tocar nele sem necessidade, Garry sabia exatamente o que aconteceria se tentasse sa
Joseph Tremont finalmente deixou a residência de Emily carregando muito mais do que um dispositivo de armazenamento.Ele carregava culpa.Do tipo que se acomodava pesadamente sobre os ombros de um homem e se recusava a ir embora.Durante anos, Joseph havia se convencido de que fizera o que precisava ser feito.A Auralink estava sob ataque.Os investidores haviam entrado em pânico.A mídia havia sido implacável.Naquela época, ele fora obrigado a tomar decisões difíceis.Era isso que dizia a si mesmo.Agora, depois de assistir às gravações de Ethan Rhodes, todas aquelas justificativas pareciam vazias.A verdade era simples.Ethan pediu ajuda.E Joseph não escutou.O pensamento permaneceu com ele durante todo o trajeto por Lisbourn.Por fim, o veículo entrou na entrada privativa da residência dos Simpson.A casa se erguia orgulhosamente atrás de elegantes portões de ferro.Joseph já havia visitado aquele lugar muitas vezes ao longo dos anos.Mas, naquele dia, tudo parecia diferente.Ele
A sala permaneceu em silêncio por muito tempo depois que a segunda gravação terminou.Nem Joseph nem Emily conseguiram dizer nada.O laptop continuava sobre a mesa entre os dois, esperando que a última gravação fosse aberta.De repente, Joseph se sentiu mais velho do que se sentia havia anos.Não por causa da idade.Mas pelo arrependimento.Cada gravação parecia arrancar mais uma camada da história em que ele havia acreditado durante décadas.E cada camada revelava a mesma coisa.Ethan Rhodes havia dito a verdade.Joseph passou lentamente as mãos pelo rosto.Então olhou para Emily.— Você assistiu a tudo isso antes?Emily assentiu.— Muitos anos atrás.Joseph engoliu em seco.— Sozinha?Um pequeno sorriso apareceu nos lábios dela.Um sorriso triste.— Não havia mais ninguém.A resposta doeu mais do que Emily provavelmente imaginava.Porque lembrou Joseph de algo que ele havia passado anos evitando encarar.Emily carregara tudo aquilo sozinha.A verdade.O sofrimento.A vergonha.As ac
Nem Joseph nem Emily falaram por vários minutos depois que a gravação anterior terminou.O silêncio dentro da sala parecia pesado.Sufocante.Anos de perguntas finalmente começavam a receber respostas.Infelizmente, cada resposta parecia abrir uma nova ferida.Joseph se recostou no sofá.Sua mente continuava repetindo as palavras de Mike Richardson.Se Ethan não entregar por vontade própria, nós vamos obrigá-lo.A frase se recusava a deixá-lo.Porque agora ele sabia exatamente o que Mike quis dizer.Emily pegou o laptop em silêncio.Seus movimentos estavam calmos e cuidadosos, como alguém que já havia revivido aqueles momentos vezes demais.— Tem mais.Joseph olhou para ela.Então assentiu.Não tinha certeza se queria ver mais.Mas sabia que precisava.Emily abriu outra pasta.Uma data diferente apareceu.Mais recente.O dia em que tudo mudou.Por um breve momento, os dedos de Emily permaneceram parados sobre o touchpad.Então ela apertou play.A gravação começou.No início, a imagem







