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Capítulo 3

Autor: Gato BB
Levantei a cabeça e vi uma garota parada à porta, ao lado de Augusto.

Ela parecia delicada e frágil, despertando compaixão à primeira vista.

Era Heloísa.

Ela piscou na nossa direção e falou com suavidade:

— O Augusto me trouxe para almoçar aqui. Vocês não se importam, né?

Augusto respondeu por mim:

— Quanto mais gente, melhor. Ela não vai se importar.

Antes mesmo que eu pudesse dizer qualquer coisa, ele já tinha levado Heloísa para a sala.

Do começo ao fim, não lançou um único olhar na minha direção.

Cheguei a ficar sem saber se ele simplesmente continuava me ignorando, como sempre fazia, ou se ainda estava irritado porque, ontem, eu não escondi meu descontentamento.

Bianca foi logo atrás, toda animada, segurando a partitura, e parou ao lado do sofá, olhando para Augusto com expectativa.

— Papai, eu aprendi uma música nova no piano. Posso tocar para você ouvir?

Augusto passou a mão na cabeça dela, satisfeito.

— Claro que pode.

Bianca, radiante, ajeitou a partitura.

Heloísa também se aproximou.

— Essa música eu já aprendi antes. Que tal a gente tocar juntas para o seu pai ouvir?

Bianca franziu a testa, mas, antes que pudesse recusar, Heloísa já tinha se sentado no banco do piano, empurrando ela para o lado.

Nesse instante, ao se levantar, Heloísa esbarrou sem querer no vaso sobre a mesa.

O objeto caiu no chão, espalhando estilhaços de porcelana por toda parte.

Bianca deu um passo para trás, mas acabou cortando o pé em um dos pedaços.

Augusto reagiu por instinto e estendeu o braço para proteger Heloísa.

O corpo dele se colocou à frente dela, e a roupa acabou puxando as partituras apoiadas no piano, que se espalharam pelo chão.

Heloísa olhou para Augusto, e as lágrimas começaram a cair imediatamente.

— Augusto...

Ele segurou Heloísa de imediato e começou a falar em voz baixa para acalmar ela.

Ao ouvir o barulho do vaso quebrando, saí depressa da cozinha.

— Bianca, você está bem?

Me agachei para ver como ela estava.

Um corte tinha se aberto no pé, e o sangue começou a aparecer.

— Está sangrando. Vou levar você para cuidar disso.

— Não precisa, mamãe. Não dói. Foi só um corte pequeno.

Bianca abriu um sorriso comportado, depois se curvou e pegou o lápis de desenho favorito, que estava escondido debaixo das partituras.

Aquele lápis tinha sido um presente de Augusto, trazido de uma viagem de trabalho.

Ela sempre tratou como um tesouro e usava apenas ele quando desenhava.

Agora, o lápis estava encharcado com a água do vaso, e o corpo dele tinha vários riscos deixados pelos cacos de porcelana.

As lágrimas de Bianca não conseguiram se conter e caíram uma a uma sobre o lápis.

— Foi o papai que me deu esse lápis. Ele disse que eu tenho talento para desenhar e que queria que eu fizesse muitos desenhos bonitos com ele, mas agora ele estragou...

Justamente por ser um presente do pai, Bianca sempre teve um cuidado extremo ao usar o lápis, desenhando com todo o carinho.

Agora, ele tinha sido danificado sem querer pelo próprio pai e por Heloísa.

Para ela, era como se algo muito importante dentro do coração tivesse se quebrado.

As lágrimas dela queimaram o meu peito, a ponto de faltar ar.

Puxei ela para os braços e abracei com força.

— Não tem problema. Eu vou dar um jeito de consertar. Depois de arrumar, vai ficar tão bom quanto antes.

Foi nesse momento que Augusto e Heloísa se aproximaram.

Ao nos ver, Heloísa falou, com culpa estampada no rosto:

— Me desculpa mesmo. Eu esbarrei no vaso sem querer. A Bianca se machucou?

Só então Augusto pareceu lembrar da filha.

A expressão dele mudou de repente.

— Você está bem?

— Se a Bianca tivesse se machucado de verdade, agora já seria tarde demais para perguntar. Você pode gostar de quem quiser, mas ela é sua filha. Não faça diferença entre uma e outra.

Ele me encarou, com a testa ainda mais franzida.

— Papai, eu estou bem. — Bianca sorriu, puxando a barra da minha roupa. — Estou com um pouco de fome. Mamãe, vamos comer.

Talvez por culpa, Augusto pegou Bianca no colo e levou até a mesa.

Ela ficou muito feliz.

Os pratos eram todos coisas que nós duas gostávamos de comer.

Heloísa ficou olhando para a mesa cheia de comida, sem saber por onde começar.

Augusto acabou comentando:

— Valentina, a Heloísa tem alergia a ovo e não come comida apimentada nem azeda. Vá fazer mais dois pratos para ela.

Se fosse antes, eu teria obedecido sem questionar.

Além disso, a mesa sempre foi montada de acordo com as preferências dele e de Bianca.
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