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Capítulo 2

Autor: Clara Monteiro
— Está bem, eu sei que você gosta de mim. Vejo você à noite. Primeiro, vou levar Larissa para casa.

A voz de Felipe me tirou daquelas lembranças insuportáveis.

Ele desligou o telefone e, num instante, dentro do carro, restou apenas o som da nossa respiração.

Depois de alguns segundos, Felipe foi o primeiro a falar:

— Você deve estar com fome. Vamos comprar aquele bolo que você mais gosta e, depois, eu levo você para casa.

O tom dele era doce, como se nada tivesse acontecido. E, justamente por isso, eu, com os olhos vermelhos e o corpo inteiro tremendo, parecia ainda mais ridícula.

— Felipe, por que você fez isso comigo? Você disse que ia me valorizar pelo resto da vida.

Minha voz saiu rouca, e as lágrimas, inúteis, começaram a cair.

Desta vez, porém, Felipe não as enxugou com aquele cuidado de antes.

Ele se recostou de lado no banco, com um sorriso que mal podia ser chamado de sorriso.

— Larissa, se você tivesse me escolhido da primeira vez, talvez eu realmente tivesse valorizado você pelo resto da vida. Mas agora? Você se divorciou e depois se casou comigo. Com que direito eu deveria me guardar só para você? — Depois de dizer isso, me estendeu um lenço de papel como quem fazia uma concessão.

Eu, porém, recuei de repente, olhando para ele como se estivesse diante de um demônio.

Nós estudamos juntos na faculdade. Anos atrás, ele e Eduardo se declararam para mim ao mesmo tempo.

Naquela época, eu escolhi Eduardo. Felipe me deu os parabéns com educação e, depois do casamento, também mantive distância dele.

Até que Eduardo me traiu. Eu não suportei o golpe e tentei me matar cortando os pulsos.

Foi então que Felipe apareceu de repente na minha vida, como alguém enviado para me salvar. Ele me ajudou a me reerguer e me trouxe de volta à vida.

Ao me lembrar de tudo o que ele havia feito por mim, perguntei, desesperada:

— Se você se importava tanto com isso, por que voltou para a minha vida? Por que ficou comigo?

Nossos olhos se encontraram, e Felipe soltou um suspiro.

— Eu achei que não me importava. Mas, quando começamos a organizar o casamento... — Ele me encarou e sorriu, entre a dor e a irritação. — Você fazia tudo com habilidade demais. Na sessão de fotos, sabia negociar o preço com o fotógrafo. Ao comprar as alianças, sabia que era melhor comprar também uma aliança reserva para a cerimônia, caso a original se perdesse. Ao registrarmos o casamento, você nem precisou pesquisar para saber que roupa usar...

Quanto mais Felipe falava, mais seu semblante escurecia.

— Cada coisa que você fazia deixava claro, de um jeito que me feria, que eu estava me casando com uma mulher que outro homem não quis mais. Larissa, eu não consegui engolir isso.

As lágrimas embaçaram meus olhos. Eu já não enxergava direito, mas ouvia com ainda mais nitidez.

— Mas eu amo você. Então, já que você passou um ano casada com Eduardo, eu também vou me permitir um ano de liberdade antes de voltar a ser um marido fiel. É justo, não é?

Senti o rosto esquentar. Pisquei com força, e uma lágrima caiu sobre a mão de Felipe. Ele recolheu a mão como se tivesse se queimado.

— Não é justo! Se isso incomodava você, podia ter me dito, em vez de me trair depois de me salvar! Felipe, eu quero me divorciar de você!

Eu gritei, sentindo uma dor tão intensa que parecia me partir por dentro.

Ele apenas me encarou, frio. Só depois que terminei de desabafar, ele falou, como se estivesse tendo pena de mim:

— Nós já estamos casados. O que é justo ou não já não cabe a você decidir. Divórcio? Nem pense nisso. Se consegue aceitar, aceite. Se não consegue, aguente. — Assim que terminou de falar, Felipe parou o carro, abriu a porta do meu lado de repente e me empurrou de leve para fora. — Você, desse jeito, está acabando com a minha paciência. Reflita bem sobre isso.

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