INICIAR SESIÓNA primeira discussão sobre a mudança foi causada por um sofá que nenhum dos dois amava.Helena estava no apartamento de Augusto numa quarta-feira à noite, sessenta e dois dias antes da entrega das chaves, quando perguntou:— Você vai levar isso?Augusto olhou para o sofá.Depois para ela.— O sofá?— Sim.— Você está apontando para ele.— Eu sei.— Então por que perguntou “isso” como se fosse um animal morto?Helena sentou numa das pontas.O sofá era grande.Cinza.Confortável.Caro o suficiente para que Augusto provavelmente soubesse a marca e Helena preferisse nunca perguntar.— Ele é muito... você.— Não sei se isso é ofensa ao sofá ou a mim.— Aos dois um pouco.Augusto aproximou a cadeira.— O que exatamente há de errado?Helena olhou.— Nada.— Excelente argumento.— Esse é o problema.— O sofá não ter defeito?— Ele parece escolhido por alguém que pediu “um sofá bom” e comprou o primeiro que passou numa avaliação técnica.Augusto ficou em silêncio.Helena estreitou os olhos.—
A árvore era maior ao vivo.Helena percebeu antes de desligar o carro.O tronco grosso subia perto do muro lateral e se abria sobre boa parte do quintal da frente, lançando sombra sobre a calçada e metade do telhado. As raízes tinham levantado um trecho pequeno do piso junto ao canteiro. Não parecia elegante. Não parecia planejada.Parecia antiga.Augusto olhou pela janela.— Você vai dizer.Helena ainda segurava o volante.— Não vou.— Está pensando alto.— Não estou falando.— Seu rosto—Ele parou.Os dois ficaram em silêncio.Helena virou devagar.Augusto fechou os olhos.— Não aconteceu.— Quase.— Reflexo antigo.— Grave.Ele apontou para a casa.— Vamos entrar antes que eu perca direitos civis.Era quinta-feira.Dezoito e quatro.Tinham chegado cedo de novo.Dessa vez, Denise já os esperava junto ao portão.A corretora carregava uma pasta fina e um molho de chaves.— Boa notícia — disse assim que se aproximaram. — O proprietário autorizou as medidas completas.Helena saiu do car
Denise mandou as medidas na segunda-feira às oito e treze.Helena estava terminando café no posto quando o telefone vibrou.Porta principal: 92 cm.Portas das suítes: 82 cm.Banheiro maior: porta 86 cm, área livre lateral ao vaso aprox. 95 cm.Box tem pequeno ressalto de 2 cm.Entrada principal nivelada.Garagem com piso regular e acesso interno sem degrau.Abaixo, seis fotografias.Helena abriu.Casa térrea.Fachada simples.Telhado baixo.Um pequeno jardim na frente.Sala com duas janelas grandes.Cozinha clara, sem ilha monstruosa ocupando metade do espaço.Dois quartos maiores.Um terceiro pequeno o bastante para Davi considerar violação de direitos fundamentais.E, ao fundo, uma varanda estreita com um quintal que parecia caber dentro de uma tarde.Helena ampliou a fotografia da cozinha.Clara passou atrás.Voltou dois passos.— É casa?Helena bloqueou a tela.— Você está ficando invasiva.— Isso é sim.— É uma que a corretora vai mostrar.Clara sorriu.— Bonita?Helena ficou em
Helena descobriu quanto dinheiro tinha numa terça-feira à noite.Não aproximadamente.Não no sentido de saber o saldo da conta.Quanto podia realmente usar sem transformar uma casa futura numa ameaça presente.Sentou à mesa do apartamento com notebook, extratos, uma folha em branco e a determinação pouco romântica de não mentir para si mesma.Reserva de emergência.Investimentos simples.Dinheiro da conta.Despesas fixas.Aluguel.Transporte.O que ainda precisava manter disponível para viagens de trabalho não reembolsadas imediatamente.Um valor que reservava para Gabriel embora ele não soubesse e provavelmente reclamasse se descobrisse.Helena olhou para aquela linha durante alguns segundos.Não apagou.Continuou.Às nove e dez, chegou a um número.Ficou olhando.Depois fez novamente.Mesmo resultado.Com pequena margem de diferença.— Certo.A cozinha não opinou.O telefone estava virado para baixo.Augusto sabia que ela faria as contas naquela noite.Não tinha pedido atualização.
Helena disse agora numa quinta-feira às cinco e doze da tarde.Augusto estava no apartamento dela, sentado à mesa ruim que ainda não tinha sido substituída. Helena acabara de fechar o notebook depois da quarta reunião do primeiro mês do ciclo de implementação.Nenhum drama.Nenhum novo município transformando orientação em mandamento.Dois ajustes de fluxo.Uma visita marcada para a semana seguinte.Carga real dentro do combinado.O espaço vazio do calendário não tinha desaparecido.Só ganhara quatro pequenos quadrados ocupados.Helena ficou alguns segundos olhando para a tela desligada.Augusto percebeu.— Terminou?— O mês.— E?— Funciona.— O ciclo?— Na minha vida.Ele esperou.Helena fechou o notebook.— Agora.Augusto franziu a testa.— Agora o quê?Ela olhou para ele.— Podemos começar.Silêncio.Augusto não perguntou se ela tinha certeza.Isso já era alguma coisa.— A procurar?— A procurar onde procurar.Ele sorriu.— Isso foi cuidadosamente específico.— De propósito.Não a
Helena começou a semana na fazenda descobrindo que acordar ali numa segunda-feira era muito diferente de acordar ali num domingo.No domingo havia café demorado.Cecília aparecendo sem avisar.Davi correndo pelo corredor quando passava o fim de semana.Uma sensação vaga de que a estrada podia esperar.Na segunda, o despertador tocou às cinco e vinte.Helena abriu um olho.A escuridão do quarto continuava completa.— Não — murmurou.Augusto, ao lado, não se mexeu.Ela estendeu a mão até o telefone.Cinco e vinte.Aquilo parecia uma informação moralmente ofensiva.O segundo alarme tocaria cinco minutos depois.Helena desligou os dois.Sentou na cama.Augusto falou, ainda de olhos fechados:— Bom dia.Ela virou.— Você estava acordado?— Desde o primeiro.— E fingiu?— Achei que era mais seguro.— Foi.A primeira noite tinha sido fácil.Ela chegara no domingo à tarde com uma mala menor que a da semana no apartamento, porque voltaria para a cidade na sexta.Cinco noites.Trabalho normal.







