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Capítulo 2

Author: Peachy
Do outro lado, houve silêncio.

Eu podia ouvir vozes abafadas no escritório de Orion, o arrastar de uma cadeira. Ele claramente estava em uma reunião. Minha ligação havia interrompido algo importante.

— Reunião encerrada — disse Orion, baixa e autoritária. — Todos para fora.

Os passos se afastaram. Uma porta se fechou. Agora, éramos apenas nós dois.

— Três anos, Aurelia — a voz de Orion soou gelada. — Três anos desde que você transformou os Moretti em seus inimigos para proteger aquele bastardo. E agora você liga? Só se lembra do meu nome quando o mundo está desmoronando ao seu redor?

Fechei os olhos, com as memórias voltando como uma enxurrada.

Crescemos juntos. Orion sempre estava logo atrás de mim, como um cavaleiro leal protegendo sua princesa. Ele até recusou a Harvard Business School para me seguir até a mesma universidade.

Mas tudo o que eu queria, naquela época, era escapar da minha família, fugir de um destino que já estava traçado para mim. Eu me apaixonei por Vittorio, o homem que fazia meu coração disparar.

Na noite da nossa formatura, Orion confessou seu amor.

— Aurelia, case-se comigo. Você sabe que é tudo o que eu sempre quis… estou disposto a—

Mas eu o interrompi. Fui cruel.

— Nunca vou me casar com você, Orion. Nunca.

Ouvi dizer que ele bebeu até perder a consciência naquela noite. Disseram que ele vagou pelas ruas de Chicago até o amanhecer.

— Sim — admiti em voz baixa, meu tom vazio. — Estou em apuros.

— Hah — Orion zombou. — A princesa da Família Rossi finalmente admite que escolheu o homem errado?

— Apostei em um vira-lata, achando que era um rei — disse, com a voz oca. — Eu estava errada.

A linha ficou em silêncio por alguns segundos. Eu podia sentir seu choque. Sua… mágoa?

— Mas… — continuei, enquanto uma onda de cansaço me atingia. — Se você não estiver interessado, apenas esqueça o que eu disse. O pedido de casamento foi só uma ideia maluca.

Me movi para desligar.

— Não ouse desligar na minha cara — a voz de Orion estalou, como uma ordem que não deixava espaço para discussão. — Reabra nossos canais seguros. Todos eles. Agora.

Fiquei paralisada.

— Me mande sua localização. Em um mês, eu mesmo vou te buscar. — Sua voz suavizou, mas a ameaça ainda estava ali. — Aurelia. Você não pode voltar atrás. Não desta vez.

Ele desligou.

Me sentei na beira da cama, o telefone escorregando dos meus dedos. Fui até a penteadeira e abri a gaveta de baixo. Lá dentro, estavam as fotos secretas que eu tirei de Vittorio e os diários que escrevi enquanto estava apaixonada por ele. Três anos de amor não correspondido. Três anos de ilusões.

Peguei tudo e caminhei até o jardim.

As chamas devoraram as fotos e minhas palavras tolas. O brilho alaranjado era uma pira funerária para a garota que eu costumava ser.

— O que você está queimando?

A voz de Vittorio veio atrás de mim.

Não me virei.

— Algumas cartas antigas.

— Que tipo de cartas precisam ser queimadas? — ele se aproximou, tentando ver o que havia no fogo.

Nesse momento, a voz chorosa de uma mulher cortou o ar.

— Vittorio! — Carina gritou, correndo em nossa direção, com os olhos arregalados e cheios de lágrimas. — Me desculpa! Foi um acidente!

Vittorio imediatamente se esqueceu de mim e correu até Carina.

— O que aconteceu?

— Eu… eu esbarrei naquele quadro sem querer — Carina soluçou, apontando para a escadaria. — O vinho tinto caiu nele. Manchou o rosto da Aurelia. Eu realmente não quis fazer isso!

Meu coração pareceu ser esmagado.

Eu mesma pintei aquele retrato. Levei três meses. Como Vittorio se recusou a tirar fotos de casamento, aquela era a única forma que eu tinha de guardar uma lembrança nossa. Era a única coisa em toda a casa que provava que nosso casamento era real.

— O quadro… está em um lugar tão ruim — Carina choramingou. — Eu tropecei, e o vinho… Meu tornozelo já está inchando.

Eu queria defender o quadro, dizer que ele estava ali há três anos sem causar problema algum.

Mas Vittorio já estava pegando Carina nos braços.

— Shhh, está tudo bem. É só um quadro — ele murmurou, puxando-a para perto. — Esqueça o quadro. Seu tornozelo está bem? Vamos chamar um médico.

Ele se virou para um dos seus homens que estava por perto.

— Queime — ordenou ao soldado, com a voz fria como gelo. — Está atrapalhando.
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