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Capítulo 3

Author: Peachy
As chamas devoraram minha pintura.

Três meses de trabalho, três anos de prova transformados em cinzas.

Fiquei ali, observando o fogo alaranjado lamber a tela e consumir a imagem de nós dois abraçados. Meu coração doía com uma dor surda, mas eu não chorei.

Eu sabia que seria assim. Essa sempre foi a escolha de Vittorio.

— Aurelia… — Vittorio disse, fazendo uma pausa enquanto carregava Carina ao passar por mim. — Você está bem?

— Estou bem — minha voz estava tão calma que me surpreendeu. — O tornozelo da Carina é mais importante.

Ele me encarou, claramente sem esperar que eu estivesse tão quieta.

— A propósito, como Carina voltou da Europa, ela deveria ficar aqui por um tempo — disse, me virando para encará-los. — Vou colocá-la no quarto de hóspedes ao lado do seu. Eu me mudo para o andar de baixo.

Nos braços de Vittorio, Carina levantou a cabeça. Um lampejo de triunfo passou por seus olhos antes de ser substituído por gratidão.

— Aurelia, você é tão gentil… Não vou ficar muito tempo. Vou me mudar assim que encontrar um lugar.

Vittorio me encarou, com uma expressão complicada.

— Tem certeza?

— Tenho.

Virei-me e desci as escadas. Ouvi a voz baixa de Carina atrás de mim.

— Vittorio, acho que a Aurelia não está feliz…

— Ela vai entender — a voz de Vittorio soou cansada.

Uma hora depois, eu estava arrumando minhas coisas no pequeno quarto do andar de baixo quando a porta se abriu. Vittorio estava na entrada, com o rosto fechado.

— Chega dessa encenação, Aurelia — ele disse por fim. — Se está com ciúmes, diga logo. Pare de se torturar com esse papel de mártir.

Continuei dobrando minhas roupas sem parar.

— Eu sei que você odeia dormir sozinha — a voz dele suavizou, com um traço de culpa. — Você não precisa fazer isso. Ainda somos casados, Aurelia. Este ainda é o seu quarto.

Minhas mãos pararam.

Era verdade. Por três anos, Vittorio me deu o respeito que uma esposa merecia. Ele entrava na minha cama depois de uma noite de bebedeira e me acordava com beijos que pareciam cheios de amor. Naqueles momentos, eu achava que poderíamos durar para sempre.

Mas, no segundo em que Carina aparecia, eu sempre ficava em segundo lugar.

— Sinto muito pelo quadro — Vittorio disse, aproximando-se e estendendo a mão para me abraçar. — Eu estava com pressa. Não pensei nos seus sentimentos.

Desviei do abraço.

— Não estou com ciúmes, Vittorio — disse suavemente. — Só acho que preciso de uma pausa, principalmente depois de levar um tiro. Está na hora de passar algumas das minhas responsabilidades.

O rosto de Vittorio esfriou.

— Como quiser. — Ele se virou para sair, então pareceu se lembrar de algo. — A propósito, que documentos eram aqueles que você me fez assinar esta tarde?

Um pequeno sorriso tocou meus lábios.

— Apenas um pequeno presente. Pelo nosso terceiro aniversário.

A expressão de Vittorio suavizou. Ele se aproximou e acariciou meu rosto.

— Aurelia — murmurou. — Eu sei que ter ela aqui é difícil para você. Mas você é minha esposa. Uma boa esposa. Eu não vou te decepcionar.

A voz dele era gentil, mas eu ouvi o que ele realmente queria dizer.

Carina era temporária. Assim que ele quitasse sua dívida com ela, compensaria comigo.

Pena que eu não queria mais nada disso.

— Eu entendo — assenti.

Vittorio soltou um suspiro de alívio, beijou minha testa e saiu do quarto.

Era meia-noite quando fui brutalmente arrancada da cama.

O rosto de Vittorio era uma tempestade, sua raiva fervendo e havia intenção de matar em seus olhos.

— Suba. Agora.

Ele me arrastou escada acima e escancarou a porta do seu quarto.

Na cama, Carina estava corada, respirando com dificuldade. Seu cabelo grudava na pele suada, seus olhos estavam enevoados e seu corpo tremia incontrolavelmente.

Quando nos viu, ela se encolheu como um cervo assustado.

— Vittorio… eu estou me sentindo tão estranha… tão quente… — sua voz era um sussurro ofegante, carregado de uma necessidade desesperada, quase instintiva.

Vittorio se virou para mim, com os olhos em chamas.

— O que você deu para ela beber?

— Eu não dei nada a ela — respondi calmamente. — Foi ela quem quis abrir aquela garrafa de Romanée-Conti. Eu também bebi. Por que estou bem?

— Porque isso é a sua especialidade, não é? — Vittorio rosnou, agarrando meus ombros. — Truques sujos. Foi assim que você me colocou na sua cama desde o começo!

Aquelas palavras foram uma faca, direto no meu coração.

Eu me lembrei daquela noite, três anos atrás. Recebi informações de que alguém faria um movimento contra Vittorio em um cassino privado. Não consegui contatar meus homens. Não consegui falar com ele. Ninguém sabia do desespero que senti ao correr até lá, apenas para encontrá-lo drogado com um afrodisíaco.

No desespero, eu me entreguei a ele. Chorei quando ele me tomou. Não sei se foi porque meu sonho havia se realizado ou porque eu estava apavorada com o que viria depois.

Nunca imaginei que ele acordaria e olharia para mim com tanto ódio.

Assim como agora. Ele sempre acreditou que fui eu quem armou tudo. Que ele era a vítima.

— Vittorio, por favor, não a culpe… — Carina disse fracamente, mas seu corpo se contorcia, um gemido suave escapando de seus lábios. De repente, ela pegou um isqueiro da mesa de cabeceira, sua mão tremendo ao acendê-lo.

— Eu não aguento essa sensação… — ela soluçou, encostando a chama trêmula na própria pele. — Não serei um fardo… Não vou deixar você sacrificar sua honra por mim…

O cheiro de pele queimada tomou o quarto. Carina gritou de dor, mas seus olhos carregavam um estranho alívio.

— Carina! — Vittorio avançou, arrancando o isqueiro de sua mão. Ele encarou a marca vermelha e inflamada em seu braço, e seu rosto se endureceu em decisão.

— Eu vou te ajudar.
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