Se connecterO calor do fogo na lareira tornava a cabana aconchegante enquanto Helena mexia uma panela de ferro sobre as chamas. O cheiro de ervas e legumes cozinhando preenchia o ar, e o suor já umedecia sua nuca. Cozinhar era uma tarefa simples, mas necessária, e ela se permitia aproveitar o momento em silêncio.
Foi então que ouviu os animais. O balido alto das cabras, o mugido aflito de Branca e os grunhidos nervosos dos porcos. Seu coração acelerou. Esse tipo de alarde nunca era bom sinal.
Limpando as mãos no avental, Helena se dirigiu à porta, o corpo tenso. Pegou uma faca que sempre deixava por perto—não que ela soubesse lutar, mas a mera sensação de ter algo nas mãos lhe dava uma falsa segurança. Respirou fundo antes de puxar a tranca e abrir a porta.
O que viu fez seu estômago se revirar.
Um homem estava parado ali, oscilando entre um passo e outro, como se o próprio corpo estivesse prestes a ceder. Ele era imenso—assustadoramente alto e absurdamente forte, mesmo com a armadura rachada e os ferimentos cobrindo sua pele. Sangue escorria de cortes profundos, misturando-se à sujeira e ao suor. Os cabelos escuros estavam embaraçados, grudados ao rosto pálido e marcado pela exaustão.
Helena sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Um aviso? Um presságio? Não soube dizer. Tudo o que sabia era que algo dentro dela reconhecia aquele homem antes mesmo que ele dissesse uma palavra.
Mas ele não disse nada.
Antes que ela pudesse reagir, os joelhos do guerreiro cederam e ele tombou para frente. O impacto sacudiu o chão, levantando poeira e fazendo a terra tremer sob seus pés.
Helena recuou um passo, os olhos arregalados.
O que, em nome dos deuses, ela faria agora?
Helena ficou paralisada por um instante, o coração martelando no peito. O homem parecia mais uma montanha caída do que um ser humano. A luz bruxuleante da lareira iluminava sua expressão tensa enquanto ela hesitava entre dar meia-volta e se trancar dentro de casa ou se aproximar daquela massa de músculos e sangue estirada à sua porta.
— Maldição… — murmurou, ainda sem saber exatamente para quem a praga era dirigida.
Ela olhou ao redor, como se esperasse que alguma força invisível lhe dissesse o que fazer. Mas não havia ninguém. Só ela e aquele gigante desacordado.
Suspirando, Helena se abaixou ao lado dele, tocando com hesitação seu ombro. A armadura estava fria e úmida de sangue.
— Pelo menos não fede a morte… ainda — murmurou, franzindo o nariz.
Ele precisava de ajuda, e ela sabia disso. Mas como, pelos deuses, ela levaria aquele monstro de homem para dentro?
Helena se levantou, passou as mãos nos quadris e inspirou fundo.
— Certo, Monstro, ou seja lá qual for o seu nome, vamos tirar você daqui antes que algum lobo decida que encontrou um banquete fácil.
Com um suspiro resignado, ela pegou os braços dele e tentou puxá-lo. Não conseguiu nem movê-lo um centímetro.
— Mas que droga… você é feito de pedra?!
Soltando um resmungo, ela se abaixou de novo e tentou empurrá-lo de lado, na esperança de pelo menos tirá-lo da posição completamente esparramada no chão. Nada.
— Eu consertei um teto inteiro sozinha, cavei um poço, construí essa cerca… e agora um homem me vence sem nem estar consciente? — resmungou, ofegante.
Helena parou, as mãos nos joelhos, e olhou para ele. Se tentasse arrastar o guerreiro pela armadura, provavelmente acabaria arrancando um dos próprios braços antes de movê-lo.
Uma ideia terrível lhe ocorreu.
— Isso vai ser humilhante…
Bufando, Helena correu até o curral e voltou com um pedaço de corda resistente. Amarrou as extremidades nos punhos do guerreiro e fez um laço grande o suficiente para passar pelos próprios ombros.
— Muito bem, grandalhão… agora somos um só nessa desgraça.
Ela se inclinou para frente e começou a puxar com toda a força. Suas botas se cravaram na terra enquanto ela avançava centímetro por centímetro, arrastando Monstro aos trancos e barrancos.
— Anda, seu brutamontes ingrato! — resmungava, sentindo os músculos queimarem. — Podia pelo menos colaborar e ser um pouco menos... pesado?!
Foi então que a corda escorregou de seu ombro e ela caiu de cara no peito dele.
— ARG! — Helena se afastou rápido, resmungando. — Ótimo. Agora eu estou me jogando em cima de homens inconscientes.
Finalmente, depois de mais esforço e reclamações, conseguiu arrastá-lo para dentro.
Helena caiu sentada ao lado dele, ofegante, suada e coberta de poeira.
— Se sobreviver, você me deve uma cabra nova.
Ela se levantou, jogou a corda de lado e se inclinou para olhar o rosto dele. Agora que a luz da lareira o iluminava, pôde ver melhor os traços dele. Mesmo ferido e sujo, era… bonito. Perigosamente bonito.
— Isso não vai acabar bem para mim… — murmurou, antes de buscar os panos e ervas para começar a cuidar dele.
Três luas haviam passado desde a fuga.O tempo, tão cruel outrora, agora era gentil. Já não os perseguia — apenas os embalava, dia após dia, como um velho amigo. A primavera havia florescido inteira sobre as colinas da nova terra, e a brisa que descia do alto trazia o perfume de lavanda, hortelã e terra molhada.A nova casa se erguia sólida no alto de uma elevação suave, cercada por campos verdes e uma floresta distante ao fundo. Era grande, feita de pedras claras e vigas firmes de madeira escura. Dois andares, quatro janelas na frente, uma varanda larga com bancos de madeira, onde o vento dançava com as cortinas leves. O telhado era inclinado, coberto por telhas vermelhas queimadas de sol, e chaminés lançavam para o céu espirais de fumaça suave, com cheiro de pão assando.Ao lado da casa, um grande curral coberto, dividido em alas para cada tipo de animal. Os cavalos tinham baias espaçosas e limpas, com feno fresco empilhado nos cantos. As galinhas ciscavam livres em um cercado abert
A estrada se alongava diante deles, serpenteando entre colinas douradas e campos silvestres. O cavalo trotava devagar, como se também sentisse o cansaço que pesava nos corpos de Helena e Tristan. Eles haviam deixado para trás o mundo que os feriu — a vila, as chamas, os gritos. Agora, seguiam em direção ao desconhecido. Mas o desconhecido não os assustava mais. O passado havia queimado, e com ele, parte das correntes que os prendiam.A brisa era diferente naquela nova terra. Trazia o perfume das flores do campo e de árvores que Helena não reconhecia. As cores pareciam mais vivas ali — o céu mais azul, a relva mais verde. Talvez fosse apenas o alívio, a liberdade pintando o mundo com tintas mais suaves.Tristan cavalgava em silêncio, o olhar atento à estrada. Mas de tempos em tempos, seus olhos deslizavam para Helena, que segurava firme sua cintura, o rosto apoiado nas costas dele. Estava pálida, os traços marcados pelo trauma recente, mas havia serenidade em seus olhos, como se a próp
O mundo parecia suspenso no tempo enquanto o casal cavalgava lentamente pela estrada de terra batida. O céu estava tingido de tons suaves de cinza e azul, como se o próprio horizonte estivesse em silêncio, respeitando a dor e o alívio que os dois carregavam nos ombros. A floresta já havia ficado para trás, e agora o caminho se abria em campos ondulados, pontilhados por flores silvestres que dançavam ao vento.Tristan segurava as rédeas com firmeza, mas seus olhos estavam pesados. As mãos estavam marcadas de sangue seco, os músculos doíam como se cada nervo do corpo tivesse sido retorcido. Helena se apoiava contra ele, os braços ao redor de sua cintura, tentando absorver dele um pouco da força que sempre a salvara — mas também querendo dar a ele um pouco da sua.O silêncio entre eles não era vazio. Era cheio de significados, de memórias recém-gravadas e feridas ainda abertas.Quando finalmente pararam sob a sombra de uma árvore frondosa, ambos desceram do cavalo com dificuldade. Helena
A vila estava em ruínas.O céu parecia desabar em cinzas, o fogo consumindo o que um dia fora lar, mercado, capela. O estalo das chamas misturava-se aos gritos dos feridos, ao ranger de madeira cedendo, ao tilintar de espadas ainda em choque por aqui e por ali. O caos reinava — um caos sem glória, nascido do ódio, da injustiça e da retribuição.Tristan segurava Helena firme contra si enquanto avançavam pelas ruas sujas de sangue e fuligem. Ambos estavam cobertos de marcas — cortes, fuligem, poeira — mas vivos. Vivos e juntos.— Por aqui! — gritou Bryn ao longe, abrindo passagem entre destroços com sua lâmina. — A trilha leste está livre!Tristan montou rapidame
A vila ardia em sombras e fumaça.Casas fechadas, portas escancaradas com pressa, barris tombados, sangue misturado à lama — tudo era sinal da guerra silenciosa que se espalhava como praga. Os gritos haviam diminuído, mas o ar ainda tremia com a tensão de algo prestes a explodir.Padre Mathias corria por vielas estreitas, a batina rasgada pela pressa, o rosto suado e manchado de fuligem. Seus olhos se reviravam de um lado para o outro como os de um rato encurralado.— Eles vão me matar… eles vão me matar… — murmurava para si, tropeçando nos próprios pés.Passou por trás da capela, onde alguns fiéis mortos jaziam. Evitou olhar. Sua fé agora era apenas medo. Fé de que pudesse escapar.Mas o destino já o observava.
A multidão rugia como um mar em fúria. Gritos e vaias se erguiam na praça, o cheiro de fumaça já presente no ar. No centro, a estrutura da fogueira se erguia como um altar grotesco — troncos empilhados, trapos embebidos em óleo, cordas apertadas com brutalidade. E ali, amarrada, com os cabelos desgrenhados e a pele suja de terra e sangue seco, estava Helena.Os olhos dela varriam a multidão com um desespero surdo. O coração batia tão alto que era como se o mundo inteiro ouvisse. Mas ninguém ouvia. Ninguém via. Para eles, ela não era Helena. Era um monstro. Uma bruxa. Um espetáculo.O padre Mathias erguia os braços e gritava passagens sagradas, cuspindo condenação entre cada palavra.— Qu







