LOGINA menina não aceitava o remédio.Nyra começara a levar mel para misturar.Mara aproximou-se mais um pouco.— Depois disseram que você...Parou.O ambiente inteiro pareceu prender a respiração.Evelyn esperou.Mara baixou os olhos.— Disseram que você tinha traído Valcrest.Silêncio.Theron fechou os olhos por um instante.Evelyn olhou para aquela mulher.Não sentiu raiva dela.Mara não estivera no Conselho.Não segurara provas.Não decretara exílio.Era apenas uma pessoa recebendo aquilo que lhe haviam contado.— Disseram muitas coisas.Mara ergueu os olhos.As lágrimas voltaram.— Eu nunca acreditei.Evelyn ficou em silêncio.— Minha filha também não.A mulher apertou a cesta.— Ela dizia que uma pessoa ruim não voltava três dias seguidos para convencer uma criança teimosa a tomar remédio.Darek desviou o rosto.Tina olhou para Evelyn.Evelyn sentiu a garganta fechar.Mara examinou a capa.O broche.Os homens de Asterion.Depois olhou novamente para ela.— E agora chamam você de rain
Dentro, grandes estantes estavam parcialmente vazias.Sacos de grãos ocupavam uma das paredes.Caixas.Barricas.Pouco para o tamanho da região.Ward começou a anotar.— Quanto resta?O homem respondeu.Evelyn fez contas mentalmente.— Isso não dura duas semanas.— Com racionamento—— Não dura.Ele calou-se.Evelyn abriu um dos registros.Números.Famílias.Distribuições.Reduções graduais.— Estão diminuindo as porções?— Sim.— Desde quando?— Há quase dois meses.— E as crianças?— Têm prioridade.— Idosos?— Também.Evelyn fechou o livro.— Então quem perde primeiro?O administrador demorou.— Adultos sem dependentes.Darek, que havia entrado atrás deles, olhou para algumas caixas.— E quando acabar?Ninguém respondeu.Evelyn já sabia.A fila continuaria.Só que não haveria nada para entregar.Ela virou-se para Ward.— Quanto dos carregamentos previstos para amanhã conseguimos antecipar?Ward ergueu os olhos.— Parte dos grãos já está em território de Asterion próximo à rota norte
Evelyn voltou ao palácio com poeira nas botas e o gosto das lágrimas ainda preso à garganta.Ninguém tentou conversar durante o caminho.Darek permaneceu alguns metros à frente.Tina cavalgava ao lado dela.Ward vinha atrás, silencioso demais até para os próprios padrões.Evelyn agradeceu por isso.Não queria perguntas.Não queria consolo.Não queria ouvir que tudo ficaria bem.Algumas coisas não ficavam bem.Algumas coisas apenas aprendiam a morar dentro de uma pessoa sem matá-la.Quando atravessaram novamente os portões de Valcrest, ela não olhou para as torres.Não procurou Theron.Não procurou ninguém.Desmontou.Entregou as rédeas.Subiu para o segundo andar.Entrou no quarto.Fechou a porta.E ficou parada.Sozinha.Por alguns segundos, a imagem do batente voltou inteira.As marcas.Um ano.Três.Cinco.Sete.Dez.Quinze.O pequeno lobo torto entalhado pelo pai.Evelyn apertou os olhos.Não.Já chorara.Já gritara.Já prometera.Agora precisava continuar.Tomou banho.A água esc
Ela passou a ponta do dedo sobre a marca.Uma lembrança atravessou sua mente.Elowen mandando que ficasse reta.Nyra reclamando que a mãe apertava demais o cabelo contra o batente.Garrick segurando um pedaço de carvão.— Pare de levantar o calcanhar.— Não estou levantando.— Está tentando ganhar altura.— Isso é mentira.— Sou comandante. Sei reconhecer fraude.Elowen rira.Nyra discutira.Garrick fizera a marca.E depois...Evelyn encontrou o entalhe.Pouco acima das últimas linhas.Um pequeno lobo.Não perfeito.As patas eram grandes demais. A cabeça torta. Uma das orelhas parecia maior que a otra.Garrick havia feito aquilo. Evelyn lembrava.Tinha nove anos. Reclamara porque uma amiga possuía um desenho bonito perto das marcas de altura.Garrick dissera que faria algo melhor.Elowen observara o resultado e perguntara:— Isso é um lobo?Garrick parecera ofendido.— Claro que é um lobo.— Parece um cachorro mal alimentado.Nyra rira tanto que sentara no chão.Garrick passara a tard
A antiga propriedade dos Everhart ficava longe do centro de Valcrest.Não isolada.Mas distante o suficiente para que o barulho da cidade desaparecesse aos poucos e desse lugar a estradas mais estreitas, terrenos amplos e árvores antigas que cresciam em ambos os lados do caminho.Evelyn conhecia aquela estrada.Ou acreditava que conhecia.Oito anos mudavam muita coisa.O mato havia avançado sobre as laterais.Algumas pedras que delimitavam a antiga passagem estavam cobertas por musgo.Árvores que antes eram podadas regularmente agora cresciam sem controle, lançando galhos sobre o caminho.O silêncio parecia maior do que deveria.Tina cavalgava alguns metros atrás dela.Darek vinha do outro lado.Ward seguia mais distante, acompanhado por dois homens de Asterion.Nenhum deles perguntara nada desde que Evelyn dissera para onde queria ir.Não precisavam.Ela não falava.Mantinha os olhos na estrada. As mãos firmes nas rédeas. A expressão controlada.Por dentro, alguma coisa se apertava a
— Nossas famílias sustentam Valcrest há gerações.— O Conselho precisa participar.— Isso ultrapassa—Theron fechou os olhos por um instante.Dentro dele, o lobo continuava recolhido.Ferido.Distante.A barulheira aumentou.Uma voz sobre a outra.Malrik levantou-se.— Theron, pense antes de—Foi o bastante.A criatura dentro dele se moveu.Não voltou completamente.Não abriu a mente para Theron.Não respondeu.Apenas se irritou.A aura atravessou o salão.Pesada.Violenta.Repentina.As vozes morreram.Cadeiras rangeram.Alguns homens prenderam a respiração.Outros baixaram os olhos por puro instinto.A pressão lupina ocupou o ambiente por poucos segundos.Não tinha a força devastadora da noite anterior.Não precisava.Era Theron.Era o Supremo.Era o lobo dizendo ao mundo inteiro que já havia escutado o suficiente.Evelyn ficou imóvel.Sentiu aquilo atravessá-la.Conhecia aquela presença.Conhecera durante anos.Quando eram mais jovens, a loba dela respondia imediatamente.Às vezes







