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Capítulo 2

Author: BNLabaig
last update publish date: 2026-11-01 02:23:53

Conrado Windsor

Por um instante, Helena ficou suspensa contra meu peito, com uma das mãos agarrada à lapela do meu paletó. O vento havia se encarregado de enrolar o vestido em suas pernas, e eu a segurava pela cintura para impedir que terminasse de cair escada abaixo.

Quando ergueu o rosto, nossos olhos se encontraram.

De perto, ela era ainda mais bonita do que eu imaginara. Seus olhos carregavam uma mistura de raiva e tristeza, e havia algo naquela expressão que despertou minha curiosidade. Helena parecia determinada a me odiar antes mesmo de me conhecer.

Curioso. Eu sequer havia feito alguma coisa para merecer aquilo. Ainda.

"Você costuma recusar ajuda e depois cair nos braços de quem a oferece?", perguntei, com um sorriso de canto.

O rosto dela corou.

"Eu não caí nos seus braços de propósito."

"Uma pena." Ampliei o sorriso. "Eu poderia começar a acreditar que minha esposa está interessada em mim."

"Não sou sua esposa por escolha."

Meu sorriso desapareceu por um instante.

Eu sabia que aquele casamento não havia sido exatamente uma decisão romântica, mas ouvi-la dizer aquilo com tanta firmeza produziu um efeito inesperado. Ainda assim, não pretendia demonstrar.

"Eu sei."

Não fiz perguntas sobre o homem que acabara de abandoná-la. O olhar que Helena lançara ao carro antes de ele desaparecer já havia me contado o suficiente para que eu entendesse que aquela história era mais do que eles queriam transparecer.

Coloquei-a de pé com cuidado, mantendo uma das mãos em sua cintura até ter certeza de que recuperara o equilíbrio.

"Consegue andar sozinha ou devo carregá-la para dentro?"

"Nem pense nisso."

"Ótimo. Minha reputação agradece. Seria bastante constrangedor se nossa primeira aparição juntos terminasse com você me acusando de sequestrá-la escadaria acima."

Os lábios dela se contraíram, como se estivesse lutando contra a vontade de sorrir. A expressão durou pouco, mas não passou despercebida.

Eu havia conseguido arrancar uma reação que não fosse raiva. Por algum motivo, gostei disso.

Inclinei-me, aproximando os lábios de seu ouvido.

"Se pretende me odiar, senhorita Gryepe, fique à vontade. Só peço que faça isso com mais afinco. Estou desconfiado de que você já caiu no meu charme."

"Que absurdo! Isso é ridículo. Nem nos conhecemos, como pode fazer isso?"

Ela me empurrou e se endireitou, ajeitando o vestido com uma indignação que quase me fez rir.

Quase.

"Você tem razão", respondi, recuando um passo. "Talvez eu deva me apresentar formalmente. Conrado Windsor, seu marido indesejado. É um prazer conhecê-la."

"Não posso dizer o mesmo."

Helena passou por mim e entrou na mansão sem esperar por uma resposta.

Observei-a atravessar o vestíbulo, ainda com o queixo erguido e os ombros rígidos. Ela não aceitou minha mão quando a ofereci, não tentou conquistar minha simpatia e tampouco demonstrou interesse pela casa onde acabara de entrar.

Eu esperava uma mulher diferente. Talvez alguém ambiciosa o bastante para compreender as vantagens de se tornar uma Windsor. Helena, porém, parecia ter sido arrancada de algum lugar contra a própria vontade.

Isso não significava que eu confiava nela.

Meses antes, documentos confidenciais sobre meus projetos de monitoramento climático haviam desaparecido da empresa. As informações roubadas poderiam comprometer pesquisas importantes, e as pistas apontavam para alguém próximo aos círculos empresariais que disputavam espaço conosco. Os Gryepe estavam entre os suspeitos. O casamento me daria a oportunidade de observar Helena de perto e descobrir se sua família estava envolvida.

Entrei atrás dela, dispensando os funcionários que ainda nos olhavam com curiosidade.

"Pode se sentar", ordenei, indicando o sofá.

"Estou bem."

Olhei para os pés dela. Desde que entrara na mansão, Helena tentava disfarçar o modo como apoiava o peso do corpo em uma das pernas. Eu havia percebido a maneira como seu passo vacilara na escadaria, antes de ela se jogar para longe dos meus braços como se meu toque fosse uma ofensa.

"Seu pé está doendo."

"Não está."

"Então não vai se importar se eu pedir que caminhe até aqui sem mancar."

Ela estreitou os olhos.

"Você é sempre tão desagradável ou está fazendo um esforço especial para me receber?"

"Depende. Você pretende continuar mentindo para mim?"

Helena soltou um suspiro irritado, mas acabou se sentando na ponta do sofá.

"Torci o pé. Não é nada demais."

"Deveria ter começado por aí."

"Não sabia que precisava apresentar um relatório médico ao meu marido."

"Não precisa. Mas seria conveniente se minha esposa parasse de fingir que não sente dor."

Ela abriu a boca para responder, mas desistiu e desviou o olhar.

Peguei a pasta sobre a mesa de centro.

"Precisamos resolver os documentos antes de você subir. Chamarei um médico para dar uma olhada em você assim que acabarmos aqui."

"Não precisa. É o contrato do casamento?"

"Eu decido sobre isso. É o contrato e outras condições. Você terá seus próprios aposentos, privacidade e liberdade para circular pelas áreas comuns. Porém meu escritório é restrito."

"Não pretendo invadir seu escritório."

"Fico aliviado, mas não acredito."

Ela quase respondeu à provocação, mas sua expressão se fechou novamente.

"Mostre onde assino."

Girei o contrato na direção dela e indiquei a linha destinada à assinatura. Helena pegou a caneta e assinou rapidamente, como se cada segundo naquela sala fosse uma afronta.

Quando terminou, puxei os documentos de sua mão.

O papel deslizou contra sua palma.

Ela soltou um pequeno som de dor e recolheu a mão. Uma linha vermelha apareceu na pele, logo abaixo dos dedos. O corte não era profundo, mas o sangue começou a escorrer até seu pulso.

Larguei a pasta sobre a mesa.

"Merda."

"Não é nada. Deixe-me ir para meu quarto."

Me levantei e chamei o mordomo.

"Traga o estojo de primeiros socorros. Agora."

"Não precisa", protestou Helena. "Eu consigo cuidar disso."

"Não foi uma pergunta."

Ela apertou a mão contra o vestido, tentando esconder o sangue. O gesto só conseguiu manchar o tecido branco.

"Excelente", comentei. "Você é mesmo desajeitada. Achei que quase cair na entrada fosse um truque, mas agora vejo que..."

Ela me encarou, indignada.

"Não termine essa frase. Foi você quem puxou o papel. Poderia ter deixado que eu o colocasse na mesa primeiro. O que é, tem medo de eu voltar atrás?"

"Achei que estivesse com pressa em se recolher. Agora o médico terá duas coisas para resolver, senhora Windsor." Os lábios dela se abriram e comemorei por dentro.

"Não me chame assim."

Não consegui impedir o sorriso.

"E vou te chamar do quê? Segundo esse papel, agora você é minha." Seus olhos se estreitaram, e ela apertou os pulsos ainda mais.

"Helena, me chame apenas de Helena."

"Claro, Helena."

O mordomo voltou com o estojo. Coloquei-o sobre a mesa e estendi a mão em sua direção.

"Mostre."

Helena escondeu a palma atrás do corpo.

"Eu disse que estou bem."

"Eu ouvi. Agora me dê a mão."

"Não sou uma das pessoas que trabalham para você. Não pode simplesmente dar uma ordem e esperar que eu obedeça."

Inclinei-me um pouco, mantendo os olhos nos dela.

"Não. Você é minha esposa. E não vou ficar sentado vendo você negligenciar um ferimento por puro orgulho."

"Ser sua esposa não lhe dá direitos sobre meu corpo."

Sustentei o olhar dela por um instante, contendo o sorriso que ameaçava surgir.

"Esse contrato me dá exatamente isso. Direito ao seu corpo, querida Helena."

A indignação surgiu imediatamente em seus olhos. Como eu esperava, ela puxou a mão de trás das costas e tentou me acertar no rosto.

Fui mais rápido e segurei seu pulso antes que o tapa me atingisse. Helena era destra. Portanto, aquela era justamente a mão que eu suspeitava que estivesse escondendo.

Meu truque funcionara.

"Seu..."

"Agora que finalmente resolveu me mostrar a mão, podemos cuidar desse ferimento?"

Segurei seus dedos com cuidado e apoiei a palma ferida sobre a minha.

"Se doer, avise."

"Não preciso da sua preocupação."

"Ótimo. Assim não vai se sentir obrigada a agradecer."

Molhei uma gaze e limpei o sangue. Ela estremeceu quando o antisséptico tocou o corte e tentou puxar a mão de volta.

Segurei-a antes que conseguisse.

"Fique quieta. Já está quase acabando."

"Eu posso fazer isso sozinha."

"Eu sei, mas também posso."

"Você é detestável."

"Descobrirá o quanto nos próximos dias."

Ela ergueu os olhos. Por um instante, ficamos perto demais, as mãos unidas entre nós e a provocação suspensa no silêncio.

De perto, percebi que seus dedos tremiam. Não sabia se era por causa da dor ou de tudo o que havia acontecido naquela manhã. Também não sabia por que me incomodava vê-la tentando esconder o sofrimento como se demonstrar fraqueza fosse uma derrota.

Eu tinha motivos suficientes para desconfiar dela. Não deveria haver espaço para compaixão, muito menos para aquela vontade absurda de aliviar seu desconforto.

Terminei de limpar o corte, apliquei uma pomada e envolvi sua palma com uma faixa fina. Só então soltei sua mão.

"Evite molhar o curativo por algumas horas."

Helena recolheu os dedos imediatamente.

"Obrigada", murmurou.

"De nada, senhora Windsor."

Ela me lançou um olhar capaz de cortar mais do que o papel.

"Meu quarto está pronto?", perguntou, ignorando minha resposta.

"Está. O mordomo vai acompanhá-la."

Ela se levantou. Antes de sair, porém, voltou-se para mim.

"Não pense que cuidar de um corte vai mudar o que eu sinto por você."

"Não sou tão emocionado assim."

"Ótimo."

"Embora eu esteja começando a suspeitar que você gosta de discutir comigo."

"Eu preferiria estar em qualquer outro lugar."

O sorriso desapareceu do meu rosto.

"Imagino."

Helena pareceu surpresa com a resposta. Por um breve instante, a raiva cedeu espaço a algo mais vulnerável. Então se virou e seguiu o mordomo escada acima.

Acompanhei-a com os olhos até que desaparecesse no corredor.

Eu ainda não sabia se Helena Gryepe era uma peça inocente no jogo da família ou alguém enviada para se aproximar de mim. Não tinha motivos para confiar nela, muito menos para me distrair com sua beleza.

Ainda assim, lembrava-me perfeitamente da maneira como seus dedos haviam tremido na minha mão e de como tentara esconder a dor para não me dar a satisfação de percebê-la.

Aquela mulher não queria estar na minha casa.

E eu começava a suspeitar de que descobrir por quê seria muito mais complicado do que imaginara.

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