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Helena Gryepe
"Marlon, esse não é o caminho do casamento! O motorista errou. Para onde estamos indo?"
Hoje é o dia do meu casamento com Marlon, por quem eu sou apaixonada desde criança. Apesar de ser sempre a minha irmã quem atrai o olhar dele, finalmente chegou o dia em que ele me pediu em casamento. Não queria que acontecesse nenhum imprevisto.
Meu noivo virou o rosto para mim. O sorriso que surgiu em seus lábios era mais frio do que qualquer um que eu já vira.
"Não me enganei, Helena. O casamento foi transferido para a mansão Windsor."
"Por que é que nós vamos casar no lugar do nosso rival de negócios? Me diga a verdade, o que está acontecendo?"
"Porque quem vai se casar não somos nós, mas vocês."
O mundo pareceu desacelerar.
"O quê? Nós? Do que está falando? Não brinque comigo, Marlon!"
"Helena, hoje você não vai se casar comigo, mas com o Conrado Windsor."
Soltei uma risada nervosa, esperando que ele desfizesse a brincadeira. Marlon não sorriu.
"Isso não tem graça."
"Eu não estou brincando."
Olhei para o vestido branco sobre minhas pernas, para o buquê que segurava e para o anel no meu dedo. Eu havia esperado sete anos por aquele momento. Sete anos amando um homem que sempre encontrava uma razão para adiar nosso futuro. Ainda assim, acreditava que, no fim, ele me escolheria.
"Você me pediu em casamento", sussurrei. "Disse que finalmente poderíamos ficar juntos. Minha família está esperando. Seus convidados também. Passei a manhã inteira me preparando para me casar com você!"
"Eu sei."
"Então pare de brincar e mande o motorista voltar agora mesmo!"
Ele não se moveu. Senti os olhos arderem, mas me recusei a chorar. Precisava entender o que estava acontecendo. A alternativa era aceitar que o homem que eu amava estava destruindo meu sonho sem sequer me explicar por quê.
"Marlon, por favor."
A expressão dele mudou. A frieza cedeu lugar a algo que reconheci como sofrimento. Ele cobriu minha mão com a sua.
"Você acha que eu quero fazer isso? Acha que é fácil entregar a mulher que amo a outro homem?"
Meu coração vacilou ao ouvir aquelas palavras. Era tudo o que eu sempre quis que ele dissesse sem hesitar.
"Marlon..."
"Você sabe o que sinto por você. Se existisse outra saída, eu escolheria. Nunca deixaria que as coisas tomassem esse rumo. Mas há coisas acontecendo que vão muito além das nossas famílias. Se não fizermos isso, as consequências serão irreversíveis."
"Consequências para quem?"
"Para todos nós."
Ele beijou meus dedos. O gesto familiar quase me fez esquecer que eu estava vestida de noiva, a caminho da casa de outro homem.
"Preciso que confie em mim", pediu.
"Então me explique. Podemos fugir, ir embora hoje mesmo. Não precisamos da autorização das nossas famílias. Eu faço qualquer coisa por você. Vamos mudar a rota. Peça ao motorista nos deixar no aeroporto."
"Não posso. Como vai ficar minha consciência depois. Nós dois podemos arrumar isso, Helena. Eu e você."
Ele passou a mão pelo rosto, como se tentasse controlar a própria angústia.
"Desculpe. Eu queria ter outra resposta, mas o que estamos fazendo é maior do que nós dois. Há vidas em jogo, Helena. Um futuro inteiro depende de algumas decisões que precisam ser tomadas agora."
"Que decisões?"
"Não posso te contar. Ainda não."
Afastei o rosto, ferida pela resposta. Ele queria que eu me casasse com um desconhecido e confiasse nele sem saber o motivo.
"Por que eu?", perguntei. "Por que precisa ser comigo? Mariana está em casa, ela é solteira. Por que não ela?"
Marlon desviou os olhos por um instante.
"Porque você é a única pessoa em quem posso confiar para fazer isso. Sua irmã é volátil demais."
Aquelas palavras despertaram em mim uma esperança dolorosa. Se ele confiava em mim, talvez eu ainda fosse especial. Talvez aquilo não fosse o fim, mas apenas uma provação que precisaríamos superar.
"E depois?", perguntei.
"Depois, ficaremos juntos. Para sempre."
"Você promete?"
"Prometo."
"Mesmo depois desse casamento?"
Ele segurou meu rosto entre as mãos.
"Eu vou buscar você, Helena. Case-se com Conrado, conquiste a confiança dele e me ajude a conseguir algumas informações da empresa. Documentos confidenciais, relatórios, qualquer coisa que possa nos ajudar a impedir o que está por vir. Quando tudo terminar, ninguém poderá nos separar."
"Você quer que eu roube informações do Windsor?"
"Quero que salve nossa família."
Ele falou com tanta firmeza que fiquei sem resposta. Eu conhecia a rivalidade entre os Gryepe e os Windsor, sabia que meu pai enfrentava dificuldades, mas nunca ouvira Marlon falar de algo capaz de afetar o mundo inteiro.
"Não sei se consigo."
"Consegue. Você é mais forte do que imagina." Ele beijou minha testa. "Eu estarei esperando por você. Quanto mais rápido conseguir, mais rápido você volta para mim."
As lágrimas finalmente escorreram. Eu faria tudo por ele, mas estava com medo. Não queria abrir mão de tudo que já fiz por ele. Se eu recusasse, talvez... talvez ele deixasse de me amar.
Por isso, fiz o que sempre fiz quando Marlon me oferecia um pouco de afeto em troca de tudo o que eu tinha.
Acreditei nele.
"Está bem", sussurrei. "Eu vou fazer isso."
Ele me abraçou, e me agarrei a ele como se ainda fosse possível transformar aquele dia no casamento que eu havia sonhado.
"Obrigado", murmurou contra meus cabelos. "Você não sabe o que isso significa para mim."
O carro diminuiu a velocidade. Pela janela, reconheci os portões de ferro da mansão Windsor. Não havia flores, convidados ou qualquer sinal de uma cerimônia. Apenas uma casa imponente e funcionários aguardando junto à entrada.
Meu estômago se contraiu.
"Marlon, estou com medo."
Ele soltou minha mão.
"Não demonstre isso a Conrado. Ele é desconfiado. Se perceber que há algo errado, ele pode cancelar tudo."
O carro parou. Marlon saiu primeiro. Esperei que desse a volta para abrir a porta, como fazia nos nossos encontros, mas ele apenas a abriu e estendeu a mão, impaciente.
"Vamos, Helena."
Segurei o buquê e desci. A ponta do vestido prendeu no estribo, e tropecei. O buquê caiu sobre as pedras. Marlon não tentou me amparar.
"Lembre-se do que conversamos", disse. "Não faça nada que desperte suspeitas."
"Você vai ficar para ver como ele vai me receber?"
"Não posso."
"Marlon..."
Ele se aproximou e falou baixo:
"Confie em mim. Eu amo você."
Então se afastou, entrou no carro e foi embora.
Fiquei parada, com o buquê aos meus pés e o vestido branco agitado pelo vento. Quis correr atrás de Marlon, implorar que me levasse embora, mas minhas pernas não obedeceram. Continuei olhando para a estrada vazia, esperando que ele mudasse de ideia, que o carro freasse e ele voltasse para mim.
Não voltou.
"Senhorita Gryepe?"
A voz masculina me fez erguer a cabeça.
Um homem alto, vestido com um terno escuro perfeitamente ajustado, aguardava nos degraus da mansão. Seus cabelos estavam impecáveis, e o rosto de traços marcantes exibia uma tranquilidade quase provocadora. Ele olhou para o carro que desaparecia ao longe e depois voltou os olhos para mim.
Conrado Windsor.
Meu novo futuro marido.
"Imagino que a viagem não tenha sido exatamente como esperava."
A ironia discreta em sua voz me fez apertar os lábios. Eu não sabia se ele estava zombando de mim ou apenas constatando o óbvio. Talvez as duas coisas.
Ele desceu os degraus e estendeu a mão.
"Vamos entrar, Helena. Está frio aqui fora, e eu prefiro conhecer minha esposa antes que ela congele na entrada da minha casa."
O comentário me pegou desprevenida. Havia algo sedutor na maneira como pronunciou a palavra esposa, uma segurança tranquila no olhar que sustentou o meu. Como se aquela situação absurda não o incomodasse nem um pouco.
Recusei sua mão.
Eu não precisava da gentileza dele. Não queria gentileza nenhuma. Queria Marlon.
Ergui o vestido e caminhei em direção à entrada, determinada a não demonstrar fraqueza diante daquele homem. Mas uma rajada de vento atingiu a escadaria, fazendo o tecido se enrolar em minhas pernas. Meu pé prendeu na barra, e perdi o equilíbrio.
Não tive tempo de gritar.
Braços fortes envolveram minha cintura antes que eu atingisse o chão.
Helena WindsorDébora pousou a xícara na mesinha com um movimento brusco."Olha só, Gryepe. E sim, é Gryepe. Você não é uma Windsor e nunca será aos meus olhos."Meu sorriso desapareceu, mas não fiz nenhum movimento para interrompê-la."Vim deixar uma coisa bem clara. Se tentar afastar Conrado dos amigos dele, e de mim, eu não vou deixar barato. Você é uma intrusa, alguém que está com ele apenas porque ele precisava de um contrato. E, para piorar, nem valeu a pena. As informações que sua família passou são ridículas."Ela se inclinou um pouco na minha direção."Então acho bom começar a fazer as malas. Logo, Conrado vai colocar você para fora desta casa e tudo vai voltar ao normal."Não consegui evitar uma risada.Pousei minha xícara na mesinha e a encarei."Quando você diz voltar ao normal, quer dizer você voltar a se jogar para cima dele e ele continuar evitando você? Porque é isso que parece."O rosto dela endureceu."Como é?""Se você está aqui fazendo esse espetáculo, imagino que
Helena WindsorTrês semanas haviam se passado desde o acidente com a sopa, e eu finalmente estava recuperada.As queimaduras tinham cicatrizado bem. Ainda restavam algumas marcas na minha mão e na barriga, mas nada que me impedisse de andar pela casa ou retomar minha rotina.E que rotina maravilhosa eu havia construído!Os funcionários pareciam ter me adotado. Madalena já não me olhava com tanta desconfiança, Jofrey conversava comigo com mais frequência e até os outros empregados haviam deixado de me tratar como uma visita indesejada.Mas a melhor parte eram os momentos com Conrado.Tínhamos criado o hábito de ler juntos, assistir a filmes e conversar sobre assuntos que não envolviam pesquisas climáticas ou previsões de catástrofes. Descobri que ele tinha um humor muito melhor do que demonstrava inicialmente e que gostava de provocar apenas para arrancar uma reação minha.Às vezes, passávamos horas conversando sem perceber o tempo passar.Eu estava amando aquela vida.Naquela manhã, e
Conrado WindsorOs créditos do filme começaram a subir na televisão, mas Helena já havia adormecido fazia algum tempo.Ela estava encolhida contra meu peito, com uma das mãos agarrada à minha camisa e o rosto parcialmente escondido sob meu queixo. De vez em quando, soltava um suspiro tranquilo, completamente alheia ao fato de que eu estava preso naquela posição havia quase meia hora.Peguei o controle remoto com cuidado e desliguei a televisão.Agora precisava sair dali sem acordá-la.Afastei delicadamente alguns fios de cabelo de seu rosto e tentei soltar sua mão da minha camisa. No instante em que me movi, porém, Helena resmungou alguma coisa e apertou os dedos."Não..."Parei.Ela se acomodou novamente, esfregando o rosto contra meu peito."Helena, preciso levantar."Não houve resposta. Apenas um pequeno movimento de cabeça.Tentei outra vez, mas ela agarrou meu braço."Por favor, não vá embora..."Olhei para baixo.Seus olhos continuavam fechados. Ela estava dormindo."Eu só vou p
Helena GryepeEu estava tentando encontrar uma posição confortável entre os travesseiros quando ouvi duas batidas na porta."Entre!"Conrado apareceu carregando a bandeja que Madalena havia preparado. Sobre ela estavam uma tigela enorme de pipoca e duas latas de refrigerante.Meu sorriso surgiu antes mesmo que eu percebesse."E não é que você está mesmo preparado?"Ele fechou a porta com o pé e caminhou até a cama."Esperava que eu aparecesse de mãos vazias?""Não sei. Você não tem cara de quem gosta de uma noite de filmes."Conrado soltou uma risada enquanto colocava a bandeja sobre a mesinha."Posso providenciar alguém melhor, se minha companhia não for suficiente.""Não foi isso que eu quis dizer."Ele pegou o controle remoto."Então, senhora Windsor, qual será nossa programação?"O modo como pronunciou meu novo sobrenome fez meu coração bater um pouco mais rápido. Ainda era estranho ouvi-lo me chamar assim, mas eu gostava. Gostava muito mais do que deveria."Você gosta de filmes d
Conrado WindsorDepois de deixar Helena no quarto, segui para o escritório, que ficava no andar superior da casa.Precisava organizar algumas coisas antes de decidir como conduziria aquela situação.A conversa com ela havia me deixado com mais perguntas do que respostas. Ainda assim, suas observações sobre as alterações climáticas faziam sentido. Eu não podia simplesmente ignorá-las só porque não sabia de onde vinha tanto conhecimento.Sentei-me à mesa, abri meu computador e digitalizei o contrato de casamento que Helena havia assinado. Em seguida, peguei o celular e liguei para Amanda.Ela atendeu no segundo toque."Me ligando na hora do expediente? Não está na empresa?""Não começa, Amanda."Ouvi sua risada do outro lado."Está bem. O que precisa?""Estou enviando o contrato de casamento. Anexe ao processo e solicite as informações que os Gryepe prometeram disponibilizar depois da assinatura.""Finalmente! Quero ver o que esses safados estão escondendo.""Não acho que será nada rele
Helena GryepeConrado continuava sentado diante de mim, esperando uma resposta.Eu sabia que não poderia contar tudo. Não ainda. Se revelasse que já havia vivido aquela catástrofe, teria que explicar como voltei no tempo, como sabia o que aconteceria e, principalmente, como conhecia tantos detalhes sobre ele.Precisava escolher minhas palavras com cuidado."Antes de tudo, você precisa entender que a catástrofe não vai acontecer de uma hora para outra. Haverá uma sequência de alterações climáticas que, isoladamente, podem parecer eventos naturais sem relação entre si."Conrado apoiou os braços nos joelhos."Que tipo de alterações?""Primeiro, as oscilações de temperatura vão se tornar mais frequentes e intensas. Algumas regiões começarão a registrar mudanças bruscas em períodos muito curtos. Depois, teremos alterações na pressão atmosférica que não seguirão os padrões esperados para determinadas épocas do ano."Ele permaneceu atento."Isso já acontece em algumas regiões.""Sim, mas a f







