LOGINHelena Gryepe
Na primeira semana na mansão Windsor, descobri que Conrado tinha o hábito irritante de aparecer quando eu menos esperava.
Naquela manhã, eu atravessava o corredor em direção à biblioteca quando uma folha escapou da pasta que ele carregava e deslizou pelo chão quando ia em direção ao hall. Abaixei-me para pegá-la antes que o papel chegasse aos meus pés.
Foi quando reparei no mapa impresso.
Havia regiões destacadas em vermelho, linhas que atravessavam o oceano e uma série de números acompanhados por datas. No canto superior, li algumas palavras sobre pressão atmosférica e anomalias térmicas.
"O que será que isso significa?" murmurei.
"Seus pais não te ensinaram que não se deve mexer no que não é seu?"
Ergui a cabeça, assustada. Conrado havia voltado e estava parado diante de mim, com uma das mãos estendida para receber a folha.
"Eu ia devolver... eu..."
"Só me entregue, Helena."
Entreguei o papel, mas meus olhos voltaram para o mapa.
"O que é isso?"
"Uma projeção climática."
"Eu sei ler o título. Quero saber o que significa."
Conrado ergueu uma sobrancelha, como se não esperasse aquela resposta.
"Duvido que você entenda se eu explicar."
A maneira como ele disse aquilo me irritou mais do que deveria.
"Grosso. Custa me dizer o que significa? Precisa ser tão arrogante assim?"
"Não tenho tempo para te ensinar climatologia. Tenho certeza de que nunca ouviu falar sobre isso."
"Não, na verdade não estudei nada desde que acabei o colégio. Meus pais diziam que era perda de tempo e dinheiro, mas isso não significa que eu seja incapaz de entender alguma coisa."
As palavras escaparam antes que eu pudesse contê-las. Nunca tinha admitido que não poder estudar em uma faculdade, como Mariana, era uma das minhas maiores tristezas.
Conrado deixou de sorrir. Por alguns segundos, examinou meu rosto antes de voltar a atenção para o documento.
"Essas projeções mostram alterações no clima e ajudam a identificar fenômenos extremos antes que aconteçam."
"Como tempestades?"
"Entre outras coisas. Minha empresa monitora essas mudanças e alerta as regiões que podem ser afetadas, reduzindo o risco de mortes e feridos."
Havia algo diferente em sua voz quando falava sobre o trabalho. A ironia desaparecia, substituída por uma concentração que me fez querer continuar ouvindo.
"Posso ver de novo?"
Ele hesitou por um instante antes de me entregar a folha.
"É complicado no início, mas com o tempo fica mais fácil."
"Deve ser divertido."
Conrado soltou uma risada curta, quase incrédula.
"Divertido é um termo novo para previsões de desastres naturais."
"Não foi isso que eu quis dizer... Deve ser interessante descobrir o que está prestes a acontecer."
Dessa vez, o sorriso dele foi genuíno.
"É exatamente isso que me mantém nesse trabalho."
Ele me mostrou algumas linhas do gráfico e explicou, de maneira simples, como a equipe identificava mudanças nos padrões climáticos. Fiz tantas perguntas que, em determinado momento, Conrado consultou o relógio e percebeu que estava atrasado para uma reunião.
"Preciso ir."
"Mas já? Eu queria saber mais..."
Ele me olhou com uma expressão de surpresa. Até eu mesma fiquei espantada com minha reação. Desde que chegara àquela casa, evitava passar muito tempo na presença dele. Agora, porém, queria conhecer aquele lado pesquisador.
"Vamos ver como vai se comportar quando eu voltar. Se for uma boa esposa, posso pensar no caso."
Piscou para mim e saiu com o documento na mão, como se não tivesse acabado de despertar minha curiosidade.
Fiquei olhando para a porta por alguns segundos, tentando compreender por que aquela conversa havia me deixado tão animada.
Fazia anos que ninguém demonstrava interesse pelas minhas perguntas. Na família Gryepe, eu aprendera a permanecer em silêncio durante as reuniões, sorrir quando necessário e não insistir quando minhas opiniões eram ignoradas.
Conrado, um homem que tinha todos os motivos para desconfiar de mim, havia dedicado parte do seu tempo a explicar seu trabalho.
E eu queria saber mais.
Na segunda semana, encontrei um envelope sobre a mesa do café da manhã.
Dentro havia algumas páginas impressas, gráficos e uma breve descrição de um fenômeno que a equipe de Conrado estava monitorando.
Ele entrou na sala enquanto eu examinava o material.
"Antes que pergunte, não, não estou tentando transformar você em pesquisadora."
"Que pena. Eu estava prestes a pedir um laboratório."
Conrado puxou a cadeira para mim e se sentou à minha frente.
"Minha equipe identificou alterações incomuns na atmosfera. Existe a possibilidade de uma tempestade excepcionalmente violenta se formar nos próximos dias."
Meu sorriso desapareceu.
"Violenta quanto?"
"Ainda não sabemos. Precisamos de mais dados para determinar a intensidade e a trajetória."
"Se vocês já sabem que existe um risco, por que não avisam as pessoas?"
"Porque um alerta precipitado pode provocar pânico. Precisamos ter certeza antes de divulgar uma previsão."
"E se esperarem demais?"
Conrado ficou em silêncio por um instante.
"É exatamente por isso que minha equipe está trabalhando quase sem descanso."
Havia uma seriedade em sua expressão que eu ainda não conhecia. Não era o homem que gostava de me provocar durante o café da manhã, mas alguém que compreendia o peso de uma previsão capaz de afetar milhares de pessoas.
Voltei a olhar para os gráficos.
"Essa região apresenta uma variação muito maior do que as outras."
Ele se inclinou para observar a página que eu indicava.
"Você percebeu isso."
"É o que parece. Mas não entendo por que estão considerando apenas esse período na comparação."
Conrado me explicou rapidamente o motivo e mostrou outro gráfico.
"Precisamos cruzar diferentes informações antes de chegar a uma conclusão."
"Então ainda existe a possibilidade de a previsão mudar?"
"Sim. É por isso que não podemos tirar conclusões precipitadas."
Assenti, tentando guardar o que ele havia explicado.
"Você anda muito paciente, senhor Windsor. Devo me preocupar com tanta gentileza?"
"E quando eu não fui gentil com você?"
A pergunta me desarmou. A resposta veio tão depressa que nem precisei pensar.
Nunca.
Conrado podia me ignorar, mas nunca havia sido grosseiro ou frio comigo. Sempre me tratara com uma cortesia que eu não me lembrava de ter recebido da minha própria família ou do meu noivo.
"Desculpe. Eu só queria agradecer por compartilhar isso comigo. Meus dias têm sido entediantes, e essas conversas são a parte mais interessante deles."
Ele se recostou na cadeira, cruzando os braços. Um sorriso de lado apareceu em seus lábios.
"Devo estar sendo um péssimo marido, já que minha esposa não consegue se divertir nesta casa."
"Só não tenho o que fazer. Você tem empregados para tudo, e metade dos livros da biblioteca eu já li. Então... me julgue."
Conrado gargalhou, e eu adorei aquele som. Meu coração bateu descompassado.
E então ri também.
Pela primeira vez desde que chegara àquela casa, ri sem precisar me lembrar de como deveria me comportar.
A governanta entrou para recolher algumas louças e nos encontrou conversando sobre a tempestade. Ao perceber o material espalhado sobre a mesa, disfarçou um sorriso e saiu sem interromper.
Eu deveria ter me sentido desconfortável.
Em vez disso, continuei olhando para os gráficos até Conrado precisar voltar ao trabalho.
Naquela noite, pedi à governanta alguns livros sobre meteorologia e climatologia. Ela pareceu surpresa, mas providenciou o que conseguiu encontrar na biblioteca da mansão.
Comecei a ler antes de dormir.
Na manhã seguinte, continuei durante o café da manhã.
Quando Conrado perguntou se eu havia entendido alguma coisa dos livros, comecei a explicar uma dúvida que havia surgido durante a leitura.
"Existe uma coisa que não entendi. Se vocês conseguem identificar sinais de mudanças climáticas com tanta antecedência, por que algumas previsões ainda falham?"
Ele pousou a xícara, interessado.
"Porque os modelos trabalham com probabilidades. Nem sempre conseguimos considerar todas as variáveis."
"Então vocês precisam estar preparados para quando os cálculos não correspondem ao que acontece na realidade."
Conrado me observou por alguns segundos antes de sorrir.
"Essa é uma maneira bastante interessante de colocar a questão."
"Foi o que pensei. Talvez eu não entenda muito de climatologia, mas sei que nenhum planejamento funciona se depender de uma única possibilidade."
Ele apoiou os braços sobre a mesa.
"Você tem razão. E essa é uma das maiores dificuldades do nosso trabalho."
Dessa vez, fui eu quem sorriu.
E naquele momento eu não estava apenas ouvindo uma explicação. Conrado estava conversando comigo como se minha opinião realmente tivesse valor.
Conrado WindsorOs créditos do filme começaram a subir na televisão, mas Helena já havia adormecido fazia algum tempo.Ela estava encolhida contra meu peito, com uma das mãos agarrada à minha camisa e o rosto parcialmente escondido sob meu queixo. De vez em quando, soltava um suspiro tranquilo, completamente alheia ao fato de que eu estava preso naquela posição havia quase meia hora.Peguei o controle remoto com cuidado e desliguei a televisão.Agora precisava sair dali sem acordá-la.Afastei delicadamente alguns fios de cabelo de seu rosto e tentei soltar sua mão da minha camisa. No instante em que me movi, porém, Helena resmungou alguma coisa e apertou os dedos."Não..."Parei.Ela se acomodou novamente, esfregando o rosto contra meu peito."Helena, preciso levantar."Não houve resposta. Apenas um pequeno movimento de cabeça.Tentei outra vez, mas ela agarrou meu braço."Por favor, não vá embora..."Olhei para baixo.Seus olhos continuavam fechados. Ela estava dormindo."Eu só vou p
Helena GryepeEu estava tentando encontrar uma posição confortável entre os travesseiros quando ouvi duas batidas na porta."Entre!"Conrado apareceu carregando a bandeja que Madalena havia preparado. Sobre ela estavam uma tigela enorme de pipoca e duas latas de refrigerante.Meu sorriso surgiu antes mesmo que eu percebesse."E não é que você está mesmo preparado?"Ele fechou a porta com o pé e caminhou até a cama."Esperava que eu aparecesse de mãos vazias?""Não sei. Você não tem cara de quem gosta de uma noite de filmes."Conrado soltou uma risada enquanto colocava a bandeja sobre a mesinha."Posso providenciar alguém melhor, se minha companhia não for suficiente.""Não foi isso que eu quis dizer."Ele pegou o controle remoto."Então, senhora Windsor, qual será nossa programação?"O modo como pronunciou meu novo sobrenome fez meu coração bater um pouco mais rápido. Ainda era estranho ouvi-lo me chamar assim, mas eu gostava. Gostava muito mais do que deveria."Você gosta de filmes d
Conrado WindsorDepois de deixar Helena no quarto, segui para o escritório, que ficava no andar superior da casa.Precisava organizar algumas coisas antes de decidir como conduziria aquela situação.A conversa com ela havia me deixado com mais perguntas do que respostas. Ainda assim, suas observações sobre as alterações climáticas faziam sentido. Eu não podia simplesmente ignorá-las só porque não sabia de onde vinha tanto conhecimento.Sentei-me à mesa, abri meu computador e digitalizei o contrato de casamento que Helena havia assinado. Em seguida, peguei o celular e liguei para Amanda.Ela atendeu no segundo toque."Me ligando na hora do expediente? Não está na empresa?""Não começa, Amanda."Ouvi sua risada do outro lado."Está bem. O que precisa?""Estou enviando o contrato de casamento. Anexe ao processo e solicite as informações que os Gryepe prometeram disponibilizar depois da assinatura.""Finalmente! Quero ver o que esses safados estão escondendo.""Não acho que será nada rele
Helena GryepeConrado continuava sentado diante de mim, esperando uma resposta.Eu sabia que não poderia contar tudo. Não ainda. Se revelasse que já havia vivido aquela catástrofe, teria que explicar como voltei no tempo, como sabia o que aconteceria e, principalmente, como conhecia tantos detalhes sobre ele.Precisava escolher minhas palavras com cuidado."Antes de tudo, você precisa entender que a catástrofe não vai acontecer de uma hora para outra. Haverá uma sequência de alterações climáticas que, isoladamente, podem parecer eventos naturais sem relação entre si."Conrado apoiou os braços nos joelhos."Que tipo de alterações?""Primeiro, as oscilações de temperatura vão se tornar mais frequentes e intensas. Algumas regiões começarão a registrar mudanças bruscas em períodos muito curtos. Depois, teremos alterações na pressão atmosférica que não seguirão os padrões esperados para determinadas épocas do ano."Ele permaneceu atento."Isso já acontece em algumas regiões.""Sim, mas a f
Conrado WindsorContinuei olhando para Helena, tentando organizar tudo o que acabara de ouvir.A ligação confirmava minhas suspeitas. A família Gryepe realmente pretendia usar o casamento para conseguir acesso às minhas pesquisas. Marlon Fiore queria que ela me enganasse, roubasse informações e provasse seu amor obedecendo às ordens dele.Era exatamente o tipo de coisa que eu esperava daquela família.Mas, por algum motivo, não era isso que mais me incomodava.Minha atenção voltou para Helena.Ela havia abaixado os olhos e segurava o celular com a mão boa, como se desejasse desaparecer dentro daquela chaise. Não parecia surpresa com as palavras de Marlon. Não demonstrava indignação, nem mesmo revolta. Apenas vergonha.Como alguém podia se acostumar a ser tratado daquela maneira?Aquele homem acabara de chamá-la de inútil, ameaçara abandoná-la e ainda exigira que ela provasse seu amor roubando informações de outro homem.E Helena havia respondido que faria o melhor.Cerrei a mandíbula.
Helena GryepeEncontrei um dos meus livros favoritos na terceira estante, quase no mesmo lugar em que costumava deixá-lo na outra vida.Era um exemplar sobre padrões climáticos e alterações atmosféricas, com algumas páginas marcadas e anotações nas margens. Eu e Conrado costumávamos discutir aquele livro por horas. Às vezes, discordávamos tanto que precisávamos consultar outros estudos para descobrir quem estava certo.Sorri ao reconhecer uma pequena marca na lateral da capa.Era dele.Escolhi uma das chaises próximas à janela e me acomodei com cuidado, procurando uma posição que não pressionasse os curativos. Apoiei algumas almofadas nas costas e deixei as pernas estendidas sobre o estofado.Logo estava completamente mergulhada na leitura.As palavras pareciam me transportar para outro lugar. Eu conhecia boa parte daqueles conceitos, mas ainda gostava de revisitar as explicações, principalmente porque algumas das teorias apresentadas haviam sido aperfeiçoadas por Conrado nos anos seg







