INICIAR SESIÓNSabe aqueles beijos que meio que deixam você com as pernas bambas? Não posso dizer que aquele foi um desses. Porque aquele me deixou com o corpo inteiro bambo.
Tanto que preciso levar as mãos para trás para me apoiar no armário, acabo acertando uma pilha de toalhas e algumas delas despencaram em cima de nós. Uma caiu no meu ombro, outra ficou presa entre nossos corpos e uma terceira acertou a cabeça dele antes de terminar no chão.
Nem assim ele parou. E, pior, nem eu.
Porque depois dos primeiros segundos tentando entender que raios estava acontecendo, comecei a sentir que estava cedendo. Cedendo porque... puta que pariu, a gente tinha química.
Não era uma constatação que eu gostaria de fazer sobre um completo desconhecido que tinha acabado de me arrastar para dentro de um armário, mas meu corpo aparentemente não estava interessado em participar das decisões importantes tomadas pelo meu cérebro. O que, pensando bem, explicava bastante coisa sobre como eu tinha acabado grávida do Beto.
A mão dele continuou firme na minha cintura, a boca se moveu contra a minha com uma segurança irritante, e eu já estava começando a esquecer que havia uma pessoa do outro lado daquela porta quando ela finalmente conseguiu entrar.
— O que porra você acha que está fazendo?
Ele se afastou, nós nos encaramos por um segundo e eu precisei respirar fundo antes de olhar para o homem parado na porta.
— Ah, graças a Deus... — murmurei.
Mas não foi um agradecimento a Deus de “tem um louco me mantendo refém dentro de um armário de toalhas e graças a Deus alguém veio me salvar”. Foi mais um agradecimento a Deus de “alguém me separou desse homem antes que esse beijo virasse outra coisa”.
O que era um pensamento bastante inconveniente, considerando que eu ainda tinha um casamento para destruir na capela ao lado.
Ah, céus. Minha vida estava uma bagunça.
— Não é possível que você realmente esteja colocando tudo a perder por causa de uma desqualificada, Benício!
— Ei! — protestei imediatamente, meio ofendido e meio sem entender direito o que estava acontecendo. — Desqualificada também não, né...
O homem nem sequer olhou para mim.
— Eu avisei, não avisei? Avisei que nunca quis me casar com Camilly — o não-Beto respondeu.
Aliás, Benício. O homem na porta tinha o chamado assim, não tinha? Benício era o nome do não-Beto.
Ótimo. Uma informação útil que teria sido ainda mais útil uns quinze minutos antes, quando eu estava agarrada à gravata dele anunciando uma gravidez que não lhe pertencia.
— E eu avisei que o sucesso da Racing depende do sucesso desse casamento.
Racing? O que era Racing?
— Bom, agora já era. Chiara entrou lá e contou a nossa história para todo o mundo.
— Nossa... história? — perguntei.
Benício passou um braço pela minha cintura e me puxou contra ele.
— Essa é a mulher que eu amo. A mulher da minha vida.
Meus olhos provavelmente se arregalaram mais do que seria considerado normal.
— A mulher da sua vida... sou eu?
— Claro, meu amor.
Olhei de um para outro, extremamente confusa, mas tentando fingir que aquele ainda era só um sábado comum na minha vida.
— Ah, tá. Só para saber, porque... eu meio que preciso ser avisada dessas coisas, né? Então... tá.
Benício apertou minha cintura.
Não sabia se era para eu colaborar ou calar a boca, mas decidi que as duas opções provavelmente serviriam.
— Claro que ela contou tudo de uma forma meio torta — ele continuou. — Porque para ela eu sou só um canalha traidor. Mas você sabe a verdade. Sabe que eu jamais teria abandonado a mulher da minha vida para me casar com Camilly se vocês não tivessem me obrigado a levar a farsa desse casamento para frente.
O homem passou uma das mãos pelo rosto.
— E o que você pretende fazer agora? Porque essa história torta já está na mídia. Amanhã de manhã, em vez do casamento perfeito entre vocês dois, tudo o que vão estar falando é sobre como você enganou duas mulheres.
— Peça ao pessoal de relações públicas para soltar uma nota se retratando. Não é o que eles fazem de melhor? Inventem uma história de amor verdadeiro, destino, segunda chance, qualquer coisa emotiva o suficiente para fazer as pessoas apoiarem o fato de que escolhi ficar ao lado da mulher que vai ter um filho meu.
— Espera aí... O quê?
Tentei me afastar, mas recebi outro apertão na cintura. Ah, então era para calar a boca mesmo. Fiquei caladinha.
— Você pode tentar enganar a imprensa — o homem continuou —, pode tentar enganar os fãs seus e da Camilly, mas como pretende enganar seu avô?
— Não pretendo. Você ouviu. Chiara está grávida. Não é isso que ele queria? Que eu tivesse um herdeiro? Bom, o herdeiro está a caminho.
Herdeiro?
Olhei para minha barriga.
Depois para Benício.
Minha barriga outra vez.
Não.
Definitivamente não.
Aquela criança podia herdar muita coisa. Minha miopia, por exemplo. A tendência do pai a ser um filho da puta, se a genética fosse realmente tão cruel. Mas fosse lá o que o sobrenome daquele homem tivesse para deixar de herança, meu filho não tinha absolutamente nada a ver com aquilo.
— Benício, ainda acho que a melhor opção é você voltar lá dentro e se casar de qualquer forma. Camilly ainda está esperando e...
— Isso não vai acontecer. E você e o conselho não deveriam ter me obrigado a fazer isso desde o começo. Nada disso estaria acontecendo agora se me ouvisse.
Conselho. Avó. Herdeiro.
Eu estava começando a sentir que tinha entrado no meio de uma conversa cuja primeira metade tinha acontecido meses antes e ninguém tinha se preocupado em me mandar o resumo.
O homem soltou um suspiro profundo e, pela forma como falou com Benício, pela intimidade com que discutia o avô dele e pelo fato de parecer simultaneamente querer ajudá-lo e estrangulá-lo, comecei a desconfiar que fossem parentes. Pai, talvez.
— Tudo bem — ele disse finalmente. — Cinco minutos. Me dê cinco minutos e vou organizar um jeito de tirar vocês daqui sem uma multidão de curiosos e fotógrafos atrás.
Benício assentiu.
O homem lançou mais um olhar para mim. Não foi exatamente simpático, mas também não foi exatamente homicida. Considerei um avanço.
Ele saiu e fechou a porta atrás de si.
Esperei apenas o suficiente para ouvir seus passos se afastando e fui atrás. Ou tentei, porque Benício voltou a bloquear a porta.
— O quê? Me deixa sair.
— Não.
— Como assim, não? Eu não entendi merda nenhuma do que aconteceu aqui, mas fiz o que você pediu, não fiz? Sustentei a mentira. Agora preciso ir ao casamento do Beto e...
— Esqueça o Beto.
Pisquei confusa.
— Como é que é?
— Você só começou a sustentar a mentira. Agora precisamos ir até o final. E lembre-se de uma coisa, Chiara: foi você quem começou. Agora precisa me ajudar. Me deve essa.
Soltei uma risada sem humor e cruzei os braços.
Tá. Eu tinha acabado com o casamento dele? Tinha. Culpada.
Mas Benício não parecia nem um pouco triste com isso. Na verdade, pelo pouco daquela conversa que meu cérebro ainda alcoolizado tinha conseguido acompanhar, ele parecia bastante satisfeito em não se casar com essa tal de Camilly e estava me usando como desculpa para isso.
Eu só não sabia por quê.
Quer dizer, eu sabia alguma coisa sobre um conselho, um avô obcecado por herdeiros e aparentemente uma família inteira que parecia achar razoável obrigar um homem adulto a se casar. Não sabia como aquelas peças se encaixavam e, naquele momento, também não tinha tempo para descobrir.
Beto ainda estava na capela número 1.
Olhei para a porta.
Depois para Benício.
Droga.
De qualquer forma, eu tinha feito aquele homem parecer um canal traidor na frente de trezentas pessoas. Tinha anunciado uma gravidez, falado sobre sexo, sobre a minha bunda e provavelmente destruído sua promessa para sempre.
Então talvez, só talvez, eu estivesse me sentindo um pouquinho de culpada.
E talvez estivesse disposta a ajudá-lo a consertar uma parte disso.
Uma parte.
— Tá, tudo bem — resmunguei. — O que você precisa que eu faça agora?
Benício me encarou por alguns segundos.
— Preciso que se case comigo.
Quando desci, encontrei Benício na sala com meu pai. Desde que os dois tinham se conhecido, durante o almoço, meu pai parecia ter decidido que Benício era uma das pessoas mais interessantes que já tinham pisado naquela fazenda. Passara bons minutos falando sobre plantação de cana-de-açúcar e, para minha surpresa, Benício tinha se mostrado tão interessado que aquilo só podia ser fingimento.Talvez ele fosse um bom ator. Podia até trabalhar em algum filme com Malu, porque o puxa-saco continuava conversando sobre safras, períodos de chuva, pragas e produtividade como se aquele fosse o assunto mais fascinante do planeta.Não era.— Tudo bem, podemos ir jantar? — interrompi, parando na entrada da sala. — Preciso... precisamos dizer uma coisa importante.— Uma coisa importante? — Minha mãe se empertigou na cozinha e olhou para mim. Seus olhos se estreitaram imediatamente. — Chiara, você não está...?— Não, não... — comecei, mas então me dei conta de que estava. — Quero dizer, estou! Mas não
— Isso é loucura — murmurei, ainda encarando a página.— Você sabe que isso protege você também, não sabe? — Benício perguntou.Ele se aproximou e olhou por cima do meu ombro para a parte do contrato que eu estava lendo. A proximidade fez com que eu sentisse o cheiro do perfume dele, mas naquele momento nem um homem bonito cheirando bem seria capaz de competir com a quantidade de zeros impressa naquela folha.— Quero dizer, se eu cometer alguma das infrações que levam à rescisão do contrato, você também recebe a multa.Sim, eu tinha entendido essa parte. O problema era que talvez Benício não tivesse se atentado a um pequeno detalhe: ele tinha dinheiro para pagar aquela multa. Eu não. Nunca tinha visto tanto dinheiro junto em toda a minha vida e, mesmo que passasse os próximos cinquenta anos trabalhando, provavelmente continuaria sem ver.Ou talvez ele tivesse se atentado, sim.Talvez essa fosse a ideia desde o começo. Benício teria uma escapatória se algum dia decidisse que não queria
Assim que Benício saiu, respirei fundo e tentei me acalmar. O que vinha pela frente era uma notícia grande. Do tipo que mudava vidas. Literalmente. Porque, se Lucas respondesse que sim, que nossa família realmente tinha uma dívida de dois milhões e quatrocentos mil reais, que outra opção eu teria além de aceitar a proposta de Benício? Nenhuma. Então resolvi fazer aquele exercício de respiração que tinha aprendido na internet e que prometia acalmar a ansiedade em poucos minutos. Inspirei pelo nariz, segurei o ar e soltei devagar pela boca. Repeti uma vez. Duas.Aquilo durou aproximadamente trinta segundos antes de eu desistir e sair porta afora atrás do meu irmão.Minha mãe informou que Lucas estava no escritório e, quando entrei, tive a impressão de que ele já estava me esperando. Ele estava sentado atrás da mesa e ergueu os olhos para mim assim que fechei a porta.— Como você descobriu?Meu estômago afundou.— Então é verdade? — perguntei, me sentando na cadeira diante dele. — E é tu
— Chiara... o quê...? — Lucas começou, mas se interrompeu no meio da frase. Seus olhos passaram por mim e se arregalaram. — Puta que pariu, aquilo é um Marzani?Olhei para trás.Benício tinha acabado de sair do carro e vinha em nossa direção, enquanto o cachorro pulava alegremente ao redor dele, provavelmente aproveitando seus primeiros minutos livres depois de ser oficialmente sequestrado de um Graal.— Ah, é... — Respondi. — E esse é o senhor Marzani!Lucas imediatamente ajeitou a postura e estendeu a mão assim que Benício se aproximou.— É um prazer conhecê-lo, senhor Marzani!Não dei nem tempo de Benício responder.— Não ele. Esse é o Benício. Essa coisinha fofa aqui... — abaixei a voz para falar com o cachorro — é o senhor Marzani.— Chiara, isso não vai pegar... — Benício resmungou.— Olha só, ele já atende pelo nome!— Ele atende porque você está falando com voz de bebê.— Porque ele é um bebê. Olha essa carinha!Lucas olhou de mim para Benício como se tivesse esquecido complet
— Ah, é. Bem, ele me olhou com aquela cara de cachorrinho abandonado, sabe? O que... tecnicamente ele é, então...Benício continuou me olhando como se estivesse tentando decidir se tinha entendido direito o que eu acabara de dizer.— Então você colocou um cachorro que parece ter acabado de rolar na lama dentro de um protótipo da Marzani? Um carro que não tem preço. Literalmente!Olhei para trás.O caramelo estava sentado no meio do banco, língua para fora, parecendo bastante satisfeito com a própria conquista. Algumas marcas de patas decoravam o couro preto.É.Talvez ele realmente estivesse um pouco sujinho.— Você pode mandar lavar, não pode? — perguntei.Aquilo saiu com tanta naturalidade que Benício soltou alguma coisa entre uma risada e uma bufada.— Posso ficar com ele? Por favor! Olha como ele é fofinho! E, claro, precisa de um banho, de uma tosa, provavelmente de um vermífugo e... — olhei novamente para o cachorro. — Posso ficar com ele?— Chiara, eu não sou seu pai. Faça o qu
Benício se jogou na minha frente antes que eu sequer entendesse com o que exatamente deveria tomar cuidado. Uma de suas mãos segurou meu braço enquanto a outra passou pela minha cintura, me puxando contra ele de um jeito que ficou no meio do caminho entre me proteger e me abraçar.Ouvi o barulho de alguma coisa batendo contra as costas dele e, logo depois, caindo no chão.Uma lata de Coca-Cola.E um pedaço mordido de algum salgado.Meu primeiro pensamento foi que aquelas duas garotas realmente deviam me odiar muito. Sério, um lanche no Graal custava quase um salário-mínimo! Aquilo sim que era comprometimento com o ataque!— Você tá bem? — Benício disse, olhando para mim.Só tive tempo de confirmar com a cabeça antes de ouvir os gritinhos esganiçados.— Ah, meu Deus! É ele!As duas vieram correndo em nossa direção e, aparentemente, todo o ódio que sentiam por mim desapareceu diante da existência de Benício Marzani a menos de dois metros delas.— Me desculpe! — uma disse para ele, sem n







