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Capítulo 2

Autor: Kayla Sango
last update Fecha de publicación: 2026-09-02 07:20:46

Passei pelas pesadas portas de madeira da capela e as bati com força atrás de mim, como se isso bastasse para impedir que qualquer coisa que estivesse lá dentro viesse atrás de mim.

Por favor, que fosse. Por favor, que isso fosse. — Repeti isso na minha mente, quase como uma oração. Afinal, eu estava diante de uma capela, não é? Orações deveriam ajudar.

Virei-me rapidamente e apertei os olhos para distinguir a pequena placa dourada acima da porta: Capela 2.

Ah, merda, merda, merda!

O Beto ia se casar na Capela Número 1, não ia?

— Tudo bem... Um, dois, três, respira... Tudo bem... — murmurei para mim mesma, apoiando as mãos nos joelhos e tentando não vomitar.

Sinceramente, o efeito do álcool estava passando rápido com o choque. E isso era ruim — muito ruim —, porque eu estava ficando sóbria o suficiente para entender a dimensão da confusão que tinha armado.

Eu tinha acabado de invadir o casamento de dois completos desconhecidos, acusado o noivo de traição, dito a trezentas pessoas que ele conhecia intimamente a marca de nascença na minha bunda e anunciado que estava grávida dele.

Talvez vomitar fosse a melhor solução, afinal.

— Que diabos foi aquilo?

Meu coração falhou uma batida.

Virei-me em direção à porta e o noivo estava parado bem na minha frente.

Hmm... Talvez eu pudesse fingir que era louca. Não. Ideia péssima. Pessoas loucas provavelmente ainda podiam ser responsabilizadas.

Perda de memória recente? Eu poderia colocar a mão na cabeça, olhar em volta e perguntar onde estava. Talvez acrescentar um "Quem é você?" bem convincente para garantir.

Ou apenas fingir qualquer coisa para que ele não chamasse a polícia. Eu ainda estava avaliando minhas opções quando ele agarrou meu braço e me arrastou pelo corredor.

— Ei! O que você tá fazendo?

Ele não respondeu. Continuou andando enquanto eu tentava acompanhar o passo — tarefa nada fácil, dados os meus saltos altos e o álcool.

Ele parou diante de uma porta e testou a maçaneta.

Trancada.

Foi para a próxima.

Trancada também.

— Olha, se você está planejando me matar, é bom avisar que há câmeras no hotel e provavelmente...

Outra porta.

— ...muita gente acabou de me ver no seu casamento, então você seria um suspeito bem óbvio.

Na quarta tentativa, a maçaneta finalmente cedeu.

Ele abriu a porta, praticamente me empurrou para dentro e entrou logo em seguida, fechando a porta atrás de si.

Apertei os olhos para ver onde diabos ele tinha me escondido. O cômodo era pequeno, iluminado por uma lâmpada branca no teto e repleto de prateleiras abarrotadas de toalhas dobradas, pacotes de papel higiênico e produtos de limpeza.

Ótimo. Eu ia morrer em um depósito de material de limpeza. Pelo menos encontrariam meu cadáver cheirosinho.

Ele se virou para mim.

— “Continua aí”?

Caramba. Eu tinha dito isso, não tinha?

— “Continua aí”? — ele repetiu, claramente incapaz de deixar o assunto morrer. — Como exatamente eu deveria continuar um casamento depois de você invadir com tudo e me acusa de ser um admirador da pinta na sua bunda?

Eu não queria nada além de cavar um buraco, enfiar a cabeça nele e esperar quinze anos até que todo mundo naquela capela esquecesse o meu rosto.

— Tecnicamente falando... — comecei, porque, pelo visto, me faltava o instinto do avestruz. — Eu te acusei de coisas muito piores. E você iria gostar da minha pinta. Na verdade, ela é bem bonita. Meio parecida com a da Angélica, sabe?

Ele ficou me encarando.

— Angélica?

— A do vou de táxi... cê sabe?  Ela tem aquela pinta famosa na perna. A minha é tipo aquilo, só que...

Fiz um gesto vago para trás.

— ...na bunda.

Ele continuou me encarando com um ar tão incrédulo que senti que precisava fazer alguma coisa. Dizer alguma coisa. Qualquer coisa que não envolvesse mais detalhes sobre a minha bunda parecia um bom começo.

— Então... qual é o seu nome mesmo?

— Não é Beto.

— Ah, é. Imaginei que não fosse.

Estendi a mão e, como ele não parecia muito interessado, agarrei a mão dele mesmo assim e a apertei.

— Oi! Eu sou a Chiara. Prazer em conhecê-lo.

Ele não disse nada. Nem uma palavra. Então soltei a mão dele e tentei sorrir. Ele não retribuiu o sorriso tampouco.

— Olha... é... "Não-Beto", eu posso voltar lá e dizer a todos que...

— O quê? — ele interrompeu. — Porque, sinceramente, estou curioso para saber do que se tratava aquilo tudo.

— Foi um... hum... pequeno mal-entendido que posso esclarecer.

— Pequeno?

— Talvez moderado.

— Trezentas pessoas naquela capela acham que sou um canalha que abandonou uma mulher grávida para se casar com outra.

Colocado dessa forma, soava muito mal mesmo.

— A imprensa estava lá. As pessoas gravaram tudo. Provavelmente já tem vídeo nas redes sociais a essa hora. Você tem alguma ideia da proporção que uma história dramática de traição ganha na internet?

— Ah, tenho...

Deixei escapar uma risadinha, mas tratei de segurá-la quando percebi que ele não estava achando graça nenhuma.

— Eu meio que gosto de acompanhar perfil de fofoca. Você viu a última daquele jogador de futebol com a influencer da marca de perfumes? Porque, olha, eu sempre achei que aquele relacionamento...

A expressão dele piorou.

— É melhor eu calar a boca, não é?

Ele cruzou os braços.

Definitivamente era melhor eu calar a boca.

— Olha, eu já disse. O melhor que eu posso fazer é voltar lá e contar a verdade. Digo que me confundi de capela, que nunca te vi na vida, que você não conhece a minha pinta e que esse bebê não é seu. Pronto. Resolvido.

— E você acha que isso resolve?

— Bom, é a verdade e é o que eu posso fazer. Se isso não vai te ajudar, eu sinto muito. Só que eu também não posso ficar presa aqui para sempre porque tenho outro casamento para estragar antes que eles troquem as alianças e, sinceramente, acho que vou precisar de mais umas bebidas antes disso. Então, se me der licença...

Tentei passar por ele, mas aquele armário deve ter sido projetado para guardar toalhas, não para um homem daquele tamanho e uma mulher tentando escapar dele. Dei um passo para o lado e ele fez o mesmo, colocando-se exatamente entre mim e a porta.

— Você é bem doidinha mesmo, não é?

Ele me avaliou de cima a baixo e demorou o olhar um pouquinho mais em certas partes que me fizeram sentir o rosto esquentar.

— Como é que é? Doidinha?

— Você acabou de dizer que ainda pretende destruir outro casamento.

— E o que você está insinuando? Eu não sou doida. Nada doida! Não é como se eu entrasse por aí em casamentos alheios simplesmente para destruí-los. Não todos os dias, pelo menos. E eu não sei se você se deu conta, mas tudo o que eu falei lá dentro era verdade. Eu só falei para a pessoa errada. O Beto realmente fez tudo aquilo e...

A maçaneta se moveu.

Parei de falar.

Alguém estava tentando abrir a porta.

O “não Beto” (eu pensava nele assim já que o infeliz ainda não tinha se dignado a me dizer o seu nome) segurou a maçaneta antes que a pessoa do outro lado conseguisse girá-la completamente.

Tentaram outra vez.

— Tem alguém aí? — uma voz veio abafada do corredor.

Arregalei os olhos e fiz um gesto desesperado na direção da porta.

— Abra!

Ele não abriu.

— O que você está fazendo?

A maçaneta tornou a se mexer sob a mão dele.

— É exatamente isso — disse, olhando para mim. — É isso que você precisa defender.

— Isso o quê?

— Que tudo o que falou lá dentro é verdade. Que eu fiz tudo aquilo.

Franzi a testa.

— Você enlouqueceu?

— Lembre-se disso quando essa porta abrir.

— Lembrar do quê? Eu acabei de dizer que...

Tudo aconteceu tão rápido que meu cérebro bêbado não conseguiu acompanhar. Ele soltou a maçaneta enquanto uma das mãos dele segurava minha cintura, meu corpo foi puxado para a frente, girado, e, no instante seguinte, minhas costas bateram contra as prateleiras cheias de toalhas.

Abra a boca para reclamar.

Foi um erro.

Porque ele me beijou.

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