LOGINEu tinha acabado de ser pedida em casamento.
Esse era oficialmente o dia mais bizarro da minha vida e eu tinha acabado de ser pedida em casamento de um jeito que, de alguma forma, coroava toda aquela bizarrice. Então fiz a coisa que me pareceu mais pertinente para o momento: levantei um dedo, como quem precisa de alguns segundos para pensar antes de dar uma resposta.
E eu precisava.
Não porque estava decidindo entre dizer “sim” ou dizer “não”. Essa era uma decisão que nem sequer tinha começado a ser processada pelo meu cérebro ainda. Eu precisava de alguns segundos porque precisava vomitar antes.
E entenda bem, isso não é uma hipérbole.
Eu realmente me reclinei e, no pouco espaço que tinha dentro daquele armário de toalhas, acabei vomitando diretamente nos sapatos dele.
Por alguns segundos, fiquei nessa posição, tentando decidir se ainda havia alguma dignidade que pudesse ser salva. Cheguei rapidamente à conclusão do que não havia.
Levantei devagar a cabeça e encontrei aqueles olhos azuis me encarando.
— Acho que não estou bem.
Desnecessário dizer, claro. Acho que isso já tinha ficado bastante evidente. Se não tinha, certamente ficou quando senti o chão se mover debaixo dos meus pés, a imagem dele começar a escurecer diante dos meus olhos e...
E nada.
Acordei com os raios de sol entrando pela cortina do meu quarto.
Resmunguei e me virei na cama, enfiando o rosto no travesseiro numa tentativa inútil de fugir daquela claridade. Minha cabeça estava me matando e o sol, aquele filho da puta, parecia ter escolhido justamente aquela manhã para brilhar com a intensidade de três sóis. E olha que quem estava falando isso era uma carioca!
— Vai embora! — gritei, atirando uma almofada na janela com a raiva de quem estava dizendo para o próprio sol se explodir e criar uma noite eterna.
A almofada acertou a cortina e caiu no chão. O sol, para minha surpresa, não foi embora.
Esperei mais uns trinta segundos, porque nunca se sabe, mas, quando finalmente me convenci de que não iria rolar, me sentei na cama. Minha boca estava seca, minha cabeça latejava e eu tinha a impressão de que alguém tinha colocado um liquidificador dentro do meu crânio e deixou ligado durante a madrugada.
Ótimo.
Arrastei os pés para fora da cama, peguei meus óculos de grau na mesa de cabeceira e os coloquei antes de me levantar. Não me dei nem ao trabalho de olhar no espelho. Pelo estado do meu cabelo caindo na frente do rosto, já sabia que aquela não era uma informação que eu precisava ter naquele momento.
Eu precisava de café.
Sai do quarto descalça e segui pelo corredor em direção à cozinha.
— Malu, você não vai acreditar no sonho louco que eu tive... — comecei a contar em voz alta, ainda tentando acordar. — Sonhei que invadi o casamento do Beto e falei um monte de merda para parar o casamento, só que o Beto não era o Beto e... e...
Entrei na cozinha.
- AHHHHHHH!
Parei tão rápido que quase perdi o equilíbrio.
O não-Beto estava ali.
Na minha cozinha.
Ainda usando o terno do casamento.
— Mas que porra...?
Ele me olhou com uma tranquilidade que definitivamente não combinava com o fato de estar dentro da casa de uma mulher que mal conhecia às... às... Nem sabia que horas eram. Também não importava. Não existia horário socialmente aceitável para aquilo.
Mas, antes que eu conseguisse exigir qualquer explicação, fui distraída por uma descoberta ainda mais perturbadora.
Caramba, ele era bonito.
Quero dizer, eu meio que já tinha percebido isso na noite anterior. Mesmo vendo o homem como um borrão de terno, dava para ter uma ideia geral de que a genética tinha sido bastante generosa com ele. Só que agora eu estava sóbria, de óculos e finalmente consegui enxergar o conjunto completo.
E que conjunto, puta que pariu.
O cabelo era bem escuro, quase preto, e estava um pouco bagunçado. A barba por fazer deixava o rosto ainda mais masculino e combinava muito bem com o maxilar marcado. E os olhos... bom, os olhos continuavam azuis.
Ele também era maior do que eu lembrava. Ombros largos, braços fortes preenchendo o paletó de um jeito que fez meus olhos demorarem alguns segundos a mais do que deveriam por ali.
Tá.
O não-Beto era um gostoso.
Continuava sendo um desconhecido dentro da minha cozinha, o que era um problema consideravelmente maior, mas era um desconhecido muito bonito.
— Café? — ele perguntou, apontando para alguma coisa sobre a bancada.
Acompanhei o movimento de sua mão e franzi a testa.
Aquilo não estava ali ontem.
— De onde saiu esse Transformer? Eu não tenho uma cafeteira.
— Exatamente. Como você faz café?
— No...coador? — respondi, sem entender a pergunta. — Como qualquer pessoa normal.
Ele olhou para o meu coador como se eu tivesse acabado de dizer que moía os grãos com os dentes.
– Ah, bom. Agora você tem uma cafeteira.
— Como assim agora eu tenho uma cafeteira?
— Comprei na loja de eletroeletrônicos da esquina.
Olhei novamente para a cafeteira sobre a minha bancada e reconheci o modelo. Ou pelo menos reconheci o tipo de máquina que eu já tinha visto algumas vezes na internet, cobiçado durante uns cinco minutos e depois fechado a página enquanto desejava secretamente ganhar na megasena da virada.
Precisei me sentar.
— Essa porcaria de Transformer custa mais de vinte mil reais!
— Peguei em uma boa promoção.
— De noventa e nove por cento de desconto?
Ele ignorou a pergunta e colocou uma caneca diante de mim.
— Olha, eu adoraria passar o dia aqui com você falando sobre cafeteiras e Transformers, mas temos assuntos mais urgentes.
— Temos. Temos, sim... — concordei, pegando a caneca.
Dei um gole e quase gemi.
Céus.
Aquilo era café ou alguma experiência transcendental?
— Precisamos conversar sobre... — comecei, mas levantei um dedo para pedir mais um segundo e terminei o restante da caneca praticamente de uma vez.
Ele arqueou uma sobrancelha.
— Mais café?
— Por favor.
Empurrei a xícara na direção dele e percebi um pequeno sorriso surgindo no canto de sua boca enquanto ele se levantava para enchê-la.
— Mas não muda de assunto.
— Eu nem comecei um assunto.
— Ah, é...
Esperei ele colocar mais café na minha caneca e aproveitei alguns segundos para tentar organizar a quantidade absurda de perguntas que tinha na cabeça. Não consegui, então decidi simplesmente lançar tudo de uma vez.
— Mas o assunto é... como raios você entrou aqui? Cadê a minha irmã? Como eu estou usando um pijama e... — peguei a caneca que ele me entregava e dei outro gole. — Qual é a marca desse café?
Ele voltou a se sentar de frente para mim.
— Sua irmã me deixou entrar quando cheguei com você praticamente desmaiada. Ela saiu hoje bem cedo porque disse que precisava trabalhar. Foi ela quem te deu banho e colocou seu pijama, mas... bom, você é pesada e ela precisou de uma mãozinha.
A caneca parou a poucos centímetros da minha boca.
— Uma mãozinha?
— A propósito — ele disse, tomando tranquilamente um gole do próprio café —, você estava certa. Bela pinta.
Me embananei de um jeito tão grande que bati na caneca e a derrubei.
– Merda!
O líquido divino começou a se espalhar pela mesa e me levantei depressa, pegando alguns panos para tentar conter o desastre. O que foi ótimo, porque me deu uma desculpa para abaixar a cabeça e esconder o calor que começou a tomar conta do meu rosto.
Ótimo. Maravilhoso. Eu tinha acabado de conhecer aquele homem e ele já sabia que eu não era muito boa em calar a boca, sabia que eu bebia demais em determinadas situações, sabia que eu tinha uma pinta na bunda e, aparentemente, tinha confirmado pessoalmente a existência dela.
Os relacionamentos normais eram superestimados mesmo.
— E agora que já respondi todas as suas perguntas — ele disse quando voltei a me sentar —, será que podemos falar sobre o que é realmente importante?
– Claro. Podemos. Com certeza. O que é realmente importante?
Benício apoiou os braços sobre a mesa e me encarou.
— Nosso casamento.
— Benício não pode dormir no meu quarto! — disparei.Minha mãe me olhou como se eu tivesse acabado de dizer que ele precisava passar a noite no curral.— Não seja boba. Por que não?— É, Chiara, por que não? — Malu entoou ao meu lado, parecendo estar se divertindo muito mais do que deveria com o meu desespero.Olhei feio para ela antes de tentar encontrar alguma justificativa minimamente convincente.— Porque... porque é falta de educação. É a casa dos meus pais.— Chiara, querida, você está grávida... — minha mãe começou, naquele tom paciente que usava quando achava que eu estava sendo particularmente idiota. — E ou temos um milagre bíblico acontecendo na nossa frente, ou sabemos exatamente como aconteceu.— Mãe!Senti minhas bochechas pegarem fogo.Nenhum pai devia ter o direito de saber como a filha tinha ficado grávida. Em que momento exatamente deixávamos de acreditar na história da cegonha? Ou da melancia? Eu não lembrava de ter assinado nenhum documento autorizando meus pais a
Ele tinha um anel.O filho da puta estava tão certo de que eu aceitaria que tinha um anel.Fiquei olhando para a caixinha aberta nas mãos de Benício por tempo suficiente para me esquecer de que ele ainda estava ajoelhado na minha frente e minha família inteira esperava uma resposta.— Você também comprou isso na lojinha da esquina da minha casa? — deixei escapar.— O quê? — Benício perguntou, confuso.Mas claro que não.Era uma aliança Ella Deluxe, e eu reconheceria uma daquelas em qualquer lugar. Delicada, elegante, com um diamante central grande o suficiente para chamar atenção sem parecer uma joia que uma socialite usaria para afundar o próprio corpo numa piscina. Pequenos diamantes acompanhavam parte do aro, refletindo a luz sempre que Benício movia a caixa.Aquilo claramente não era algo que se comprava do dia para a noite.Por um instante, me perguntei se era o anel que ele tinha dado a Camilly. Talvez ela tivesse mandado devolver depois de toda a confusão do casamento.Tudo bem
Quando desci, encontrei Benício na sala com meu pai. Desde que os dois tinham se conhecido, durante o almoço, meu pai parecia ter decidido que Benício era uma das pessoas mais interessantes que já tinham pisado naquela fazenda. Passara bons minutos falando sobre plantação de cana-de-açúcar e, para minha surpresa, Benício tinha se mostrado tão interessado que aquilo só podia ser fingimento.Talvez ele fosse um bom ator. Podia até trabalhar em algum filme com Malu, porque o puxa-saco continuava conversando sobre safras, períodos de chuva, pragas e produtividade como se aquele fosse o assunto mais fascinante do planeta.Não era.— Tudo bem, podemos ir jantar? — interrompi, parando na entrada da sala. — Preciso... precisamos dizer uma coisa importante.— Uma coisa importante? — Minha mãe se empertigou na cozinha e olhou para mim. Seus olhos se estreitaram imediatamente. — Chiara, você não está...?— Não, não... — comecei, mas então me dei conta de que estava. — Quero dizer, estou! Mas não
— Isso é loucura — murmurei, ainda encarando a página.— Você sabe que isso protege você também, não sabe? — Benício perguntou.Ele se aproximou e olhou por cima do meu ombro para a parte do contrato que eu estava lendo. A proximidade fez com que eu sentisse o cheiro do perfume dele, mas naquele momento nem um homem bonito cheirando bem seria capaz de competir com a quantidade de zeros impressa naquela folha.— Quero dizer, se eu cometer alguma das infrações que levam à rescisão do contrato, você também recebe a multa.Sim, eu tinha entendido essa parte. O problema era que talvez Benício não tivesse se atentado a um pequeno detalhe: ele tinha dinheiro para pagar aquela multa. Eu não. Nunca tinha visto tanto dinheiro junto em toda a minha vida e, mesmo que passasse os próximos cinquenta anos trabalhando, provavelmente continuaria sem ver.Ou talvez ele tivesse se atentado, sim.Talvez essa fosse a ideia desde o começo. Benício teria uma escapatória se algum dia decidisse que não queria
Assim que Benício saiu, respirei fundo e tentei me acalmar. O que vinha pela frente era uma notícia grande. Do tipo que mudava vidas. Literalmente. Porque, se Lucas respondesse que sim, que nossa família realmente tinha uma dívida de dois milhões e quatrocentos mil reais, que outra opção eu teria além de aceitar a proposta de Benício? Nenhuma. Então resolvi fazer aquele exercício de respiração que tinha aprendido na internet e que prometia acalmar a ansiedade em poucos minutos. Inspirei pelo nariz, segurei o ar e soltei devagar pela boca. Repeti uma vez. Duas.Aquilo durou aproximadamente trinta segundos antes de eu desistir e sair porta afora atrás do meu irmão.Minha mãe informou que Lucas estava no escritório e, quando entrei, tive a impressão de que ele já estava me esperando. Ele estava sentado atrás da mesa e ergueu os olhos para mim assim que fechei a porta.— Como você descobriu?Meu estômago afundou.— Então é verdade? — perguntei, me sentando na cadeira diante dele. — E é tu
— Chiara... o quê...? — Lucas começou, mas se interrompeu no meio da frase. Seus olhos passaram por mim e se arregalaram. — Puta que pariu, aquilo é um Marzani?Olhei para trás.Benício tinha acabado de sair do carro e vinha em nossa direção, enquanto o cachorro pulava alegremente ao redor dele, provavelmente aproveitando seus primeiros minutos livres depois de ser oficialmente sequestrado de um Graal.— Ah, é... — Respondi. — E esse é o senhor Marzani!Lucas imediatamente ajeitou a postura e estendeu a mão assim que Benício se aproximou.— É um prazer conhecê-lo, senhor Marzani!Não dei nem tempo de Benício responder.— Não ele. Esse é o Benício. Essa coisinha fofa aqui... — abaixei a voz para falar com o cachorro — é o senhor Marzani.— Chiara, isso não vai pegar... — Benício resmungou.— Olha só, ele já atende pelo nome!— Ele atende porque você está falando com voz de bebê.— Porque ele é um bebê. Olha essa carinha!Lucas olhou de mim para Benício como se tivesse esquecido complet







