LOGINA reunião começou exatamente às nove horas.
A ampla sala de reuniões da Mode exalava sofisticação. Uma mesa de madeira clara ocupava o centro do ambiente, cercada por cadeiras ergonômicas. A parede de vidro permitia que a luz da manhã invadisse o espaço, tornando tudo mais iluminado e elegante. Helena estava preparada, ou pelo menos acreditava estar. Durante dias ela e sua equipe haviam trabalhado naquele proj— Já que você insiste que ele te contou absolutamente tudo, me responda: ele te explicou como realmente te conheceu? Ele te contou como foi que ele foi parar dentro da Mode?A pergunta ecoou no ar como um aviso estalando na sala. Helena sentiu o sangue congelar nas veias.— O que você quer dizer com isso, Henrique? Diga de uma vez, pare de jogos!— O meu irmão não te conheceu pelos corredores da editora — disparou Henrique, cravando os olhos nela sem piedade. — Ele te viu em um evento social há muito tempo. Você se tornou a maior obsessão dele, o desejo que ele precisava conquistar a qualquer preço. E para chegar até você, ele fez o de sempre: usou o poder e o dinheiro. Ele comprou a Mode.Helena estancou. O ar pareceu faltar em seus pulmões, e o ambiente ao redor perdeu o som por alguns segundos.— Você... você está mentindo! — sussurrou ela, a voz falhando diante do impacto.— Não, não estou — disse Henrique, desfrutando abertamente da palidez que tomara o rosto dela. — O misterioso
Mesmo se sentindo extremamente desconfortável ao lado dele, Helena aceitou o convite de Henrique.Havia uma necessidade de compreender a extensão dos segredos que cercavam a família Ferraz, o ódio evidente entre os irmãos e, acima de tudo, a dúvida corrosiva de saber se Lucas omitira partes fundamentais da própria história, falava mais alto do que qualquer prudência naquele momento Enquanto atravessavam a calçada em direção à quadra seguinte, Helena notou pelo canto do olho quando Henrique sacou o celular do bolso e digitou uma mensagem rápida. Ele manteve a tela levemente inclinada, impedindo que ela visse quem era o destinatário ou o teor do texto, antes de guardar o aparelho no paletó com um ar satisfeito.Entraram em uma cafeteria próxima. O aroma de grãos torrados preenchia o ar, contrastando com a rigidez que se instalou entre eles assim que se acomodaram em um canto reservado. Helena pediu um suco de abacaxi; Henrique, um café expresso.Assim que a garçonete deixou os pedido
Na manhã de segunda-feira, Helena saiu de casa cedo. Sem notícias de Lucas desde a noite anterior — sabendo apenas do compromisso familiar pelo bilhete deixado na mesa — ela tomou um café rápido e decidiu resolver sobre o pré natal. Seu primeiro destino foi o Centro Médico São Lucas, onde buscou informações sobre o acompanhamento obstétrico e agendou sua primeira consulta oficial de pré-natal para os próximos dias. Ao caminhar para o balcão de atendimento com o comprovante de agendamento em mãos, Helena quase colidiu com uma figura jovem que saía de uma das salas de exames. Laura. A jovem estancou ao vê-la, a surpresa nítida em seu olhar. Helena manteve a postura serena e simpática, sem carregar no tom qualquer mágoa da separação. — Helena? O que faz por aqui tão cedo? — perguntou Laura, ajustando a bolsa sobre o ombro. — Bom dia, Laura. Vim apenas agendar alguns exames de rotina — respondeu Helena, direcionando o olhar com gentileza para a barriga proeminente da jovem. — Como
O ar na varanda parecia carregar o peso de uma tempestade iminente. Escondido atrás da densa cortina que separava a varanda do corredor interno, Henrique sentia cada palavra ouvida perfurando seu peito como lâminas. Ver a expressão de aprovação no rosto de Leonardo, ao lado da emoção genuína de Dona Cecília, fez um amargor corrosivo subir por sua garganta. A rivalidade, que antes parecia uma disputa entre irmãos e de ego, transformava-se em um rancor visceral. O orgulho ferido pelas recentes discussões e a humilhação sufocada inflamavam sua mente em uma ideia fixa: destruir a fachada de plenitude que Lucas tanto lutava para preservar. Se o irmão mantivera segredos cruciais sobre as manipulações e o passado para Helena, seria pelas mãos de Henrique que essas verdades chegariam a ela.Antes que pudesse dar qualquer passo impensado, uma mão firme e adornada por anéis caros segurou seu pulso na penumbra do corredor. Anne Mary o puxou com discrição para a biblioteca do andar térreo,
O portão de ferro trabalhado da mansão Ferraz abriu-se para que a motocicleta de Lucas entrasse. Ele não estaria ali naquela noite se não fosse por Dona Cecília. A atmosfera que o aguardava dentro da mansão era de pura etiqueta da alta sociedade, onde cada detalhe foi minuciosamente planejado e orquestrado por Anne Mary.Sabendo disso, e em um ato calculado de provocação para deixar claro o quanto repudiava aquele teatro social, Lucas havia ido de moto, vestindo uma camiseta preta de gola V, calça jogger escura, jaqueta de couro lisa e coturnos pesados. Seus cabelos negros, desalinhados pelo capacete, contrastavam com os trajes a rigor dos demais presentes.Pouco tempo após cruzar a imponente porta de entrada, o inevitável aconteceu no hall, ao pé da grande escadaria de mármore. Henrique, no topo de sua elegância impecável num terno sob medida, desceu os últimos degraus com um sorriso sarcástico estampado no rosto.— Ora, ora... Vejam só se não é o herdeiro bastardo — ironizou Henri
Levantaram-se e desceram para o café da manhã, servido na sala do casarão. Uma grande mesa estava posta com variedades, Helena pensava em como ele havia planejado tudo aquilo sem ela saber.Enquanto bebericava seu café, aproveitou para observar a arquitetura ao redor. O casarão era grandioso, com pé-direito alto, lustres de cristal e móveis de madeira nobre impecavelmente preservados; contudo, a ausência de objetos pessoais recentes e o silêncio que ecoava pelos corredores tornavam evidente que ninguém residia ali há muito tempo. Era um templo de memórias guardado pelo passado, mas mesmo assim era um lugar que muito a agradava ao mesmo tempo que a assustava.O rapaz jovem e belo que havia entrado em sua vida de forma simples e descontraída, se mostrava cada vez mais poderoso e tradicional.Após terminarem a refeição, arrumaram os pertences e iniciaram a viagem de volta para a cidade. Não era tão longe quanto ela havia sentido na noite anterior, o caminho era curto e de fácil acesso.







