Share

Capítulo 4

Author: Gaia
Sorri e expliquei:

— Grávida fica mais sensível mesmo. Daqui a pouco passa.

Bernardo soltou um suspiro de alívio.

— Ainda bem. Eu acabei esquecendo de perguntar... que tipo de escapulário você gosta? Um de anjo da guarda? Ou é melhor algo mais simples?

Fiquei surpresa. Não esperava que ele se importasse tanto.

Se tivesse se importado assim antes...

— Pode ser. Você decide.

Bernardo assentiu.

Depois de confirmar o que eu queria, foi embora.

Antes de fechar a porta, perguntou mais uma vez:

— Você tem certeza de que está bem?

Abri a boca, e de repente um fio de esperança surgiu dentro de mim:

— Se eu não estivesse... você poderia ficar comigo?

Bernardo hesitou, então sorriu:

— Para com isso. A Lavínia está me esperando no hospital. Dorme cedo.

Quando a porta se fechou, eu não consegui mais segurar o choro.

Chorei por ter sido tão tola a ponto de me casar com Bernardo.

Chorei ainda mais por, mesmo assim, continuar criando esperança nele, uma vez após a outra.

Eu já sabia o resultado desde o começo, não sabia?

Naquela noite, arrumei minhas malas.

O divórcio ainda não tinha sido concluído, mas eu já estava exausta demais.

Antes de dormir, despejei os feijões do frasco e deixei de molho durante a noite.

No dia seguinte, enquanto comia os feijões cozidos até ficarem macios, recebi uma mensagem de Bernardo.

Ele avisava que o escapulário já tinha sido comprado e que eu poderia ir buscar no hospital.

Quando cheguei, fui direto para o quarto de Lavínia.

Bernardo não estava lá. Devia ter ido comprar comida.

Lavínia sorriu e me perguntou:

— Você veio falar com o Bernardo por algum motivo?

Forcei um sorriso, mantendo a voz calma:

— Vim buscar o escapulário. Você sabe onde o Bernardo deixou?

Lavínia soltou um som afetado e mostrou o pé que estava debaixo do cobertor.

No tornozelo, pendia um escapulário delicado.

Um anjo da guarda. Exatamente como Bernardo tinha prometido para mim.

— Está falando desse aqui? O Bernardo me deu para usar como tornozeleira. Bonito, não é?

Lavínia sorria com satisfação, mas eu perdi a razão.

Meu filho tinha ido embora.

Meu marido não me amava.

Eu só queria um escapulário.

Eu só queria que aquela criança que nunca teve a chance de nascer pudesse levar consigo a bênção do pai...

Eu não sei como saí do hospital.

Quando cheguei em casa, minha garganta estava rouca de tanto chorar, nenhum som saía.

Peguei um papel de carta e comecei a anotar as coisas que ainda não tinha conseguido fazer.

Esperava que, depois que eu fosse embora, Bernardo pudesse terminar por mim, em consideração aos anos de casamento.

Quando tive certeza de que não havia esquecido nada, peguei minha mala e saí.

O segurança, que estava começando o turno, se ofereceu com entusiasmo para ajudar com a bagagem, mas eu recusei.

Daqui para frente, eu queria caminhar sozinha.

Do outro lado, Bernardo voltou com a comida e pousou a marmita:

— Lavínia, enquanto eu estava fora, a Joyce passou por aqui?

Lavínia sorriu e encolheu o pé para debaixo do cobertor:

— Não. Ninguém veio.

Bernardo assentiu e abriu o recipiente:

— Come primeiro. Você guardou para mim o escapulário? À tarde eu vou passar em casa e levo para a Joyce.

Lavínia concordou com a cabeça e pegou a comida.

De repente, bateram à porta.

Uma enfermeira entrou e perguntou:

— Quem é da família da Sra. Joyce? Ela esqueceu de pegar a medicação depois do aborto espontâneo.
Continue to read this book for free
Scan code to download App

Latest chapter

  • Se Não Posso Ter Você   Capítulo 9

    Como Lavínia se recusou a pedir desculpas, fez um grande escândalo e acabou sendo levada para a delegacia.Ao chegar lá, porém, o coração de Bernardo estava estranhamente calmo.Desde que tinha lido a minha carta no dia anterior, ele vinha refletindo.Pensou em muitas coisas sobre Lavínia, sobre mim.Quanto mais pensava, mais inquieto ficava, mais irritação sentia por Lavínia.Mas, ao lembrar que ela era uma paciente, precisava engolir aquele incômodo, o que deixava ele ainda pior.Ele também queria me encontrar. Queria ficar comigo de verdade, queria se redimir.Mas eu tinha dito que nunca mais queria ver ele.Antes, ele achava que, quando Lavínia falava em morrer, o que sentia era dor.Só agora entendia que o que realmente destruía ele era a minha partida.Mas já era tarde demais.O delegado era um antigo conhecido de Bernardo.Ao saber por que ele estava ali, explicou rapidamente o que tinha acontecido.Embora o hospital tivesse chamado a polícia, como o ferimento da enfermeira não

  • Se Não Posso Ter Você   Capítulo 8

    Infelizmente, nada disso tinha mais a ver comigo.Do outro lado, Bernardo voltou para casa.— Joyce! Eu sei que errei, me perdoa! O escapulário que você queria, eu comprei!Mas, não importava o quanto ele gritasse, ninguém respondia.O pânico subiu de repente pelo peito.Sala, cozinha, quarto... ninguém.Ele pensou em algo, correu até o guarda-roupa e abriu as portas. Metade das roupas tinha sumido.Tudo o que era meu tinha desaparecido. Restava apenas um vestido branco.Aquele tinha sido comprado por Bernardo na época do nosso casamento.Naquele ano, eu tinha dezenove anos.Eu disse:— Bernardo, quando a gente casar, você pode comprar um vestido branco para mim? Minha mãe dizia que, se a noiva usar branco, o casamento vai ser feliz.Bernardo concordou.E eu realizei o desejo de vestir um lindo vestido branco na cerimônia.Mas o nosso casamento não recebeu felicidade nenhuma.Bernardo também se lembrou daquele dia.Eu usava duas tranças e tinha o rosto corado de timidez.Na frente da

  • Se Não Posso Ter Você   Capítulo 7

    Lavínia se agachou às pressas, tentando esconder o escapulário:— Não é nada...O rosto de Bernardo escureceu, o olhar afiado.— Onde está o escapulário que eu pedi para você guardar? Entrega.Lavínia baixou os olhos, culpada demais para encarar ele:— É só um escapulário, eu...— Eu vou falar pela última vez. Entrega.Bernardo olhava para ela como se uma tempestade estivesse prestes a explodir em seus olhos.Lavínia finalmente entrou em pânico. Levantou e recuou, revelando o escapulário em seu tornozelo.Um anjo da guarda. Exatamente igual ao que Bernardo tinha comprado.Ele avançou e arrancou o escapulário do pé dela. Os dedos se cravaram na palma da mão com força.— Enfermeira, você disse agora há pouco, a Joyce esteve aqui?Ivana franziu a testa:— Esteve, sim. Eu vi quando ela saiu do quarto, por isso vim falar com vocês.Lavínia lançou um olhar furioso para ela, depois tentou segurar a mão de Bernardo, sorrindo de forma afetada.— Eu estava dormindo. Não sabia que a Joyce tinha

  • Se Não Posso Ter Você   Capítulo 6

    Se tivesse passado um pouco mais, o ferimento teria atingido o olho.— Ivana, o que aconteceu?A chefe de enfermagem, Sônia, limpava o machucado com cuidado, aflita.Ivana tinha entrado no hospital naquele ano. Tinha apenas dezenove anos e ainda era solteira.Agora, com o rosto ferido, se ficasse cicatriz, isso poderia até afetar o futuro dela, inclusive para encontrar alguém.Ivana também sabia disso. Ao ver Sônia, seus olhos ficaram vermelhos imediatamente.— Foi ela que jogou a coisa em mim.Ela apontou para Lavínia, cheia de mágoa.O rosto de Sônia esfriou:— Senhora, você não tem nada a dizer? Agressão sem motivo também traz consequências.Lavínia já tinha se acalmado um pouco.Ao ouvir aquilo, o pânico atravessou seus olhos.Instintivamente, ela olhou para Bernardo, esperando que ele falasse por ela.Ao perceber o pedido, Bernardo, por hábito, tentou defender ela.— A Lavínia não fez de propósito, ela tem depressão...— E não ter feito de propósito permite machucar alguém? Ter

  • Se Não Posso Ter Você   Capítulo 5

    — Pá!A marmita caiu no chão, fazendo um barulho seco. A comida se espalhou por toda parte, mas ninguém se importou.Bernardo levantou de repente, incrédulo:— O que você disse?A enfermeira se assustou e olhou para ele, confusa.— Você é da família da Sra. Joyce?— A Sra. Joyce ficou internada por causa de um aborto espontâneo há alguns dias e esqueceu de pegar a medicação. Eu vi ela saindo desse quarto agora há pouco, então vim perguntar. Quem aqui é da família dela?Bernardo abriu a boca, o rosto ficando cada vez mais feio:— Eu... eu sou o marido dela.Ao ouvir isso, a expressão amigável da enfermeira mudou na hora.Ela avaliou Bernardo de cima a baixo, o olhar carregado de sarcasmo.— Então você é o marido irresponsável da Sra. Joyce? Ela ficou internada por tanto tempo depois de perder o bebê e você não apareceu nem uma vez. Parabéns, viu.As pupilas de Bernardo tremeram. Ele falou com dificuldade:— Eu... eu não sabia que ela tinha perdido o bebê...A enfermeira soltou uma risa

  • Se Não Posso Ter Você   Capítulo 4

    Sorri e expliquei:— Grávida fica mais sensível mesmo. Daqui a pouco passa.Bernardo soltou um suspiro de alívio.— Ainda bem. Eu acabei esquecendo de perguntar... que tipo de escapulário você gosta? Um de anjo da guarda? Ou é melhor algo mais simples?Fiquei surpresa. Não esperava que ele se importasse tanto.Se tivesse se importado assim antes...— Pode ser. Você decide.Bernardo assentiu. Depois de confirmar o que eu queria, foi embora.Antes de fechar a porta, perguntou mais uma vez:— Você tem certeza de que está bem?Abri a boca, e de repente um fio de esperança surgiu dentro de mim:— Se eu não estivesse... você poderia ficar comigo?Bernardo hesitou, então sorriu:— Para com isso. A Lavínia está me esperando no hospital. Dorme cedo.Quando a porta se fechou, eu não consegui mais segurar o choro.Chorei por ter sido tão tola a ponto de me casar com Bernardo.Chorei ainda mais por, mesmo assim, continuar criando esperança nele, uma vez após a outra.Eu já sabia o resultado desde

More Chapters
Explore and read good novels for free
Free access to a vast number of good novels on GoodNovel app. Download the books you like and read anywhere & anytime.
Read books for free on the app
SCAN CODE TO READ ON APP
DMCA.com Protection Status