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Capítulo 3

Author: Gaia
Depois de conseguir o que queria, Bernardo falou de repente:

— Você fez canja? Então não bebe agora. A Lavínia é fraca, a canja vai ajudar a fortalecer.

Minha mão, segurando a tigela, parou no ar.

Fiquei olhando para ele, atônita:

— A Kayra fez especialmente pra mim.

Bernardo agiu como se não tivesse ouvido.

Abriu o armário e procurou um recipiente para levar.

— Eu conheço o seu corpo. Tomar ou não tomar canja dá no mesmo. Dessa vez deixa pra Lavínia. Da próxima eu levo você para comer em um restaurante.

Essas palavras familiares me puxaram de volta ao passado.

“Joyce, vou dar esse vale pra Lavínia primeiro. Quando cair o salário, mando fazer uma roupa pra você.”

“Joyce, você não precisa ir ao baile. Cede o seu lugar pra Lavínia. Quando tiver outro espetáculo, eu chamo você.”

“Joyce, a Lavínia quer conhecer meus amigos. Nesse encontro você não vem. Da próxima eu levo você.”

“Joyce...”

Tantos [da próxima vez]. Tantos que eu já nem conseguia contar.

Aproveitando minha distração, Bernardo colocou a canja dentro do pote e disse, de maneira superficial:

— Eu já vou. Se cuida direitinho em casa.

Depois virou as costas e saiu.

A barra da roupa dele esbarrou sem querer na tigela sobre a mesa.

Com um estrondo, a tigela caiu no chão e se partiu, junto com o meu coração.

— Bernardo.

Chamei por ele e tirei do bolso o frasco de vidro com noventa e nove feijões.

— Noventa e nove. Confere.

As costas dele enrijeceram. Ele se virou, me olhando, chocado.

— Já chegou?

Balancei a cabeça:

— Chegou.

Bernardo pousou o que tinha nas mãos, constrangido.

Eu não falei nada. Só queria uma resposta.

Como eu já esperava, depois de hesitar por alguns segundos, ele disse:

— Joyce, a Lavínia agora não pode ficar sem ninguém...

Um traço de culpa passou pelos olhos dele, mas mesmo assim continuou:

— Nosso acordo... deixa pra lá.

Baixei o olhar e suspirei de leve:

— Tá bem.

Bernardo ficou parado, incapaz de acreditar que eu tinha aceitado.

Ele me abraçou, emocionado:

— Você é tão boa. Fica tranquila, quando a Lavínia melhorar, eu vou compensar você. Vou passar um tempo direito ao seu lado.

Assenti e fiz apenas um pedido:

— O bebê está para nascer. Eu queria um escapulário.

Ao ouvir falar da criança, a expressão dele ficou ainda mais suave.

— Claro. Quando eu voltar, acompanho você no pré-natal e compro para o nosso filho o escapulário mais bonito, o melhor de todos.

Minhas pupilas tremeram, e a dor de ter perdido meu filho veio outra vez, como uma maré que me afogava.

— Tá bem.

Só que meu filho... nunca mais poderia ver.

Depois que ele saiu, levantei e abri a gaveta, tirando aquele maço de exames que eu havia organizado.

A primeira confirmação da gravidez.

O primeiro pré-natal.

A primeira vez que peguei os remédios para segurar a gestação...

Em todas as noites em que Bernardo não estava em casa, eu pegava aqueles papéis para olhar.

Ali estavam a expectativa e a emoção de me tornar mãe pela primeira vez, e também a esperança bonita que eu tinha para a nossa família.

Mas agora...

Tirei do bolso o laudo do aborto espontâneo e, tremendo, coloquei junto com os outros.

As lágrimas caíram, molhando o papel, como uma despedida.

Respirei fundo.

Eu ia fechar a gaveta quando, de repente, ouvi a voz de Bernardo atrás de mim.

— O que você está fazendo?

Assustada, fechei a gaveta depressa e enxuguei o canto dos olhos.

Bernardo se aproximou, o olhar fixo na gaveta.

— Por que você voltou? — Encostei as costas no armário, mudando de assunto de maneira dura.

Ele deu mais um passo e levantou a mão até o meu rosto.

— Você chorou? — Ficou olhando para as lágrimas na ponta dos dedos, perdido, sem saber o que fazer.
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