ログインAcordei ofegante, os lençóis enrolados em meu corpo como cobras sufocantes. Meu coração martelava contra as costelas como se tentasse escapar. A imagem ainda estava queimada atrás das minhas pálpebras.
Lara, mas não a Lara que eu conhecia das minhas aulas.
Nos meus sonhos, ela era... Diferente. Mais ousada. Seus olhos, normalmente baixos e evasivos, queimavam com um fogo azulado que me fez sentir como um manuscrito raro sendo devorado pelas chamas.
Ela usava um vestido vermelho que se agarrava a cada curva de seu corpo, e sua boca se movia em palavras que eu não conseguia ouvir, mas que sentia como um toque físico no meu corpo.
— Dorian? — A voz suave da minha esposa, Sarah, cortou através da névoa do meu desejo. — Você está bem? Estava se contorcendo...
Virei-me para olhar para ela. Seu cabelo loiro desalinhado, seus olhos azuis cheios de preocupação genuína. Sarah, minha âncora, minha realidade. E ainda assim...
— Só um pesadelo. — Menti, minha voz mais áspera do que o normal. — Volte a dormir.
Mas quando ela se aconchegou contra meu peito, seu perfume familiar de lavanda não conseguiu apagar o cheiro de jasmim e algo mais escuro, mais terroso que parecia emanar da própria Lara em meus sonhos.
O resto da noite passei encarando o teto, meu corpo tenso, cada batida do meu coração ecoando com a imagem daqueles olhos escuros que me fitavam através das sombras.
Na manhã seguinte, no chuveiro, a água quase fervente não conseguiu lavar a sensação de seus dedos na minha pele. Quando me vesti para a universidade, minhas mãos tremiam ao fazer o nó da gravata.
Eu me via no espelho, um homem de quarenta e dois anos, professor respeitado, marido fiel… E sentia uma vergonha avassaladora pelo que meu subconsciente havia fabricado.
No caminho para a faculdade, parei no café onde Sarah e eu íamos aos domingos. O cheiro de pão fresco normalmente me confortava, mas hoje me enjoo.
— O usual, professor Caine? — A barista perguntou com um sorriso brilhante.
Abri a boca para dizer sim, mas o que saiu foi:
— Café preto. Forte.
Ela levantou uma sobrancelha. Eu sempre tomava um latte com canela, mas ela assentiu. Enquanto esperava, meus olhos foram atraídos para uma mulher de cabelos escuros no canto. Ela não se parecia em nada com Lara, mas meu corpo reagiu como se fosse - uma onda de calor, uma aceleração do pulso.
Amaldiçoei baixo e peguei meu café, derramando um pouco do líquido escaldante na minha mão no processo. A dor foi uma distração bem-vinda.
No auditório, meus olhos evitaram instintivamente a fileira do fundo onde Lara sempre se sentava. Mas quando ela entrou, atrasada como sempre, foi como se todo o oxigênio tivesse sido sugado da sala.
Ela estava usando um suéter preto de gola alta que enfatizava a palidez de sua pele, e suas meias listradas subiam até os joelhos. Nada revelador, nada inapropriado para uma universitária. E ainda assim, senti uma onda de desejo tão intensa que precisei me agarrar ao pódio.
— Desculpe pelo atraso, professor. — Ela murmurou, seus olhos encontrando os meus por um segundo antes de baixarem.
Seu olhar foi rápido, mas suficiente. Era o mesmo olhar do meu sonho - intenso, como se soubesse exatamente que tipo de tormento ela havia infligido à minha noite.
— Não... Não se preocupe. — Minha voz soou estranha, rouca. — Apenas sente-se.
Durante toda a palestra, senti seu olhar sobre mim como um toque físico. Quando me virei para escrever no quadro, podia sentir aqueles olhos escuros percorrendo meu corpo, e minha caligrafia, normalmente impecável, tornou-se irregular.
— Professor? — A voz de Lara cortou minha explicação sobre Shakespeare. — Você acha que o desejo de Macbeth por poder era realmente sobre ambição... Ou sobre preencher um vazio dentro dele?
O auditório ficou em silêncio. Era uma pergunta astuta, muito mais perspicaz do que o normal para uma caloura.
— Ambos, eu diria. — Respondi, evitando seu olhar. — O poder muitas vezes é um substituto pobre para o que realmente falta em nossas almas.
Ela sorriu - um lento e pequeno sorriso, mantendo aquela aura de inocência juvenil que ela ainda carregava.
— Então, talvez ele apenas precisasse ser... Preenchido de maneira diferente.
Alguns alunos riram, mas eu senti um calafrio percorrer minha espinha. Havia uma dupla intenção em suas palavras que me fez questionar se ainda estava sonhando.
Após a palestra, fugi para meu escritório, trancando a porta atrás de mim. Respirei fundo, tentando me recompor. Era ridículo. Eu era um homem adulto, não um acadêmico assediado por fantasias hormonais
Mas quando fechei os olhos, tudo o que vi foi ela. A curva de seu pescoço, a umidade de seus lábios, a maneira como seu suéter se agarrava aos seus seios...
Abri os olhos com um solavanco e peguei a foto de Sarah na minha mesa. Nosso dia de casamento. Seu rosto radiante, seu vestido branco, meus olhos cheios de amor e não desse... Desejo doentio.
— O que está acontecendo comigo? — Sussurrei para a sala vazia.
Minha própria mente havia se voltado contra mim, tecendo fantasias com uma estudante, uma jovem adulta, mas ainda com traços de inocência que me lembravam sua juventude. Era repugnante. Era...
A campainha da porta me fez pular.
— Professor Caine? — A voz era dela. Lara. — O senhor pode me emprestar o livro de Shakespeare?
Antes que eu pudesse responder, a maçaneta girou. Eu a tinha trancado? Não, claramente não, porque a porta se abriu e ela estava lá, o livro que eu havia usado em cima da minha mesa.
— Claro. — Respondi, arrastando o livro na direção dela.
— Obrigada. — Ela disse, pegando-o. Seus olhos percorreram meu rosto suado, minha gravata desfeita, a foto que eu ainda segurava com força. — Está tudo bem, professor? Você parece... Doente.
— Estou bem. — Disse muito rapidamente. — Apenas um dia cheio.
Ela mordeu o lábio inferior, e meu estômago se contraiu.
— Sonhei com você ontem à noite.
O ar saiu dos meus pulmões.
— O que?
— Em meu sonho… — Ela continuou, seus olhos fixos nos meus. — Você estava me ensinando sobre... Paixão. Dizia que algumas histórias são melhor aprendidas através da experiência.
Eu não conseguia respirar. Não conseguia me mover. Ela descreveu exatamente o que eu havia sonhado, mas invertido.
— Isso é... Inapropriado, Lara. — Forcei as palavras para fora. — Você deve ir.
Ela assentiu, mas ao passar por mim, sua mão tocou levemente a minha. Um choque elétrico percorreu meu braço.
— Até amanhã, professor. — Sussurrou ela, e pela primeira vez, seu sorriso não foi o da jovem tímida que eu conhecia. — Durma bem.
Quando ela se foi, desabei em minha cadeira, minhas mãos tremendo incontrolavelmente. Não era minha imaginação. Não era coincidência.
Algo profundamente errado estava acontecendo, e eu não tinha ideia de como parar.
Naquela manhã, quando Aggy se levantou, eu já estava dentro do vidro. Não apareci no reflexo do banheiro, não sussurrei provocações em sua mente, não a acompanhei até a porta. Ela parou no meio do quarto, a mochila pendurada em um ombro, e olhou para o espelho com uma expressão que eu não soube decifrar.— Dalthor? — Ela me chamou, a voz baixa.— Estou aqui. — Respondi, e minha voz soou dentro da mente dela, distante, como se viesse do fundo de um poço.— Você não vai sair?— Não.Ela franziu a testa, os olhos verdes me procurando através do vidro. Eu estava lá, mas não me mostrei por inteiro. Apenas uma sombra, uma presença difusa na superfície prateada.— Por quê? — Ela perguntou, e havia algo na voz dela que parecia quase decepção.— Porque se eu sair, o espelho vai sugar você até definhar. — Respondi, sem rodeios. — Eu preciso ficar aqui dentro. Pelo menos por um tempo.Aggy ficou em silêncio por um momento, processando. Seus dedos se ajustaram na alça da mochila, e ela mordeu o l
Passei o dia inteiro tentando evitar Dalthor. Não que fosse difícil — ele simplesmente não apareceu. Em nenhum espelho, em nenhuma janela, em nenhuma superfície reflexiva. Nada. O silêncio dele deveria ter me trazido alívio, e por um momento, trouxe. Eu conseguia respirar sem aquela presença constante, sem aqueles olhos âmbar me seguindo por toda parte, sem os comentários que me tiravam do sério. Conseguia me concentrar nas aulas, nos professores, no maldito trabalho em grupo. Mas a minha mente não parava. O beijo do sonho voltava em ondas, como flashes que se repetiam nos momentos mais inoportunos. Eu estava na aula de história da arte, tentando anotar algo sobre o Renascimento, e de repente sentia o gosto dele. A pressão dos lábios, o calor do corpo, a textura dos cabelos entre meus dedos. Fechava os olhos por um instante e via as presas se alongando, o sorriso provocador, a voz rouca dizendo "sou algo pior". E eu não tinha sentido medo. Era isso que me assustava. Não ele, não o
Eu sabia o que o espelho fazia com ela.Desde a primeira noite, quando Aggy pendurou a moldura antiga na parede ao lado da cama, eu senti a energia dela fluir para mim como um rio invisível. Não era algo que eu controlasse. Era o espelho, a maldição, o vínculo que nos unia. O objeto antigo se alimentava da vitalidade do portador, drenando lentamente, como uma sede que nunca se saciava. E eu, preso ali, era o receptor involuntário daquela energia.Por isso Aggy acordava exausta. Por isso as olheiras se aprofundavam e o cansaço pesava em seus ombros como uma capa invisível. Eu odiava aquilo. Odiava ver o brilho dos olhos dela diminuir, a vivacidade se apagando aos poucos. Mas não podia fazer nada. Não enquanto estivesse preso.Naquela noite, quando ela adormeceu depois do banho, eu fiquei sentado na borda da cama, observando. O rosto dela estava relaxado, os cabelos escuros espalhados no travesseiro, a respiração lenta. Pela primeira vez em dias, ela dormia profundamente, e eu me permi
— Você está quieto de repente. — Aggy murmurou quando a aula terminou e os estudantes começaram a sair. Ela estava guardando o caderno na mochila, os movimentos calmos, como se tivesse todo o tempo do mundo.— Estou pensando. — Respondi, a voz baixa.— Perigoso. — Ela brincou, e o sorriso que se formou em seus lábios fez algo se contrair dentro de mim.— Mais perigoso é você andando com aquele nerd. — Retruquei, levantando-me da mesa.— Ele tem nome, você sabe. — Ela disse, ajeitando a alça da mochila no ombro.— Prefiro o apelido.Ela revirou os olhos, e eu senti uma pontada de satisfação. Aggy saiu da sala andando pelo corredor, os passos firmes, o cabelo escuro balançando. Eu fui atrás, como uma sombra que se recusava a desaparecer.— Você precisa parar de me seguir. — Ela murmurou, sem olhar para trás.— Eu não posso ficar longe de você. — Respondi, e a frase tinha mais verdade do que eu gostaria de admitir.— Isso é cansativo.— Mas você não quer que eu vá embora. — Arrisquei.El
A aula de Projeto de Interiores era entediante na maior parte do tempo.A professora falava sobre proporções, iluminação natural e materiais sustentáveis, enquanto eu observava a sala com uma paciência que séculos de existência me ensinaram a cultivar. Aggy estava na fileira do meio, perto da janela, o caderno aberto sobre a mesa, a caneta girando entre os dedos em um movimento distraído que parecia hipnotizá-la tanto quanto a mim. Eu estava em pé ao lado dela, invisível para todos, as mãos enfiadas nos bolsos da jaqueta. Ninguém podia me ver, a sala inteira me tratava como um móvel, o que era irônico, considerando o quanto eu opinava mentalmente sobre a decoração do lugar. Mas Aggy sabia que eu estava ali. A forma como seus ombros ficavam mais tensos quando eu me aproximava, a maneira como seus olhos se desviavam para o reflexo na janela procurando por mim, o jeito como a respiração dela mudava quase imperceptivelmente. Nada disso me passava despercebido.A professora anunciou o tr
Acordei com o corpo pesado, como se tivesse corrido uma maratona durante a noite.Cada músculo doía, uma dor surda e profunda que parecia vir de dentro dos ossos. Tentei me sentar, mas os braços tremeram com o esforço, e precisei de alguns segundos para conseguir erguer a cabeça do travesseiro. A sensação era estranha, como se alguém tivesse sugado minha energia enquanto eu dormia, deixando apenas o cansaço para trás.— O que... — Murmurei, a voz rouca, mal saindo da garganta.O quarto estava silencioso, apenas o som do meu coração batendo contra as costelas. O espelho, na parede, refletia meu rosto cansado. Olheiras mais fundas, cabelos desalinhados, a expressão de quem não dormia há dias. Mas eu tinha dormido. Pelo menos tentado.O problema é que não parecia ter descansado.Arrastei-me para fora da cama com um esforço que exigiu toda a minha concentração, os pés descalços encontrando o chão frio do dormitório. Cada passo era uma batalha, e eu mal conseguia manter os olhos abertos en







